• Envie
    um email
    » Envie para um amigo

  • Leia
    também

dica do editor ››


patrocínio »



Um Picnic sobre cidades, pessoas e tecnologias

Festival holandês encerra a edição 2011 com palestras que discutiram o papel humano e da tecnologia no desenvolvimento das metrópoles e até a retomada de uma interatividade perdida, a que as famílias tinham com a música

16 de Setembro de 2011 18:30

+

Rolston: "nós estamos nos tornando os computadores" Crédito: Picnic/ Maurice Mikkers

O terceiro dia do Picnic 2011, em Amsterdã, foi o mais curto da conferência, com menos palestras. No entanto, vale a pena checar o descritivo que faço de Scott Snibbe, produtor multimídia e artístico que está lançando pela primeira vez na história, em outubro, um álbum da islandesa Björk em forma de aplicativo.

Vale dizer aqui que não coloquei todas as palestras, pois algumas não mereciam a nossa atenção seja pelo conteúdo, seja pela falta de ineditismo.

Boa diversão.

1. Building the meta city
Mark Rolston

Mark é diretor de criação mundial da Frog, uma agência de design. Ele gerencia um batalhão de profissionais, que vai de tecnólogos, estrategistas, arquitetos de informação, analistas, etc. É um aventureiro por natureza, já que cofundou a Frog Digital Media em 1996, pouco antes do período de suspeita de que esse tipo de negócio não ficaria de pé por muito tempo. No entanto, a Frog não só sobreviveu como presta serviços para as 500 maiores empresas da revista Fortune.

A grande fortaleza da Frog é a de oferecer um trabalho absolutamente focado no conhecimento do consumidor – pode ser desde um novo produto ou serviço até um design estratégico. A empresa de Mark é também conhecida no mundo pelo desenvolvimento de aplicativos e e-commerce para seus clientes.

Até hoje, todas as melhores revistas especializadas já tiveram trechos de seus comentários discutidos no seu conteúdo editorial, levando a gente a crer que ele, de fato, é um guru.

Sua palestra foi sobre a construção de megacidades. Uma previsão pouco sutil sobre o futuro para ele é a da explosão de inovações tecnológicas e a adoção em massa do computador, dos aparelhos móveis e do gerenciamento de um número boçal de dados pelas pessoas (isso sem contar no que ele chama da substituição do Facebook pelo Placebook– sem muita explicação).

Mark tem uma previsão futurista, até ficcional, do futuro da humanidade e das cidades: acredita que o cenário digital se sobrepõe ao meio ambiente analógico e, muitas vezes, oferece experiências até mais ricas que podem facilmente ser substituídas. Ele aponta para um futuro onde a computação não seremos apenas nós, mas tudo que nos cerca. 

Na verdade, ele tenta passar a ideia de que as interações humanas com o computador estão num processo de transformação. De acordo com sua teoria, nós hoje colocamos inputs no computador. Daqui para frente, nós “seremos” os computadores: “We are becoming the computer. Humans will be sensors that exchange their information with virtual system which will turn it into a new-real".

E, como nós formamos a cidade, a cidade vai se tornando o computador (“The city is a new computer”). Essa cidade, as ruas e os objetos farão parte de um network que poderá ser usado de forma pública ou privada. De certa forma, estamos, sim, rumando para isso. O cloud computing tem permitido o “qualquer hora”, em “qualquer lugar”. A cidade será a própria plataforma, que terá uma série de interfaces de relação com os dados disponíveis.

 

2. Hello, avatar: 9 principles of transmedia design
Beth Coleman


É cofundadora do Sound Lab Cultural Alchemy, uma plataforma internacionamelmente reconhecida pela alta performance em multimídia. É doutora no MIT, onde estuda o papel da narrativa humana no contexto da mídia. Acaba de escrever um livro que, por acaso, tem o nome dessa palestra. A discussão do painel foi no sentido de entender melhor a chamada “locative media” (para mim, um conceito relativamente nebuloso). O estudo de Beth tem mais conexão com a dialética contemporânea do que com tecnologia.

Em vez de transcorrer pelos nove conceitos de transmídia que tem estudado, ela preferiu ficar com três deles que são 1) co-presence; 2) real time e 3) X-reality. A perspectiva de seu estudo está baseada em como as pessoas se engajam nas relações e de como elas usam artifícios para travar essas relações.

Sentimento de Co-presence – a mágica do Skype é uma realidade. Agora, tem gente usando Skype não para travar apenas um video call, mas para, de forma virtual, estar presente em outro lugar. Explico melhor: o Skype é um artifício de copresença, já que ele dá a perspectiva de abrir uma nova janela dentro do ambiente. E esse pode ser um jeito de coexistir em um lugar que você efetivamente não está. “Você pode conversar com seu amigo e ele continuar a ouvir a música que está ouvindo, a fazer a comida que está fazendo e assim, travar uma vida como se você estivesse lá”.

+

Beth detalhou três princípios: co-presence, real time e X-reality Crédito: Picnic/ Maurice Mikkers

O Real Time – está baseado no fenômeno que temos hoje de “estarmos presentes sem mesmo estarmos lá”. Ela cita algo que é muito comum na Índia e África (pelo custo de vida e pelo padrão social dos habitantes): o miss call. É um chamado para avisar às pessoas que estão bem, que chegaram a algum lugar ou que o combinado previamente, “ao vivo”, está se realizando. São ligações telefônicas que apenas tocam e que o recebedor não responde. O “sinal” é uma mensagem real time eficaz nos tempos de hoje. E uma manifestação de transmídia (faz lembrar os sinais de fumaça…).

A definição do X reality é mais complexa, pois ela traz a riqueza de múltiplas plataformas para a conversa “transmídia”. Quando você usa uma realidade aumentada, por exemplo, está enriquecendo o engajamento entre o objeto e o sujeito com layers virtuais e reais, que acontecem no mesmo momento da relação. Isso é, basicamente, o aumento da realidade, mas, de acordo com Beth, esse conceito deverá migrar para “relations augmented” pois ele será terá um upgrade para novos layers, onde vários serão os níveis de engajamento e de participantes.

Complexo, mas fico feliz de alguém estar estudando isso. E, só pode ser mesmo alguém lá no MIT.

3. Switched identities
Heath Bunting


Seguramente a mais controversa das palestras por duas razões: primeiro porque foi sobre forjar identidades na Europa. E segundo porque a palestra foi absolutamente cifrada, com um discurso segmentado e incompreensível.

Na expressão mais legítima das palavras, Heath Bunting é um nerd perverso e um maluco beleza. Mas um dia alguém vai descobrir que ele acertou nas premissas. Seu CV, que está na internet, diz: “nascido budista, no distrito de Wood Green, Londres, ele é capaz de se fazer rir”. Sim, esse é primeiro parágrafo do CV de Heath na web.

Ainda, de acordo com a descrição de talentos de Heath, ele é cofundador dos movimentos net.art e sport-art, além de ter sido banido por toda a vida dos Estados Unidos pelo trabalho que fez sobre forjar identidades. Seu trabalho autodidata e autenticamente independente não tem rodeios. Talvez por isso, jamais ganhou um prêmio na vida. Vale o Google para saber mais sobre Heath, net.art e seus companheiros…

Esse trabalho de Heath é um diletantismo verborrágico sobre as diversas facetas sobre a construção da identidade urbana das pessoas: seja do lado mais moral ao mais burocrático. Vai desde a definição do que uma pessoa se constitui até as diferenças entre uma pessoa natural e outra artificial. Ele monta uma identidade a partir de milhares de perguntas e correlações entre elas. É um trabalho sofisticado, mas ainda sem final e obejtivo específico.

Perguntado para que serve esse trabalho (o de forjar identidades) ele foi claro: existem várias situações em que você precisa “existir” perante a lei. Por exemplo, quando você consegue um trabalho temporário onde a empresa não pode ter freelancers. Daí, você forja uma identidade e é contratado com todos os direitos legais. Ou ainda quando você precisa dos benefícios do Estado para conseguir saúde pública para suas amantes e seus filhos, além de sua mulher mesmo. Por aí vai. Ele deixa claro que é facílimo fazer isso na Europa. E convida a audiência a ajudá-lo.

Fica a pergunta: um devaneio do festival na hora de convidar os palestrantes ou uma provocação “fora da caixa” para mover a audiência do lugar comum? Não importa. No final de tudo, achei um entretenimento.

4. The urbanian pavillion. World Expo Shangai
Herman Kossmann


Herman é um arquiteto independente especializado em exposições e feiras. Ele tem seu escritório multimídia em Amsterdã. Faz um trabalho bem interessante: é uma espécie de cenógrafo que trabalha para ambientação permanente de museus, grandes eventos, palácio de exposições etc.

São variados os temas que podem abranger os trabalhos de seu escritório. Ele já produziu de microorganismos para adolescentes até sobre a história da psiquiatria para adultos.

A palestra é sobre seu trabalho no Pavilhão Urbano na Expo Shanghai na China, no ano passado. Ele foi responsável pela criação e gerenciamento da obra. Adequado ao evento deste ano aqui no Picnic, o trabalho de Hermann versava sobre população mundial e sobre a qualidade de vida nas cidades.

De acordo com sua visão, muitos são os aspectos que influenciam a qualidade de vida urbana que foram retratados no estande como um meio ambiente saudável e seguro, um local trabalho satisfatório, possiblidades de boa educação durante a vida, e, não menos importante, um grupo de amigos que valha a pena.

O jeito que achou para fazer a narrativa do estande foi excepcional: ele seguiu paralelamente o percurso de seis famílias que estão à procura da felicidade. As famílias vêm de seis países diferentes de seis continentes diferentes. E a tática era fazer as famílias parecerem existir mesmo, a fim de engajarem os visitantes a ponto de acreditarem que elas existiam mesmo.

Foram quase seis milhões de visitas no estande urbano de Herman. A combinação de pequenas histórias dessas famílias com estatísticas macro mundiais permitiu que a história fosse contada sem muitas palavras. E, desse jeito ficava mais fácil de fazer os visitantes entenderem o tema da urbanidade.

A equipe de Herman ficou 2,5 anos juntando dados e criando o estande até o resultado final. O designer deixou claro a dificuldade e o desafio de se fazer um espaço tão grandioso, gigantesco até, e “tocar” o coração dos visitantes.

Para falar bem a verdade, a pior apresentação e o pior speech do festival. Chato, longo e pouco objetivo.

5. Urbana collaboration and storytelling
Jake Barton

Jake Barton é um contador de histórias. Muitos planejadores vão se identificar com essa figura. Ele, na verdade, é um media designer para espaços públicos. E a gente sabe muito bem que, ao se contar histórias em locais públicos, corre-se o risco de se tornar raso e superficial. No caso de Jake, ele mostrou que dá para contar histórias e engajar as pessoas num diálogo lúdico e abrangente com as tecnologias que existem por aí. 

Jake é fundador da Local Projects, situada em NY, várias vezes finalista como agência do National Award Design e segunda colocada como agência de design mais inovadora pela Fast Company. A Local Projects é considerada a empresa que redefiniu o storytelling por meio da tecnologia.

O desafio de Jake Barton nessa palestra é responder à pergunta: o que vai inspirar e conectar as cidades do futuro? A resposta para um contador de histórias não podia ser diferente: memórias. Um ponto interessante, pois já comentei de alguns palestrantes que falam que uma cidade é a soma das histórias de quem mora nela e não a infraestrutura que provê.

Ele dá o exemplo do trabalho que está preparando para o Memorial Museum 9/11, do Change By Us, e do Frank Gehry Designed Eisenhower Memorial.

Vale destaque para o Change By Us (podem usar Google que vocês acharão o projeto). Com esse projeto, ele faz os habitantes da cidade (começou por Chicago, depois foi para NY) se conectarem por uma plataforma web de uma forma extremamente simples. Eles, conectados pelos desejos de cada um para com a cidade, se juntam em comunidades para iniciarem esforços para transformar aquela parte da cidade – se vocês entrarem no site, descobrirão que ele é tão intuitivo que dá para sacar, na hora, a dinâmica do que é e como funciona.

Ele trouxe também o caso do Memorial BMW (just ok) e o Memorial 9/11, que para mim é a distorção extrema da perversão humana, pois revive – em memórias – os acontecimentos daquele dia com requintes de detalhes ainda não descortinados pela grande mídia. Desde walls com os nomes dos mortos em realidade aumentada – onde você pode descobrir apenas apontando seu iPhone para o nome tudo a respeito do falecido – até um trabalho de correspondência de dados que colocam os mortos em relação uns aos outros, seja por algum grau de amizade ou de parentesco.

Todos os softwares do Memorial 9/11 são de extrema sofisticação. O memorial em si dispõe de touch screens com material (uploaded, especialmente de fotos) da tragédia que ainda não foram expostos. Eles foram solicitados à população de NY. Estão com reserva de direitos, claro. Todo esse material foi “escrutinado” até a exaustão para formar links com os nomes e com as histórias de pessoas vivas e mortas no ataque. Enfim, uma ode à catástrofe.

No entanto, ele sabe como usar novas tecnologias para fazer uma história bem contada.

6. Biophilia: an app album unites music and nature thru tech
Scott Snibbe

Vamos lá. Se o festival deveria trazer inovação de real life contemporânea, estamos falando dos 20 minutinhos de Scott Snibbe. Ele se define como um artista de mídia, film maker e um estudioso de interatividade. Seus trabalhos são intimamente influenciados pelo cinema, particularmente animação e filmes surrealistas.

Os trabalhos de arte de Snibbe estão na coleção permanente do Whitney Museum of American Art (Nova York) e no Moma, também em NY. Claro que ele já expôs em mais uma dezenas de outras localidades ao redor do mundo.

Ele é um artista eclético, indo das artes plásticas à música. Seus projetos interativos em larga-escala foram incorporados em concertos de música, jogos olímpicos, museus, aeroportos, etc . Além disso, ele colabora com dezenas de artistas e músicos em seus projetos interativos como Björk e James Cameron.
Nem é necessário dizer que esse palestrante é cheio de premiações pelos Estados Unidos e Europa, mas o que mais me deixou perplexo, no bom sentido, foi o próprio trabalho que apela não só para o sentido de realidade e atualidade como para o coração.

Biophilia é o nome do projeto que ele apresentou para nós. É um projeto musical, feito em parceria com Björk, que lançará seu próximo álbum apenas quatro anos após o ultimo, chamado “Volta”. Esse será o oitavo álbum da artista (deveria estar sendo lançado em 27 de setembro, mas será lançado em 10 de outubro).

De acordo com Snibbe, pela primeira vez um álbum de um artista comercial é parcialmente gravado para iPad e para CD. Será lançado, assim, na forma de um aplicativo também. De acordo com Snibb, “Björk se põe na liderança, pois vai lançar esse álbum em forma de aplicativo. O aplicativo será, pela primeira vez, a expressão visual da música, da sua história e de sua ideia”.

O aplicativo Biophilia (para iPad) vai ter umas dez faixas-aplicativos separadas e estarão vinculadas a um aplicativo-mãe. Vale o destaque que essas faixas-aplicativos poderão ser compradas à parte e anexadas ao aplicativo maior.

As faixas menores se referem a uma trilha diferente do álbum, permitindo às pessoas interagirem com o tema das músicas ou até fazerem versões sampleadas, do seu próprio jeito.

+

Scott: "no século 19, as músicas eram totalmente interativas. Pessoas ficavam sentadas ao redor do piano. No século 20, com a vinda dos aparelhos fonográficos e depois CDs e MP3, as músicas tornaram-se objetos virtuais contemplativos" Crédito: Picnic/ Maurice Mikkers

O aplicativo tem uma espécie de “jogabilidade”. Vai ter karaokê, sampling das músicas, uma espécie de “score” e animações interativas excepcionais feitas pelo próprio Snibbe, customizadas para as músicas (nós vimos - e ouvimos - três faixas).

Para ilustrar melhor como será o aplicativo, ouvimos a faixa “Virus”, que mostra uma imagem de células (daquele tipo que vemos em microscópio) sendo atacadas por vírus. A premissa é a da interação sendo, portanto, possível interagir com essa situação dos ataques do vírus às células. À medida que você evita os vírus matarem as células, a música permanece apenas nas duas primeiras estrofes. Quando você permite que as células sejam contaminadas, a música toca inteira.

Totalmente interativo, lúdico, e contemporâneo. Gosto da relação que ele faz entre a ludicidade e interação desse álbum-aplicativo e a música do século 20. Ele diz, “lá no século 19, as músicas eram totalmente interativas. Para uma família ouvir música instrumentos tinham de ser tocados. Pessoas ficavam sentadas ao redor do piano, por exemplo, e todas elas reagiam à sessão. No século 20, com a vinda dos aparelhos fonográficos e depois CDs e MP3, as músicas tornaram-se objetos virtuais contemplativos. Agora, com esses aplicativos, voltamos às origens”.

Se quiserem conversar mais sobre o assunto e pedir mais informações, aqui meu email uli@santaclara.net. Ou, twitter @ulizamboni. 

 

(*) Ulisses Zamboni, presidente da Santa Clara, escreve diretamente de Amsterdã como colaboração para o Meio & Mensagem.

»

Para saber mais sobre a edição 2011 do festival, leia os outros textos escritos por Ulisses Zamboni, da Santa Clara, que colaborou com o Meio & Mensagem em mais um ano do Picnic.

- Mais um Picnic para compartilhar

- Criatividade e inovação em Amsterdã

- Sete vezes Picnic 2011

- Informação, tendências e o desenho do futuro

*

*

Identifique-se com o facebook.

ou
  • Facebook

    » Fazer login

 Comentários

É preciso estar identificado para comentar.

 Exibindo comentários 0