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Ricardo Saint-Clair
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12   Jan   2012

Criação

Tudo é design?

Escrever é o design de palavras. Filosofar é o design do pensamento.

Sempre ampliei a palavra design para além de um reducionismo histórico, que insiste em associá-la apenas à estética ou à função de produtos e peças de comunicação.

Todos concordam que o surgimento da espécie humana nesse planeta é um fenômeno de consequências extraordinárias. O impacto dessa existência nos últimos mil anos supera em muito os milhões que vieram antes, e faz muita gente se perguntar se completaremos os próximos quinhentos. Lembro de uma charge inglesa em que a Lua pergunta para a Terra, que está com uma aparência muito doente, o que é que tinha ocorrido com ela. A Terra responde: "I'm sick.. I've got Homo Sapiens". Porquê? Porque o ser humano é um designer. Para o bem e para o mal.

A palavra design é nova e ganhou força após a revolução industrial, representando essa linha limítrofe entre técnica e criatividade, tecnologia e arte, ciência e poesia. Mas a "manifestação" do design é tão nova assim?

Algumas pontas de flechas da Idade da Pedra revelam símbolos esculpidos diretamente nas rochas. Esse adorno era uma superstição? Ou uma simples ornamentação sem propósito algum? Ou uma diferenciação, deixando claro no corpo do animal o verdadeiro dono daquela caça? Estaria esse Homo Sapiens inventando a Logotipia? Continuando no tópico flecha, por volta de 200 a.C., o Primeiro Imperador da China percebeu que havia um desperdício enorme durante as batalhas, além das vidas dos seus soldados. Os arcos e as flechas eram feitos artesanalmente por cada guerreiro. Resultado: em caso de morte, as flechas que sobravam só funcionavam no arco do falecido. Ele ordenou então a criação de um padrão único: todas as flechas funcionariam em todos os arcos, garantindo o poder bélico e o sucesso do Império. Estaria ele criando o Design Industrial muito antes do conceito indústria sequer existir?

Em um mundo cada vez mais complexo, que exige diferenciação contínua de marcas e produtos para um capitalismo em crise, o lado reducionista do design cai como uma luva, girando um mercado cego e faminto. Mas o design cai perfeito também em outra luva: na busca de soluções para os dilemas entre consumo e descarte, entre crescimento e sustentabilidade, entre produção e reuso. Vide a proposta Cradle to Cradle, para citar um exemplo.

Assumir o design como parte intrínsica da natureza humana, seja ela filosófica, espiritual ou científica, nos eleva para além das soluções imediatas de venda e consumo. Precisamos aumentar a nossa responsabilidade e entender a amplitude da nossa profissão, para sermos de fato co-autores desse milênio.

Como disse Bruce Mau, sair um pouco do mundo do design e se entregar de vez ao design do mundo.

Ricardo Saint-Clair é sócio-fundador e diretor de criação da Dialogo Design