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Depois da Internet, a Enernet

Tecnologia traz e continuará trazendo enormes desafios para empresas do setor energético nas próximas décadas

Omarson Costa
14 de fevereiro de 2017 - 12h45

Por Omarson Costa*

“A Enernet é uma rede de energia dinâmica, distribuída,

redundante e multiparticipativa construída em torno de uma

geração de energia limpa, armazenamento e distribuição

que será a base para o desenvolvimento das cidades inteligentes”. 

Brian Lakamp, CEO da Totem, startup que desenvolve soluções de energia limpa

As grandes corporações petrolíferas e fabricantes de combustíveis fósseis deverão colocar (e já estão colocando) as barbas de molho e abrir os olhos para os avanços de novas fontes de energia limpa. Assim como a Internet representou uma grande ruptura e demandou transformações inevitáveis no mercado de telecomunicações, uma nova revolução em ritmo acelerado está em curso, já começou a trazer e continuará trazendo enormes desafios para empresas do setor energético nas próximas décadas.

Apenas para convidar o leitor ao início da reflexão, começo relacionando alguns fatos que sinalizam o rápido aquecimento na adoção de fontes alternativas de energia:

– No ano passado, pela primeira vez a energia solar se tornou mais barata que qualquer outra fonte de energia para geração de eletricidade e a perspectiva é de que os preços continuem caindo. De acordo com dados da Bloomberg New Energy Finance (BNEF), o preço médio da energia solar em 58 países, incluindo a China, Índia e o Brasil, caiu para US$ 1,65 milhão por megawatt, logo abaixo da energia eólica, com US$ 1,66 milhão por megawatt.

– A China investiu US$ 103 bilhões em 2015 em projetos de energia solar, um montante superior ao somado pelos investimentos dos Estados Unidos, Reino Unido e Japão.

– De acordo com a Nissan, o número de pontos de recarga de carros elétricos (40 mil) ultrapassou o de postos de combustíveis (35 mil) no Japão, incluindo os instalados em residências e pontos públicos. Na China, o plano é ter somente em Beijing mais de 400 mil pontos de recarga até 2020.

– A maior planta de energia solar do mundo, em operação no Marrocos, terá capacidade instalada de 522 megawatts em 2018, suficiente para fornecer energia para 1,1 milhão de pessoas e cortar as emissões de carbono em 760 mil toneladas por ano.

–  A Finlândia pretende ilegalizar até 2030 o uso de carvão para geração de energia; nos Estados Unidos 125 painéis solares são instalados por minuto diariamente; em Dallas a TXU Energy distribui de graça o excedente da energia eólica que produz entre 9h00 da noite e 6h00 da manhã.

– O governo do Chile investiu na instalação de 29 plantas de energia solar, planeja inaugurar outras 15 e em 2015 ofereceu eletricidade sem custo por 192 dias; a Índia atingiu o recorde no preço mais baixo de energia solar chegando a US$ 29,10 por megawatt-hora.

– De acordo com relatório da Environmental Defense Fund’s Climate Corps, a profissão de técnico em energia solar e eólica é a de mais rápido crescimento nos Estados Unidos e soma hoje 4 milhões de empregos contra 3,4 milhões em 2011. A taxa de crescimento para estes trabalhadores é 12 vezes mais rápida que a média das demais na economia americana.

Como lembrei em meu último artigo, há 10 anos empresas como ExxonMobil, British Petroleum e Shell estavam entre as mais valiosas do mundo e perderam posições para ícones globais da tecnologia, trazendo para o topo, em menos de uma década, Apple, Google, Microsoft e Facebook, todas movidas pela combustão gerada pela rede mundial de computadores.

Agora, tão impactante quanto foi a Web, a inovação que abrirá uma enorme janela de oportunidades para empreendedores dispostos a desbravar o futuro leva o nome de Enernet.

Anote aí. Seu avanço já está proporcionando o despertar de novos modelos de negócios e toda uma cadeia de fornecedores de produtos e serviços que, pouco a pouco, ajudarão a diminuir radicalmente a demanda por matrizes poluentes e permitirão que cada um de nós seja, imaginem, um fornecedor de energia para cidades cada vez mais smarts.

Na definição da Emerge Alliance, a Enernet é “uma rede de infraestrutura elétrica que conecta a geração de eletricidade, armazenamento e transmissão entre e dentro de edifícios”. Nas palavras de Brian Lakamp, CEO da Totem, uma startup que desenvolve soluções de energia limpa, a Enernet é “uma rede de energia dinâmica, distribuída, redundante e multiparticipativa construída em torno de uma geração de energia limpa, armazenamento e distribuição que será a base para as cidades inteligentes”.

Compartilhando a mesma visão de Lakamp estão, para citar alguns dos mais relevantes, os empresários do Vale do Silício Elon Musk, da Solarcity, comandante também da Tesla, fabricante de carros elétricos; Lynn Jurich, da Sunrun; e Jigar Shah, da SunEdison.

Todas estas startups vêm pesquisando e desenvolvendo soluções para captação de energia solar e conversão em energia elétrica, permitindo que o excedente não utilizado pela residência seja disponibilizado na rede de distribuição, o que poderá levar a conta de luz a ficar cada vez mais barata ou, um sonho nada utópico, engordar o orçamento doméstico com a venda da energia gerada na própria casa.

Analistas se apressam em apontá-las como legítimas representantes da Enernet e fortes candidatas a alcançarem os altos postos hoje ocupados pelas pontocom mais valorizadas do planeta que construíram unicórnios tendo como alicerce o desenvolvimento da Web.

Seus produtos? Tecnologias para substituir o uso de combustíveis fósseis, como nanogrids, microgrids, painéis solares e baterias (a Tesla, que retirou a palavra motors da sua marca, oferece a Powerwall 2 para instalar na parede por US$ 7 mil e criou uma rede de distribuição com milhões de baterias que estão abastecendo milhares de casas de Los Angeles).

E o Brasil terá seu lugar ao sol?

De 2005 até 2025, o Brasil se comprometeu no Acordo de Paris a reduzir a emissão de gases de efeito estufa em 37%. Se depender da abundância de sol e de vento, o Brasil tem tudo, claro, para ser um dos líderes no uso de energia solar e eólica, mas ainda tem uma longa jornada. Hoje, 80% da energia ainda é dependente das hidrelétricas, que causam grandes impactos ambientais e o País contabiliza somente 0,02% de geração fotovoltaica na matriz elétrica.

A boa notícia: Os números já alcançados são animadores na comparação com outros mercados e o País tem potencial para permanecer entre os maiores produtores mundiais de energia renovável. O relatório Climatescope de 2016 da BNEF, que analisa os países emergentes com maior potencial para atrair capital de projetos de energia limpa, indicou o Brasil na 3a posição, atrás da China e do Chile e à frente do Uruguai, África do Sul e Índia. Como exemplo de atração de investimentos, merece registro o projeto do Croatá Laguna EcoPark, que será a primeira cidade 100% inteligente e sustentável construída no país para população de baixa renda e deve ser inaugurada ainda este ano. Entre outros benefícios, está previsto o uso de energia solar e eólica.

A ruim: o país ocupava a segunda posição no ranking de 2015, mas perdeu o posto para o Chile por conta da crise e os altos investimentos realizados pelo governo chileno. Lamentavelmente, o cenário econômico tem jogado um balde de água fria no desenvolvimento do setor de energia limpa, levando, inclusive, ao pedido de cancelamento de leilões por parte de empresas com dificuldades de cumprir contratos assinados antes da recessão.

Pior: por conta da queda de consumo de energia decorrente da crise, o Governo cancelou no apagar das luzes de 2016 um leilão que iria contratar novas usinas eólicas e solares. Em contrapartida, há a expectativa de início da operação de parques solares do leilão de 2015, que alcançou preços mais elevados.

O futuro pode ser otimista e promissor, mas o Brasil precisa reavaliar o programa de incentivos para produção de energia renovável.

Para este ano, a expectativa é de grandes movimentações na área de energia solar no País. Em entrevista a Reuters, Rodrigo Sauaia, presidente da Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar), afirmou que o país chegará a 1 gigawatt de capacidade instalada em usinas fotovoltaicas, uma geração só disponível em pouco mais de 20 países, mas poderia atingir cerca de 2 gigawatts se todos os leilões realizados desde 2014 entrassem em operação ainda em 2017.

Como consequência deste aquecimento, Sauaia acredita que iremos atrair investidores internacionais e ampliar a participação da energia solar na matriz nacional. Além das grandes usinas, ele aponta o crescimento na instalação das placas solares em telhados, que registrou alta de mais de 300% no ano passado, mas alerta: a alta carga tributária é um freio ao desenvolvimento do setor e está abrindo espaço para a concorrência da China, que oferece equipamentos com preços até 40% menores do que os painéis brasileiros.

Todas estas dificuldades estão levando o BNDES a rever o programa para incentivar a indústria local de equipamentos para energia solar. O banco condicionou a concessão de financiamentos para usinas que contratassem uma parcela pré-definida de conteúdo de fornecedores nacionais, que, ironia tipicamente nacional, não têm capacidade de entrega, o que está levando o banco a reavaliar o programa e passar a analisar o financiamento de projetos de microgeração solar.

A única grande fábrica presente no país é a Canadian Solar e somente 20% dos empreendimentos resultantes dos 3 leilões organizados desde 2014, quando foi anunciada a política para energia fotovoltaica, já tiveram suas obras iniciadas.

Em compensação, outra boa notícia, o grupo francês de energia EDF deverá inaugurar no segundo semestre, no interior de Minas Gerais, um uma área nas proximidades do Rio São Francisco, um dos maiores parques de energia solar do país com investimento previsto de R$ 1 bilhão para instalar quase 600 mil painéis com capacidade de gerar 191 megawatts. O projeto Pirapora foi adquirido pela EDF no ano passado da Canadian Solar.

Alguns empreendedores brasileiros, vale mencionar, também já embarcaram na Enernet.

A microgeração é uma das tecnologias que já está revelando bandeirantes brasileiros ávidos por um lugar ao sol, como é o caso de Nelson Colaferro. Em 2010, ele iniciou as operações da Blue Sol, que agora coloca em prática seu plano de expansão através de franquias com investimento inicial de R$ 280 mil e a expectativa de faturamento médio mensal de R$ 150 mil. A meta é conquistar 200 franqueados até 2020 que fornecem equipamentos de energia solar.

Outra startup, a Sunew, desenvolveu uma tinta OPV (organic photovoltaic) composta por polímeros de carbono que converte energia solar em elétrica e pode ser aplicada em filmes colados aos vidros de edifícios. Já há estudos também para utilização na indústria automotiva para redução no consumo de combustível queimado para recarregar a bateria do carro. Em energia gerada pelo vento, se destaca a Renova Energia, que construiu no interior da Bahia o maior complexo eólico da América Latina.

O Brasil já tem seus primeiros inovadores da ‘next big thing’, a Enernet. O vento e o sol são favoráveis para liderarmos a inovação na construção da rede mundial de energia renovável.

Então, se liga nessa!

(*) Omarson Costa é formado em Marketing, tem MBA e especialização em Direito em Telecomunicações. Em sua carreira, registra passagens em empresas de telecom, meios de pagamento e Internet.

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