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“Eu fiquei assustado com a propaganda do Byafra”

O músico Marcelo Jeneci dá sua opinião sobre o mercado publicitário brasileiro e o papel da internet para os músicos

19 de Dezembro de 2011 17:30

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O músico Marcelo Jeneci Crédito: Ariel Martini

Com um único disco lançado (Feito para Acabar, de 2010), o músico e compositor Marcelo Jeneci já é reconhecido como um dos novos talentos da música brasileira. Nesta entrevista, o artista alerta para o uso de artistas e músicas em ações pejorativas 

Meio & Mensagem ›› Como está sua carreira neste momento? 

Marcelo Jeneci ›› Eu fiz o disco em 2010 e passei um ano fazendo shows e tocando ele inteiro, inclusive nos Estados Unidos. Agora, no final do ano, tenho um último show no Ginásio do Sesc Ipiranga (em São Paulo) e, no ano que vem, o lançamento do disco em Portugal e na Europa. Então, é provável que eu passe o ano de 2012 circulando com o show do disco enquanto continuo compondo. 

M&M ›› Você já participou de alguma campanha publicitária? 

Jeneci ›› Não participei, nunca rolou. 

M&M ›› Mas você participaria? 

Jeneci ›› Eu não sei dizer, depende de muita coisa. Tem uma coisa muito importante que é todo o mecanismo, o trabalho, a forma de criação que achamos para fazer um trabalho autoral. E quando isso é cortado para vender uma mentira em cima desta verdade, eu me preocupo. Então, acho que para encarar uma parceria com alguma marca, tem de ser em cima de algo em que também acredite. Porque, às vezes, a pessoa passa uma vida desenvolvendo uma estrutura de criação, procurando e perseguindo isto durante a vida inteira e a empresa gasta muita grana para vender algo que nem sempre o artista concorda. Depende da verdade nos dois setores: tanto do artista quanto do produto vendido pela publicidade. Eu acredito em uma parceria bacana quando há identificação. Não sou contra, só acho que tem de ser escolhido a dedo. 

M&M ›› Você teria algum problema em compor trilhas para comerciais? 

Jeneci ›› Acho que poderia topar, sim, pois me interessa muito. Tem uma música específica do meu disco, “Show de estrelas”, que tem uma coisa comemorativa, da galera, e eu adoraria que a Cola-Cola me ligasse e pedisse para usar essa música na propaganda deles (risos). Acho que poderia até ser em um estádio, ao redor do futebol, algo que mostre esse lance da união, de muita gente em torno de uma coisa, porque a música tem esse astral. Se um dia for requisitado para isso, eu vou adorar. 

M&M ›› Qual sua opinião sobre a publicidade brasileira? 

Jeneci ›› Tem aquele grande império do (Washington) Olivetto, que tem um trabalho de arte muito profundo, e outras pessoas que estão ali no mesmo time e no mesmo patamar dele, mas que eu não vou saber dizer agora os nomes. É um meio muito eficaz aqui no Brasil, muito utilizado e muito fácil de ser produzido para grandes massas, com um histórico de ótimos resultados. Mas, em geral, acho que o mundo está um pouco cansado de tanta publicidade e que precisa de coisas mais sinceras e sem tantas firulas. Toda publicidade que acaba criando algo um pouco mais próximo da vida real e da verdade tem tido melhor efeito atual­mente. Tudo que é mentira tem sido rejeitado pelas grandes massas. A internet chegou e todo mundo pode buscar informação. Atualmente, vivemos um período em que todas as coisas verdadeiras são bem-vindas. 

M&M ›› Você comentou sobre o papel da internet hoje em dia. Qual a sua relação com ela? 

Jeneci ›› Além de divulgar meu trabalho — e falar com as pessoas através das redes sociais —, usufruo pouco de tudo que a internet oferece, como baixar filmes e músicas ou assistir à TV. Tenho vontade de fazer, mas ainda não consegui migrar todo meu entretenimento de casa para a internet. Mas para divulgar o trabalho acho fundamental! Eu fiz um show em Fortaleza um ano atrás e encontrei seis mil pessoas cantando todas as músicas. Isso só é possível graças à internet, por onde as pessoas vão aprendendo as músicas e criando uma relação com o artista e com o seu trabalho. Não depende tanto de uma coisa mais vagarosa, como ter de comprar o disco e esperar que faça o show. Eu sinto na prática que a internet ajuda muito. Até acho que hoje os discos de ouro deveriam ser mensurados por downloads e não pelas vendas físicas. Acho que tem de se atualizar um pouco, porque o mundo está muito mais dependente deste combustível da internet do que de qualquer outro. 

M&M ›› O que você acha da internet como meio para os músicos divulgarem seu trabalho? 

Jeneci ›› Acho que a internet é um cartão de visita. Você se apresenta pessoal­mente no show – e essa exposição ao vivo nunca vai ser substituída. Inclusive, acredito que a internet ajude a criar mais demanda de show.

M&M ›› Existe alguma campanha que tenha te chamado a atenção recentemente? De maneira positiva ou negativa? 

Jeneci ›› Ah, eu prefiro falar bem (risos). A campanha da Natura que foi veiculada nos cinemas (ação nas salas de exibição desenvolvida para a Natura Plant pela ID\TBWA) em que as pessoas­ iam mandando vídeos em homenagem às mulheres de verdade. Achei essa campanha muito bonita e acho que tocou no coração de muita gente, porque promoveu a marca da empresa e mostrou a beleza. Quando rola a magia, essa arte, onde quer que seja, é marcante.
 

M&M ›› E negativamente, teve alguma? 

Jeneci ›› Eu fiquei um pouco assustado com aquela do Byafra (criada pela AlmapBBDO para a Bradesco Seguros) em que ele ficava cantando dentro do carro, de algum modo oferecendo a própria imagem e a própria música para algo pejorativo. Eu respeito todas as necessidades que a gente pode ter e que acabam fazendo com que a gente mude o crivo ou a exigência com uma coisa ou outra, mas com essa fiquei um pouco assustado. Tomara que tenha dado certo pra ele, mas acho que não toparia, a não ser que eu estivesse numa situação sem muita saída.

M&M ›› Se você pudesse mandar algum recado, sugestão ou crítica para o mercado publicitário brasileiro, o que você falaria? 

Jeneci ›› Eu daria a seguinte sugestão: acho que a gente está vivendo o começo de uma nova era, em que a vontade do tempo clama por algo mais sereno, menos veloz e mais sincero. Sem tanta firula, com mais verdade, e que se aproxime da beleza e da crueza da vida real. Acho que as campanhas que abordam um pouco este caminho acabam tendo um feedback de muita gente, porque isso está no ar, e quem se conecta a isso acaba tendo a aceitação de um campo de trabalho muito generoso pela frente. 

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