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Lava Jato, a nova ABAP e o que nossa indústria quer da vida.

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Lava Jato, a nova ABAP e o que nossa indústria quer da vida.

Trazer para a mesa aberta a situação em si e tendo a coragem de enfrentar a transparência como base do entendimento franco.

29 de maio de 2017 - 6h37

Pronto, lá estamos todos nós, brasileiros, neste furdúncio que persistentemente assombra como um fantasma recorrente nossa história, perdidões diante de uma realidade que deixa o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marques no chinelo.

Nem vou me estender sobre os fatos, porque todos sabemos (bem, achamos que sabemos) quais são.

O que talvez valha a pena aqui é uma reflexão sobre o seguinte … “e agora, José?”. Como vamos reagir como indústria e, cada um de nós, como empresários e profissionais desta indústria?

Tem a saída mais imediata à mão. Danem-se os outros, cuido eu do meu.

É o que cada um de nós vai fazer agora?

Não somos nem profissionais, nem empresas, isoladas, por mais que assim pareça na maior parte do tempo. Para o bem ou para o mal, não existem negócios em ilhas desertas. Somos uma intrincada cadeia de companhias, códigos de negócio e gente.

Isto posto, temos portanto o primeiro elo que nos une. Invisível e frágil, é verdade, mas que tá lá. Eu compro, você vende, todo um circuito se retroalimenta.

No nosso caso, chamamos a isso de indústria da comunicação e do marketing, algo aparentemente intangível, porque não podemos pegar com a mão. Mas é ela que paga nossas contas. Preservá-la agora, antes e acima das demais instâncias menores, é vital.

Estamos falando de um momento – que um dia, nem parece, mas vai passar – de sobrevivência comum. A conjugação desse verbo é assim: eu sobrevivo, você sobrevive, nós todos também.

Os inimigos estão lá fora. São insanos, sequiosos e poderosos. Nós, no nosso quadrado, somos frágeis e caudatários. Em horas assim, isso fica infeliz e insuportavelmente claro.

Mas tangibilizar como essa eventual nobre causa fraternal?

Trazendo para a mesa aberta a situação em si e tendo a coragem de enfrentar a transparência como base do entendimento franco.

A ABAP, sob a nova direção do Mario D´Andrea, está fazendo circular esta semana na mídia do trade os statements de um dos mais relevantes e vitais pilares da história desta indústria: as agências. Estão ali claros os atributos desse setor sem o qual nem indústria seríamos e sem o qual nem marcas existiriam (e, possivelmente, alguns diretores de marketing nem emprego teriam). O Mario já chegou causando e que bom que assim seja, porque embora todos saibamos que há uma pesada queda de braços em jogo, ficamos todos na miúda, como se nada estivesse acontecendo e não estivéssemos em meio a um tsunami.

Ponto pro Mario e para a ABAP.

Agora falta as demais entidades do setor se posicionarem com clareza. Não mais apenas nos bastidores em que conversações já ocorrem, como também todos sabemos, mas na planície aberta da publicidade (publicidade quer dizer tornar público, tá lá no Aurélio).

A presente crise em que o País se enfiou e os inevitáveis reflexos econômicos que dela advirão deveriam funcionar – minha humilde opinião apenas – como mola propulsora das verdades amargas expostas a nú. Até porque o rei já está peladão e sussurrar desgostos em bares, corredores ou entre quatro paredes não vai vestir mais ninguém. Esconder as mazelas de sua exposição e discussão públicas não vai fazer ninguém ganhar mais dinheiro, nem devolver a margem que um dia esta indústria gerou, mas não gera mais.

Novos tempos. Agora, agravados pela lavação a jato de todas as roupas sujas e podridões que se produziram por décadas nesta Nação de botocudos.

Devo ser o cara que mais frequenta eventos do nosso mercado, particularmente os internacionais. Pelo menos estou disputando fortemente essa liderança. E embora seja um experimentado rato de evento, uma das coisas que segue me surpreendendo é a transparência com que nos eventos europeus os caras discutem suas idiossincrasias de mercado em público.

Neles, com a mais aberta frequência, temas que aqui escondemos sob o tapete são debatidos nos palcos com uma maturidade que só mesmo economias mais maduras – o que não é nosso caso – podem exibir.

Não vamos, nem queremos, virar Europa. Mas há evidentes ganhos nessa prática. Um deles é que as discussões avançam e não se atolam em fóruns mudos, em que há até boas intenções na sala, mas em que o mercado real fica alijado.

O IAB dos Estados Unidos, acho que todos estão acompanhando (pelo menos deveriam) vem aberta e corajosamente admitindo em público que o setor que representa pisou no tomate e esbulhou indevidamente os investimentos dos anunciantes, com práticas ilícitas de gestão de suas verbas nos labirintos sem fim da tecnologia digital. Não só admitiu isso, como está obrigando a todos os seus associados a assinar um documento que toda a indústria está construindo junta. Um documento de melhores práticas, ética e transparência nos negócios. Dele são signatários players de tecnologia, anunciantes e grupos de mídia e comunicação.

Qual seria o equivalente aqui? Não sei direito.

Sei que certamente a admissão das mazelas de lado a lado e a construção de documentos semelhantes de entendimento publicamente discutidos em corajosos fóruns abertos seriam, ainda mais neste momento, de alta relevância para todos os elos da cadeia da nossa indústria.

Temos o CENP e ele deve ser, mais do que nunca, respeitado e valorizado. Esse é nosso foro privilegiado, que ao contrário do dos políticos, não protege a individualidade vil, mas a prosperidade coletiva.

Ocorre que muitas de suas regras precisam ser revistas em pról da saudabilidade do próprio CENP e da indústria como um todo. É a isso que estou me referindo e é difícil encontrar alguém no mercado que discorde do óbvio.

Se não for agora, vai ser quando? Se perdermos este momento que a adversidade nos esfrega na cara, vamos postergar essa conversa, pública e notória, para quando?

Vamos fazer um evento aberto para discutir isso? Bora.

Que outras manifestações como a da ABAP venham à luz. Fingir que nada está acontecendo, francamente, me parece algo bem próximo da auto-flagelação. Coletiva.

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