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16 de Janeiro de 2012 • 11:20
João Candido Portinari, que há 32 anos criou o Projeto Portinari Crédito: Diego Bianchi
A partir da adolescência, ele fugiu do peso de ser filho de um dos maiores artistas brasileiros. No entanto, quando percebeu que a memória do pai corria risco, o engenheiro João Candido Portinari passou a dedicar sua vida a um projeto de resgate do artista. A iniciativa completa 32 anos e rendeu ao filho do pintor Candido Portinari o prêmio Trip Transformadores, em 2011.
Meio & Mensagem ›› Quando decidiu começar esse trabalho de resgate e organização da obra do seu pai?
João Candido Portinari ›› Passei a infância e a juventude no Rio de Janeiro. Uma dificuldade muito grande, principalmente na adolescência, era a presença monumental desse “pai”, que ocupava todos os espaços onde quer que eu fosse. Aquilo foi ficando tão opressivo que, com 18 anos, fui embora para a França. Estudei Matemática, fiz Engenharia de Telecomunicações e de lá fui direto para os Estados Unidos, onde fiz doutorado no Massachusets Institute of Technology (MIT). Quando terminei esses dez anos fora do Brasil, meu pai já tinha morrido. Recebi um convite da PUC-RJ para voltar e ajudar a criar o departamento de Matemática, onde atuei por 13 anos. Se falavam de Portinari, eu mudava de assunto. Mas, aí, foi surgindo em mim certo mal-estar com relação à memória de Portinari, que estava se desfazendo. As pessoas da geração dele, que podiam contar a história verdadeira, estavam morrendo. Não tínhamos noção de onde estavam as obras. Sabíamos que eram cinco mil espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.
M&M ›› Qual a estrutura do Projeto Portinari?
Portinari ›› Sempre foi uma equipe mínima e lutamos com imensas dificuldades. Tínhamos de captar recursos e foi um milagre manter isso por 30 anos. Hoje, o site (www.portinari.org.br) tem 30 mil documentos e cinco mil obras. É visitadíssimo por alunos da rede escolar e professores, além de pesquisadores e público em geral. Levamos 25 anos percorrendo o território brasileiro e mais de 20 países. Passado esse tempo, surgiu de forma muito clara a vocação do Projeto Portinari: a Educação, a Criança e o Jovem. Porque não falamos somente de um artista plástico, mas de alguém profundamente comprometido com valores sociais, humanos, de não violência, cidadania e ética, que é o que mais precisamos passar às crianças. Criamos um núcleo de arte-educação e começamos a preparar exposições itinerantes, junto com toda uma proposta educativa.
M&M ›› O que acha das críticas feitas a artistas como Romero Britto, por trabalhar bastante o marketing e o uso comercial de suas obras?
Portinari ›› Ele é dono da vida dele, tem todo direito de fazer o que quiser! Não está prejudicando ninguém. O Tom Jobim tem uma coisa a respeito da sociedade brasileira, que acho muito verdadeira — eu fui amigo dele e ele dizia: “No Brasil, o sucesso é uma ofensa pessoal”. Nos EUA, as pessoas veneram Steve Jobs, o sucesso lá é algo a ser imitado e aqui querem puxar para baixo. Não tem nada demais Romero Britto fazer o que quiser, se estiver fazendo com dignidade.
M&M ›› Existe arte na propaganda que o Brasil faz hoje?
Portinari ›› A publicidade é uma arte também, tributária até da psicologia. Do pouco que eu sei, ela é uma das melhores do mundo, das mais premiadas. Não sei se poderíamos chamar um publicitário a se inspirar nas obras de um artista, talvez fosse uma coisa interessante.
M&M ›› Entre os patrocinadores da exposição Guerra e Paz (veja box) está O Boticário, que tem produto licenciado com a marca Portinari. Como está o licenciamento?
Portinari ›› O licenciamento surgiu nas minhas atividades por uma razão óbvia: o Projeto Portinari estava sempre à mingua de recursos. Uma preocupação permanente que eu passei a ter foi de autossustentação. Há seis anos, encomendamos à Interbrand um trabalho que foi muito benfeito sobre a plataforma da marca Portinari. Eles chegaram a quatro atributos: brasilidade; maestria (que e é a excelência); beleza (no sentido mesmo da arte); e o menos óbvio de todos, o amor à vida. O estudo concluía que procurássemos empresas que também praticassem esses valores, essa harmonia, e O Boticário foi uma das primeiras. É um casamento absolutamente bem-sucedido; há oito anos existe a marca e ela cresce a cada ano.
M&M ›› Há outras empresas?
Portinari ›› Você está no Brasil e tem um carro chamado Picasso e uma conta de banco Van Gogh. Eu inclusive procurei o Banco Real antes de eles lançarem. Perguntei se não queriam fazer uma linha prime Portinari, disseram que não e meses depois saíram com a conta Van Gogh, talvez já estivesse rolando, veio de fora. Há tintas Suvinil, Coral etc. e não tem uma Portinari. Teria uma repercussão enorme, mas procurei empresários da área e não consegui ressonância. Na gôndola do supermercado, há todos os cafés do mundo e não tem um café Portinari, que era um homem profundamente ligado à saga do café. Teve uma ocasião em que quase fechei com um dos grandes produtores brasileiros, mas houve uma fusão com um grupo multinacional e os novos interlocutores não tinham aquela sensibilidade. Teria sido um total sucesso. O licenciamento de arte no Brasil ainda está muito incipiente: ou é esportivo, ou de personagens da Disney. Nós fomos pioneiros, os primeiros a propor o nome de um grande artista nacional para licenciamento. E não desistimos, não. Acho, inclusive, que a visibilidade que o Guerra e Paz trouxe nesses últimos dois anos é tão gigantesca que isso vai cair de maduro.
Guerra e Paz em São Paulo
Um dos grandes feitos do Projeto Portinari, com o Ministério da Cultura, é trazer de volta ao País os murais Guerra e Paz, obra-prima do artista dada como presente do Brasil à sede da ONU, em Nova York, em 1957. Os painéis são compostos por 28 placas de madeira compensada naval e a área total pintada é de 280 m2, maior que a do Juízo Final, de Michelangelo, na Capela Sistina. Guerra e Paz está emprestada até 2013, quando termina a reforma na sede das Nações Unidas e só foi possível com o patrocínio do BNDES, que assumiu o valor do seguro (não revelado) e investiu mais R$ 6,6 milhões (considerando desmontagem dos painéis na ONU, transporte para o Brasil, restauro, armazenagem até 2013, transporte para NY, instalação, seguro total e a mostra de São Paulo). Depois de 12 dias no Teatro Municipal do Rio, em 2010, a obra passou por restauração e, renovada, será exibida em São Paulo, no Memorial da América Latina, de 7 de fevereiro a 21 de abril. Outra novidade será a exposição de 80 dos 200 estudos que Portinari fez para a obra. A expectativa de público é de 800 mil pessoas e, além do BNDES, João Candido Portinari foi surpreendido em São Paulo pelo contato da Brazilian Finance & Real Estate, que se ofereceu para reforçar em R$ 2,5 milhões o patrocínio, adquirindo cota ouro. Cotas prata, de R$ 1 milhão, foram adquiridas por O Boticário, Correios e Banco do Brasil. A exposição também tem parceria da Redecard, que investe R$ 500 mil.
Depois de São Paulo, as obras terão exibição internacional, incluindo as cidades de Tokyo, pois o Japão foi o único país numa guerra, atacado por armas nucleares, e Oslo, coincidindo com a entrega do Prêmio Nobel da Paz, em dezembro de 2012.