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Vivendo a era do impossível

Em razão da naturalidade com que o ser humano trata as interfaces, muito do atrito com a tecnologia diminuiu

10 de fevereiro de 2017 - 17h54

*Por Henrique Von

Imagine-se com 5 anos de idade. E lá está você, descendo sua rua em sua bicicletinha. Vento no rosto, sensação de liberdade! Até que você olha para o quadro dela (para quem não fala “bicicletês”, o quadro é a estrutura metálica que conecta pneus, guidão e pedal) e vê que o parafuso de sua bicicleta dobrável está na beiradinha, prestes a cair. E foi assim que aos 5 anos de idade minha bicicleta capotou e descobri na carne a tal força de atrito.

A Wikipédia define atrito como: “… a força de contato que atua sempre que dois corpos entram em choque e há a tendência ao movimento”.

Você já deve ter notado que eu gosto de estudar a revolução tecnológica exponencial que estamos vivendo e como isso influencia diretamente nossas vidas. Caso seja sua primeira vez por aqui, invista um tempo lendo este artigo e este aqui também.

Nossas vidas sempre foram cheias de atritos. No final do milênio passado, todas as novidades tecnológicas pressupunham aprender uma nova interface. Interface é o local onde o corpo humano encontra o corpo mecânico ou computacional. Nesse mundo, o atrito era tempo investido em aprender cada interface diferente. Naquela época, as interfaces eram montadas sob o paradigma mental de que o usuário iria ler o manual. O atrito era delegado ao usuário. Isso fazia que muitos usuários não usassem em plenitude seus aparatos tecnológicos, pois sair de um mundo analógico e intuitivo para entrar em um mundo digital cheio de manuais e linguagens completamente distintas trazia muito atrito. Nessa época, muitos simplesmente desistiram e não embarcaram na transformação de suas vidas para um modelo digital. Com minha mãe foi assim. Até hoje eu configuro o relógio “piscante” do micro-ondas para ela. Programar o videocassete? Esquece… Nunca programou…

Até que, um dia, pessoas brilhantes em grandes empresas entenderam que o atrito gerado por uma interface deveria ser zero. Os designers, engenheiros de produtos, deveriam investir todo seu tempo e massa cinzenta para produzir interfaces simples e intuitivas. Começaram criando os chamados ícones, que não passam de uma roupagem do ambiente digital usando uma analogia visual do mundo real em que vivemos. Assim surgiu o ícone do lixo no MacOS e no Windows, aquele ícone para o qual você arrasta seu arquivo para apagá-lo. Fácil de entender, não é mesmo? Mas o auge desse trabalho de simplificação de interface ocorreu mesmo em 2007. Dez anos atrás.

Segundo Thomas Friedman em seu livro “Thank you for being late”, 2007 foi o ponto de inflexão em que a curva exponencial da transformação digital acelera seu crescimento. Naquele ano, surgiu o iPhone. Esse foi o primeiro device pensado e repensado para ter atrito zero, para ser intuitivo. Nele, realidades em nossas vidas, como a gravidade e a inércia, foram brilhantemente embarcadas. O device se tornou pessoal e íntimo, pois nossos dedos eram o ponto de contato primário.

Nestes últimos 10 anos, vivendo sob esse novo paradigma em que as interfaces são as mais naturais para o ser humano, muito do atrito que tínhamos antigamente na relação com a tecnologia diminuiu. Na última CES, grandes fabricantes de eletrodomésticos mostraram seus produtos, que, baseados em IoT, vão conhecer nosso dia a dia familiar para fazer as atividades domésticas sozinhos para nós. A casa inteligente é uma grande interface inteligente sem atrito. As luzes se acendem quando chegamos e se apagam quando saímos. Enquanto tomamos banho pela manhã, o café começa a ser feito sozinho e a toalha é automaticamente aquecida. Seu assistente pessoal começa a ler as notícias do dia assim que você desliga a cafeteira da tomada. As opções são infinitas.

Mas ainda vão surgir inovações maiores ainda. A tendência é que a tecnologia e as interfaces evoluam tanto até chegar ao ponto de ficarem invisíveis. Isso mesmo, a tecnologia vai sumir, vai desaparecer. Ela vai estar em todo lugar. Tudo será uma interface única, conectada e inteligente. Lembram-se do antigo termo “entrar na internet”, que significava sentar-se na frente do PC e discar, com seu modem, para o provedor para finalmente estar na internet? Pois é, acabou. Agora a internet está em todo lugar. Em breve, serão as interfaces.

Conversaremos com nossos assistentes pessoais usando nossa própria voz. Ele não vai estar somente em um gadget na sala. Vai estar na nuvem e nos seguirá por onde formos. Vai nos reconhecer pelo timbre de voz e conversará fluentemente conosco em nosso idioma. Ele vai ter acesso ao que nós vemos, através de nossos óculos conectados. E não adianta imaginar óculos transcendentais cheios de luzes e lentes coloridas. Serão óculos normais, como os que usamos hoje. Toda a indústria de óculos e algumas de tecnologia, neste exato momento, estão testando seus protótipos. Poderemos gravar e acessar nossas imagens visuais, que estarão bem organizadas por datas, locais, pessoas, eventos, etc. Esse será o mundo da computação cognitiva em cloud usando video analytics.

Vivemos o mundo do impossível. Volte a 30 anos atrás e imagine-se dizendo ao seu pai que daqui a 30 anos todos terão em suas mãos um mapa em tempo real que mostra exatamente em que lugar do mundo se está. Que nesse device também se pode ouvir todo o catálogo de músicas do mundo. Que, além disso, esse device filma e transmite ao vivo para o mundo todo em tempo real. “Impossível!”, ele diria. Pois é… Isso foi só o iPhone em 2007 e vem muito mais por aí. Claramente vivemos a era que baniu do mundo a palavra impossível.

Até os robôs sabem disso!

(*) Henrique Von é Cloud Aliances Sales Executive na IBM Latin America

 

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