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Um olhar humano sobre a robótica

No maior evento de tecnologia do mundo, tiveram destaque as discussões em torno do papel dos robôs na fronteira das relações entre pessoas e seres cada vez menos inanimados

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5 de dezembro de 2017 - 8h26

 

Por Rucelmar Reis (*)

Foram quatro dias em Portugal, vendo e ouvindo as novidades no WebSummit, o maior evento de Tecnologia do mundo, com 60.000 participantes de mais de 170 países e que aborda tudo o que já faz parte do nosso presente e, principalmente, o que vai ditar o futuro. Em meio a tudo isso, um tema me chamou mais a atenção: Existe um limite para usarmos os robôs? Estamos vendo o início de uma nova era de escravidão das máquinas? Máquinas têm direitos? Elas podem evoluir a ponto de ter sentimentos?

Se a gente se apressa em responder estas perguntas, sem analisar todo o contexto, pode cometer o erro de responder da forma mais simples e nem sempre correta. O tema é complexo, extrapola o uso das máquinas e passa mais pelo enfoque de como os humanos serão afetados com esta nova era robótica. Em sua apresentação, Brian Krzanich, presidente da Intel, afirmou que ainda é cedo para regular a Inteligência Artificial, pois ela ainda está na sua infância, mas também acredita que ela vai mudar o futuro e que os dados vão se tornar “uma das mais valiosas commodities do planeta”.

Eu mesmo tenho um robô em casa e pretendo cada vez mais investir nisto. Meu robô limpa todo o piso da casa e sabe tomar decisões autônomas, como ir carregar sua bateria sozinho para depois terminar o trabalho. Mas a geração de robôs que está causando maior sensação são os robôs humanoides que, como o próprio nome diz, se assemelham aos humanos. Há 2 anos eu conheci a Sophia, robô criado por Ben Goertzel, brasileiro radicado nos EUA, e fiquei muito impressionado com a capacidade de expressão e interlocução que ela tem. Pude vê-la novamente no WebSummit 2017, e está ainda mais capaz de estabelecer conversas, olhar para quem está falando com ela e reagir com todas as expressões faciais, discutindo sobre os temas mais variados. Chega a ser assustador. Quando ela foi questionada se é verdade que os robôs pretendem aniquilar a humanidade, ela foi sincera e disse que eles querem fazer coisas boas junto com os humanos, mas que os robôs vão roubar alguns empregos.

Se os robôs já nos interpretam, reagem, conversam, andam, o que mais falta para eles estarem na sociedade como se fossem um de nós? Aparentemente, muito pouco. Sophia acaba de ser reconhecida como cidadã na Arábia Saudita. Mas se para os entusiastas da tecnologia isto é um marco para a relação de robôs e humanos, existe já um movimento muito contrário a tudo isto, inclusive criticando o fato de uma humanoide ter maiores direitos que as próprias mulheres da Arábia Saudita. Há ainda quem diga que este reconhecimento ajuda a rebaixar ainda mais os direitos das mulheres e que cada dia mais elas seriam vistas como serviçais, como escravas, assim como as máquinas.

Assisti ao intenso (e lotado) debate entre Goertzel e Kathleen Richardson, uma professora de Ética e Cultura de Robôs e Inteligência Artificial. A discussão caminhou para uma linha sobre os robôs sexuais que estão sendo criados já por 5 empresas no mundo e pretendem substituir os humanos nas relações sexuais. Goertzel não vê mal nisso, pois cada um teria o direito de estabelecer suas fantasias e realizá-las sem que precisem envolver outro humano. “Se o robô não tiver um sentido de consciência, como aquele que as pessoas têm, e ainda que seja magoado por uma pessoa, não vejo a necessidade do Governo impedir o homem ou mulher de fazer sexo com ele”, defende o cientista.

No contraponto, Kathleen acredita que os robôs sexuais serão o tiro de misericórdia em uma sociedade já doente e que cada vez mais tem problemas de convívio social.  “Chegamos a um ponto na nossa sociedade em que não conseguimos dizer o que é ou não misógino. Porque há muitos homens por aí fora que continuam a pensar: afinal, para que servem as mulheres? E se nós mulheres queremos realmente a igualdade de direitos, temos de recusar uma indústria onde a nossa humanidade não é reconhecida”, argumentou a professora. Em sua visão, a crise social do distanciamento entre os indivíduos com a chegada da tecnologia das redes sociais irá ficar ainda mais severa se até as questões íntimas e sexuais forem consumidas na nuvem e dividida apenas com robôs.

Mas a discussão é ainda mais ampla. Não se trata apenas de direitos dos robôs ou se eles vão mudar nossa forma de agir entre nós mesmos. Temos questões ainda mais severas a discutir, como por exemplo a nossa própria segurança.

No WebSummit foi lançada a SingularityNET, que é uma rede global de inteligência artificial que será utilizada para espalhar o conhecimento adquirido por todos os dispositivos e ser replicado em qualquer robô ou aplicativo que precise. Mais uma vez os entusiastas tecnológicos vibraram com a notícia, pois isto irá permitir uma evolução gigantesca neste processo de ganho de funções e conhecimento de todos os robôs no mundo.

Mas isto abre espaço para outra grande preocupação. Se os robôs vão invadir nossas casas, serão colocados para fazer as atividades domésticas, serão nossos assistentes pessoais e até possíveis amantes, me parece razoável que eles também serão destacados para fazer companhias a idosos, cuidar de nossos animais domésticos e até de nossas crianças. Mas os robôs são máquinas programadas e que podem sofrer interferências e ser atacadas por códigos maliciosos, fazendo com que eles sejam usados para crimes como assaltos em residências, pedofilia e até mesmo assassinatos. Pode parecer trágico demais e até improvável que isto aconteça, mas não podemos nos esquecer de casos recentes de bonecas conectadas a internet que foram hackeadas para transmitir conversas que tinham das crianças, expondo sua intimidade na rede.

Depois de tudo isto, vou olhar de forma desconfiada para o robô lá de casa, que ao mesmo tempo que limpa todo o piso, mapeia todos os cômodos da minha casa e sabe seu tamanho, exatamente onde tem portas e até os obstáculos no caminho. Ele já sabe demais sobre mim e sobre minha família. Se eu começar a ficar paranoico com isso, vou acabar concordando que os robôs vão mudar a forma como fazemos as coisas, mas vão acima de tudo mudar a forma como a gente vai se relacionar com eles daqui pra frente.

Existe um caminho enorme a ser percorrido na tecnologia, mas está na hora de olharmos com mais carinho sobre a legislação e acordos que vão reger esta nossa relação, para nos proteger de nós mesmos no uso indiscriminado na robótica, preservando nossas relações humanas.

(*) Rucelmar Reis, CFO da W3haus

 

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