06 de Fevereiro de 2012 • 08:05
Uma repórter de moda de um grande jornal brasileiro que cobriu recentemente a São Paulo Fashion Week escreveu em seus textos sobre o evento que não gostou dos desfiles de dois proeminentes estilistas da cena fashion atual. Como resultado, foi brutalmente rechaçada por eles a ponto até de sofrer ameaças como se tivesse cometido um crime, um insulto, uma calúnia. A profissional, no entanto, estava apenas no pleno exercício de sua atividade; ofício, aliás, que se faz com análise e opinião.
Mas parece que, no Brasil, emitir uma opinião que não seja necessariamente positiva a respeito de uma empresa ou marca, dependendo do setor em questão, é visto como uma terrível ofensa. No borbulhante mundo da moda, uma crítica negativa é capaz de fazer a espuma virar água e deixar os ânimos ainda mais afetados do que já normalmente são.
Infelizmente, no mercado publicitário esse tipo de comportamento também acontece, talvez com menos intensidade. A impressão que se tem é de que qualquer texto ou comentário que não seja necessariamente elogioso, qualquer lembrança de que determinado fato tem um retrospecto não muito positivo ou uma simples contextualização que busque colocar as coisas em perspectiva causam um tremendo mal-estar e uma série de ligações telefônicas cobrando explicações.
Com certeza isso não é algo circunscrito apenas aos universos da moda e da publicidade. É um ranço dos brasileiros que faz parte de uma herança cultural frágil, de uma insegurança atávica de achar que qualquer tipo de crítica é pessoal e quase proibido. Precisamos sempre estar bem na foto e fingir que gostamos de tudo e que todas as coisas são perfeitas.
Talvez seja por isso que a entrevista publicada na última edição de Meio & Mensagem alcançou uma tremenda repercussão, uma das maiores dos últimos tempos. Isso ocorreu pelo simples fato de que ela tinha algo que, infelizmente, é raro por aqui: sinceridade, bom-senso e opinião forte. Concorde ou não, o sueco Matias Palm-Jensen, fundador da premiada Farfar e hoje chief innovation officer da McCann Erickson para a Europa, colocou, de uma maneira realista, clara e autocrítica, seus pontos de vista. Alguns bastante polêmicos, mas há uma coerência em tudo aquilo que ele discorre.
Lamento apenas que seja necessário colocar um estrangeiro nas nossas páginas para fazer esse tipo de provocação. Mas é quase impossível encontrar esse nível de interlocução dentre nossas lideranças quando se liga um gravador. Off the records, alguns profissionais de destaque do nosso mercado até fazem críticas sérias e ponderadas sobre determinados problemas do setor, mas quando nós, jornalistas, pedimos que essas colocações sejam tornadas públicas para se levantar um debate necessário e produtivo, as respostas são quase sempre as mesmas: deixa disso, não posso me expor.
Meu falecido chefe Sergio Borgneth (cujo primeiro aniversário de morte é nesta quarta-feira, 8) costumava dizer que respeitava muito mais quem o criticava do que quem puxava seu saco. E eu levo esse ensinamento a sério todos os dias. Precisamos deixar de fingir que não temos defeitos e que tudo o que fazemos é do caralho para serenamente desenvolver o senso crítico de uma maneira madura e saudável. Caso contrário, corremos o sério risco de ficarmos perdidos no limbo do mundo do faz de conta e do fingimento.
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Excelente ponto de vista.
,,A entrevista com Matias Palm-Jensen foi ótima. Parabéns! Aqueles que ele criticou não precisam provar o quanto já contribuíram com o mercado. E o Mati ias também reconhece isso. Mas ninguém é perfeito. Uma chaqualhadinha dessas de vez em quanto e um caldo de galinha bem quentinho não faz mal a ninguém. Pelo contrário. Só contribui para expor e tentar resolver o que só é comentado em salas fechadas e no burburinho dos corredores (rs) :
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