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“Sou aquilo que consumo”

O músico e VJ China fala sobre a dificuldade de entender o mercado publicitário e discute as novas formas de divulgação musical

23 de Janeiro de 2012 14:00

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Crédito: Eduardo Lopes

* por Raíssa Coppola

Há um ano como VJ da MTV, o músico recifense Flávio Augusto, conhecido como China, é um camaleão. Já tocou hardcore, hoje passeia pelo pop e, nas horas vagas, lidera uma banda que traduz a obra de Roberto Carlos para os mais jovens. Nesta entrevista, o cantor revela que adora novela, fala sobre a dificuldade de entender o mercado publicitário e discute as novas formas de divulgação musical.
 

Meio & Mensagem ›› O programa Na Brasa (voltado para música brasileira) está no ar há um ano. Como surgiu a oportunidade de ser VJ?
 

Flávio Augusto (China) ›› Eu nem esperava, não imaginava que ia trabalhar na MTV. O pessoal da emissora me viu no palco e achou que eu tinha desenvoltura para o negócio. Para mim, é algo totalmente novo e estou me divertindo muito. Imagina ter que falar com um monte de gente olhando para um lugar só? Não é igual a um show, em que você olha para cada pessoa e tenta cativar cada um. É completamente diferente, mas, ao mesmo tempo, é uma coisa boa. Sempre tive essa facilidade de falar muito e, dentro do cenário artístico, foi fácil, porque conheço todo mundo da música. Ajuda muito o fato de ser músico estando nessa carreira de VJ. Mas minha essência é mesmo musical. Na TV ainda estou aprendendo.  

Meio & Mensagem ›› A descrição do seu Twitter é “sou aquilo que consumo”. O que o China consome?
 

China ›› Essa frase está dentro de uma música minha chamada Jardim de Inverno. Eu escuto de tudo, gosto de novela, adoro a das nove. É só uma abstração mental. Trabalho o dia todo, eu não quero ver um filme cabeça para pensar se a mulher vai morrer no final. Eu quero ver novela, sento e vejo a Tereza Cristina (personagem de Christiane Torloni em Fina Estampa). E, claro, isso entra na minha música de algum jeito. Tudo o que eu faço está relacionado à minha música. Todo dia eu escrevo alguma coisa, eu tenho um baú de ideias. Todo dia componho algo, toco, leio. Então, realmente tudo o que faço acaba virando o que é a minha música. Acho que essa frase é a melhor definição para o meu trabalho.

 

Meio & Mensagem ›› Você tem um estúdio e já fez alguns trabalhos relacionados à publicidade. Você gosta da publicidade brasileira, acha criativa?
 

China ›› Eu gosto da publicidade, gosto de criar coisas, mas essa parte do cara da agência que vai acompanhar a música é complicada. Porque o cara precisa justificar o trabalho dele e criticar alguma coisa. Não consigo ver de outra forma. Já fizemos algumas coisas no estúdio que tínhamos com a Trident, com a Petrobras, mas a ideia era sempre nossa. Tínhamos um estúdio de gravação para fazer trilha, mas aí descobrimos que íamos ficar brigando com os publicitários toda hora. Então, resolvemos dar ideias para as agências. Estamos trabalhando com ideias, porque lidar com o publicitário quando você é contratado para fazer uma obra é mais difícil. Você não sabe o que está na cabeça dele, nada contra, claro. Você não sabe o que ele quer e, ao mesmo tempo, ele não é músico. Para nós, então, funciona mais tentar vender esses projetos amarrados e tentar vender a ideia. Funciona melhor.
 

Meio & Mensagem ›› Temos uma onda de resgate de artistas na propaganda, como, por exemplo, o que aconteceu com o Byafra e com o Gilliard. O Marcelo Jeneci, em entrevista ao Meio & Mensagem, disse que ficou assustado com a propaganda do Byafra. Qual é a sua opinião?
 

China ›› Será que foi a propaganda que diminuiu o Byafra ou ele mesmo se diminuiu? Ele está ali porque ele quer, ele está ganhando para fazer isso. A agência monta a coisa porque as pessoas gostam da coisa trash e só que aceita quem quer. A propaganda do (jogador) Túlio (campanha da AlmapBBDO para o carro VW Gol), por exemplo, é ótima. Sabemos que ele não vai fazer os mil gols e ele sabe também. É muito engraçada e para ele foi bom. A do Byafra eu já achei meio ruim, sou mais o vídeo da asa-delta mesmo, muito mais engraçado. Mas se ele topou, não tem problema, a carreira é dele. No momento, eu não toparia. Lá na frente, eu não sei. Não sou contra a música estar aliada à publicidade. Só tem de saber como. Lembro que a galera crucificou a Nação Zumbi quando eles cederam a música para Skol. Poxa, tem coisa melhor que ouvir Nação Zumbi na propaganda da Skol? Melhor que estar tocando Claudia Leitte.
 

Meio & Mensagem ›› Tem gente que acha que os downloads estão matando a indústria, outros acham que ele está salvando. Como você vê essa relação entre música e internet?
 

China ›› A internet ajuda muito. As pessoas não vão mais à loja de disco, não tem mais essa cultura de comprar disco. Ao mesmo tempo, você faz um show e está todo mundo cantando a sua música. Quem é fã, mesmo, vai comprar. No show de lançamento do meu CD, eu vendi quase 15 vinis. Custa R$ 75 cada disco. Lancei as músicas na internet e esperei dois meses para lançar em vinil e CD. Cheguei ao show e estava todo mundo cantando e, no final, o cara comprou o disco. Então, mudou o esquema. Não tem melhor ou pior. Era legal vender disco, mas mais legal que vender disco é chegar ao show e ver todo mundo cantando a sua música. Isso é muito prazeroso. Se mais e mais pessoas vão ficando emocionadas, o negócio anda. Consigo me manter com isso hoje em dia. Não tenho uma baita grana, mas consigo pagar a escola dos meus filhos. E vivo tranquilo, fazendo o que eu gosto.
 

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