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Qual a cara do Brasil?

Somos de fato um exemplo de progresso e modernidade ou um arremedo de sociedade democrática e cidadã?

Regina Augusto| » ENVIAR E-MAIL »

13 de Fevereiro de 2012 12:15

Há exatos 90 anos, realizava-se em São Paulo a Semana de Arte Moderna de 1922, um evento que foi limitado em termos de proporções, mas que alcançou com o passar do tempo uma amplitude surpreendente, a ponto de se tornar um mito, um marco histórico. Em uma São Paulo de 500 mil habitantes, dependente da produção do café e com forte predomínio da imigração italiana, a Semana foi, em primeiro lugar, um movimento da elite intelectual da época bancado pela elite econômica, no caso, os barões do café. Sua proposta era audaciosa: estabelecer uma relação do País com a tradição nacional e as influências estrangeiras.

Paradoxalmente, o grande mérito daquele grupo de modernistas que bebiam na fonte das influências internacionais, especialmente europeias, foi questionar pela primeira vez qual a identidade do Brasil nas artes e na cultura. Nove décadas depois, o mundo, o Brasil e São Paulo passaram por anos-luz de transformações, mas algumas questões ainda são convergentes com a agenda da Semana de 22.

Nosso País vive hoje uma espécie de renascimento tanto do ponto de vista interno quanto externo. O mundo passou a nos olhar mais e começamos a impor respeito. Ao mesmo tempo, um País com a dimensão continental como o nosso finalmente está deixando de ser etnocêntrico, com uma melhor distribuição de riqueza entre os seus diversos Estados. Não cabe mais olhar o Brasil a partir de São Paulo.

O movimento modernista foi promovido pelos mais ricos. Isso pouco mudou hoje. O debate sobre arte e cultura ainda não chegou às classes mais baixas e na base da sociedade. Essas pessoas foram descobertas e passaram a ser enxergadas pelas classes dominantes há pouco tempo simplesmente porque o seu poder de consumo aumentou e não porque elas merecem ser respeitadas.

Por tudo isso é que hoje, mais do que há 90 anos, a pergunta sobre qual é a cara do Brasil se faz necessária e a resposta ainda suscita dúvidas.

Não por coincidência, também nesta semana, tem início a maior manifestação popular do mundo, motivo de orgulho nacional: o Carnaval. Os olhos do mundo estão sobre nós e o que vemos são policiais militares de Salvador e do Rio — duas cidades-símbolo do Carnaval — causarem pânico à população em um expediente que inverte totalmente a ordem natural de uma sociedade de direito. Uma herança maldita de anos de ditadura e de uma polícia hostil e violenta.

Somos de fato um exemplo de progresso e modernidade ou um arremedo de sociedade democrática e cidadã? Talvez não exista apenas uma cara do Brasil. Somos um caldeirão multicultural com espaço para diversas manifestações, hábitos e traços e com uma formação cultural e social pouco sólida.

As artes e a cultura sempre tiveram o papel provocador de trazer à tona inquietações genuínas de um determinado grupo social e, com isso, interferir e transformar o status quo. O Carnaval tem também um pouco desse papel.

Mas, se hoje houvesse uma semana como a de 22, qual seria sua proposta, sua agenda? Arrisco o palpite de que seria muito menos um debate sobre aspectos estéticos e de linguagem e muito mais sobre identidade, lugar no mundo e razão de ser, passando pelo impacto das manifestações artísticas para o futuro das cidades. 

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