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"Os publicitários roubam piada direto”

O comediante Marcelo Mansfield critica a falta de criativade da propaganda atual

09 de Janeiro de 2012 08:00

Meio & Mensagem ›› O que você acha desta “explosão” de comediantes fazendo anúncios? Entre as dez celebridades que mais apareceram em campanhas de TV em 2011, temos o Bruno Mazzeo, que é humorista. O Marcelo Adnet e o Rafinha (Bastos) também fazem muitos comerciais...
 

Marcelo Mansfield ›› Eu comecei na publicidade, fiz mais de 500 comerciais. E era justamente isto: uma explosão de humor na propaganda por conta do movimento teatral paulistano na época, que chamávamos de “movimento underground”. Erámos eu, a Ângela Dip, o Wandi (Doratiotto), o pessoal do Premeditando o Breque e do Língua de Trapo. Era a década de 1980, a qual consideramos a época áurea da publicidade. Os grandes nomes da publicidade, os grandes mitos da publicidade de hoje, escreviam os comerciais da época. Acho que de geração em geração acontece uma explosão da comédia na publicidade. A mesma coisa que aconteceu com a minha turma na década de 1980 está acontecendo agora, na década de 10. Acho que aproveitar a comédia atual na publicidade é maravilhoso. Eu considero o Marcelo Adnet um gênio.  

Meio & Mensagem ››  

Nesses mais de 500 comerciais que você fez, o que destacaria como grandes momentos da propaganda?

Marcelo Mansfield ›› Nescafé. Fiz uma propaganda que, diz a lenda, aumentou em mais de 40% as vendas. Mas é lenda publicitária, não sei se é verdade. Era uma propaganda que ligava uma câmera e eu dizia: “Você sabia que as tartarugas só põem ovos no inverno?” Tem no YouTube. Era muito engraçado. E tem outra historinha de quando o Rafinha Bastos era criança. A professora chamou a mãe dele e disse: “Ele é muito levado, safado, mas quando ele está bonzinho, parece o cara do lanchinho Knorr”. Que era eu! Quando eu conheci o Rafinha, a primeira coisa que ele falou foi: “Nossa, você faz parte da minha infância”. Era essa referência do lanchinho Knorr, um produto que não fez sucesso na década de 1980, mas que hoje é um grande sucesso – que são essas sopas instantâneas.
 

Meio & Mensagem ›› No caso do Rafinha, teve o episódio dele com a Wanessa Camargo, que já se concluiu. Você acha que deve haver um controle do humor? Vivemos em um período de controle?
 

Marcelo Mansfield ›› Sim, acho que está pior que na época da ditadura, porque agora não vem do governo, vem do público. Este patrulhamento que vem do público é insuportável. Às vezes, você coloca uma piadinha no Twitter e aquilo vira uma coisa over, um negócio... Acho que cada comediante tem seu limite. Tem coisas que eu não falo – já falei, mas não falo mais de morte e doenças. Aliás, quando comecei, a comédia brasileira, na década de 1980, era muito incorreta. Todas as piadas eram sobre o pobre, o negro, o veado, a bicha, a vaca. Era só isso. A feiura era muito engraçada. Quando eu comecei a trabalhar, fiz justamente a caricatura disso: eu era o bonito, o rico, o playboy internacional, e as pessoas davam muita risada. Graças àquela minha turma, isso foi invertendo um pouco. As pessoas passaram a rir também do poder, não só da caricatura. Por que o rico também não pode ser engraçado? Hoje em dia, quando você vê um programa de colunismo social, você gargalha, porque é patético. Virou uma piada ser rico – eu digo esse rico esnobe.

Meio & Mensagem ›› Você gosta de publicidade ou troca de canal?
 

Marcelo Mansfield ›› Gosto, porque meus primeiros dez anos de carreira foram na publicidade. Tenho o maior interesse em saber como está, e acho que piorou. Tinha muita criatividade nos anos 1980, de 1985 a 1995. Às vezes, a gente ia fazer um teste e, quando lia o roteiro, dizia: “Quero fazer este filme”. Era muito criativo ou muito engraçado. Hoje é tudo “Faça o teste de tal coisa” ou “O desafio tal”. Perde a graça. É impressionante a quantidade produtos que fazem desafios. Isso me incomoda. E há muitos slogans oportunistas. A (comediante) Marcella Leal falava no texto dela que o publicitário tem preguiça e fala coisas óbvias, do tipo “Só Toddy é Toddy”. E agora tem uma propaganda do Tang que diz “Só Tang é Tang”, ou algo assim. Realmente ela estava certa na profecia. Ficou muito óbvio.
 

Meio & Mensagem ›› Que recado você mandaria para os publicitários?
 

Marcelo Mansfield ›› Mais criatividade. Está faltando um pouco de criatividade; não é chegar ao teatro e roubar piada. As duplas, trios e quartetos de criação têm que sentar e criar coisas engraçadas. Como o Washington Olivetto, o Nizan, como essa turma dos anos 1980 criou. É muito comum ver uma propaganda e falar: “Essa piada é de um amigo meu. Roubaram essa piada”. Roubam piada direto. Isso é muito feito.

 
+

Marcelo Mansfield, que já fez mais de 500 comerciais, fala sobre sua relação com a publicidade brasileira

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