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“No meu barco, na minha camisa, a sua marca? Nem a pau”

O navegador Amyr Klink conta sua opinião sobre a publicidade brasileira e a relação que mantém com ela

28 de Novembro de 2011 08:14

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Amyr Klink: "Tem gente que acha que eu sou especialista em patrocínio, mas eu não quero saber disso". Crédito: Arthur Nobre

Navegador, escritor e palestrante renomado, Amyr Klink acostumou-se a cruzar oceanos sozinho, a bordo de veleiros que ficaram famosos, como Paratii 1 e 2. Além de expedições importantes, como a viagem de circunavegação da Terra e a travessia do Atlântico em um barco a remo, Klink escreveu best-sellers como Cem Dias entre Céu e Mar e As Janelas do Paraty. Sócio-fundador do Museu Nacional do Mar, o aventureiro analisa sobre a publicidade brasileira, fala sobre o (pouco) envolvimento com as marcas e aposta no meio digital como ferramenta de comunicação.

Meio & Mensagem ›› O que você acha da publicidade brasileira? 

Amyr Klink ›› Estamos em um processo de evolução grande no qual, de repente, o consumidor começa a ficar exigente e os clientes ficam exigentes com as agências. Acho esse um cenário interessante. Tem muita coisa para ser feita ainda. Apesar de termos grandes estrelas e coisas interessantes acontecendo, tem muita coisa que ainda está capenga. 

M&M ›› Você já participou de alguma campanha ou ação para alguma marca? 

Klink ›› Eu não gosto. Já fiz com alguns produtos com quem tínhamos uma ligação — por exemplo, seguros, bancos e alumínio —, mas as únicas coisas que fizemos foram mais institucionais do que propaganda. A última vez que topei fazer alguma coisa foi para Caixa Econômica, para uma linha de crédito. Mas hoje eu já não gosto mais de fazer isso. 

M&M ›› E por que você não gosta? 

Klink ›› Porque eu não quero ter nenhuma espécie de patrocínio. Surge muito, mas eu gosto de ter liberdade de fazer o que eu decidir. Às vezes, têm projetos que fazemos com empresas que têm muito dinheiro envolvido, e a primeira coisa que o pessoal imagina é “vou fazer uma foto da campanha”. Não, não tem foto da campanha. Ninguém faz uma associação com a identidade do produto, com o conceito. O publicitário ou o diretor de marketing sempre querem sua logomarca lá. “Mas no meu barco, na minha camisa, a sua marca? Nem a pau.” Eu não gosto de ter envolvimento, mas tenho um baita prazer quando temos uma ligação autêntica com uma empresa, com uma marca. 

M&M ›› Você tem algum exemplo de ligação autêntica com uma marca? 

Klink ›› Ah, vários. Trabalhamos com a CSL, a Cordoaria São Leopoldo, há 30 anos já. Vimos a empresa crescer e de uma “fabriquinha” de cordas virar o maior fabricante de ancoragens e plataformas do mundo. Fabricantes de vidros, por exemplo, ou vários tipos de produtos que usamos. No caso da Nutrimental, é interessantíssimo: era uma empresa que atendia muito ao governo, um mercado difícil, e o sonho deles — no segundo ou terceiro projeto que fiz com eles — era entrar no mercado de varejo, que é muito competitivo no Brasil. E eles não conseguiam. Aí, fiz uma viagem para a Polinésia Francesa e trouxe uma barrinha de cereal. Nessa época ninguém sabia o que era. Como eu já tinha feito uns três projetos com a Nutrimental, levei a caixinha que ganhei das barras, o pessoal analisou e adorou. E a empresa apostou na barrinha com todas as fichas e foi um desastre. Ela quase quebrou. Anos mais tarde, eu ainda me sentia culpado (risos), e eles resolveram lançar de novo, com um nome diferente. Tiraram o mental (virou Nutry). Hoje são líderes de mercado. Então, essas coisas são interessantes. 

M&M ›› Você já teve alguma das suas expedições patrocinada? 

Klink ›› Tem muita gente que acha que sou especialista em patrocínio. O (Felipe) Massa veio aqui e me perguntou “Como é que você consegue?” Eu não consigo, tá louco? (risos). Eu não quero saber disso. Às vezes, a gente precisa correr atrás, mas hoje — com quase 60 anos de idade —, se eu não for dono do dinheiro para fazer o que eu gosto, é melhor ir para o cemitério, sei lá. É melhor ser publicitário (risos). Não vou ficar correndo atrás. Fizemos projetos incríveis, que montávamos em um ou dois dias. E aí começamos a perceber que tinha muita coisa interessante que era perdida. Oportunidades interessantes, de colocar uma marca, um produto. No caso do Santander, quando começamos a mexer com seguros; com o Bradesco também. Mas hoje eu não quero ter vínculo. Às vezes, quando é uma relação autêntica e vamos usar aquele determinado produto — pneu, sabonete, sei lá —, aí é legal. Mas eu não gosto de transformar essa relação em algo puramente publicitário. 

M&M ›› Você viaja muito. Como compararia a publicidade brasileira em relação à de outros países? 

Klink ›› Tem um lado interessante. Lá fora existe um cuidado muito grande em não vender errado o produto. Tem um critério ético em relação ao produto e aos fornecedores, aqui tem menos isso. Mas acho que em matéria de resultado, criatividade e impacto, nós não ficamos devendo nada para ninguém. 

M&M ›› Como espectador, tem alguma campanha ou ação que o tenha marcado? 

Klink ›› Do mesmo jeito que eu disse que tem muita coisa para melhorar ainda, podemos ver que há coisas nas quais o publicitário faz falta. Por exemplo, vi um anúncio do Almenat (Centro de Convenções em Embu das Artes) em uma mídia que eu acho fabulosa, que é das companhias de aviação: um letreiro monstruoso, para impactar. E ficou horrível! Quer dizer, destruiu a comunicação do espaço. Uma muito legal que eu vi foi essa do Neymar com a Lupo (campanha “Agora eu sou meia”, criada pela G2). Eu nem gosto de futebol, mas achei genial. 

M&M ›› Você lançou um novo site neste ano. Como é que foi este processo? Qual a sua relação com a internet? 

Klink ›› Eu nunca levei muito a sério, porque tenho uma atividade que não é exatamente comercial, então nunca me preocupei muito com visibilidade — aliás, nem gosto muito. No começo, ganhamos alguns prêmios, teve algumas coisas interessantes, mas depois eu admito que acabamos relaxando nesta parte do website. Aí surgiu a ideia de atualizar isso. Sentimos a importância disso até por razões de segurança: quando estamos no mar, temos novas facilidades de acesso à comunicação em qualquer situação. Hoje não falamos com outro barco por rádio: mandamos e-mail, falamos por alguma rede social. É uma coisa muito maluca (risos). 

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