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Sorria: você está sendo hackeado

Os únicos concorrentes reais dos grandes traficantes de informação são os estrepitosos hackers russos. Mas, não se iluda: são todos farinha do mesmo saco. Se você prestar bem atenção, são idênticos em seus métodos e propósitos. A única diferença é que uns são legalizados e os outros vivem nos subterrâneos do crime. É mais ou menos a diferença entre os bancos e os agiotas.

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9 de abril de 2018 - 8h02

[:pb]

Por Henrique Szklo (*)

A paranoia com relação à internet nasceu junto com a própria internet. É como um filme de terror para quem gosta do gênero: diversão e medo num mesmo pacote. E para nos atazanar ainda mais, uma nova categoria profissional surgiu quase que simultaneamente à web: os hackers, a quem William Gibson em sua trilogia do Sprawl da década de 80 sugestivamente chamou de cowboys.

Em linhas gerais, os hackers são divididos em black hats (os bandidos), white hats (os mocinhos) e os grey hats, o PSDB dos hackers, aqueles que ficam em cima do muro virtual. Não buscam proveito pessoal, mas de vez em quando cometem um crime ou outro.

Porém, correr atrás destes caras é mais ou menos como prender traficante de morro para combater o tráfico ao invés de ir atrás dos verdadeiros barões da droga. Perda de tempo e de dados. É o poder público jogando pra galera, fingindo combater o mal.

Os caras que realmente comandam a invasão de nossos computadores e intimidades são hackers com chapéus de outras cores. Tem para todos os gostos: os blue hats (F4c3b00k, 7wi773r e L1nk3d1n), o colored hat (G00gl3), os yellow, os green, os red e até um furta-cor hat, o Ins74gr4m.

Esta escala cromática de surrupiadores de dados tem um impacto muito mais forte em todos nós do que os pobres e superestimados hackers pretos e brancos. Eles sabem de tudo da sua vida, tudo mesmo. E não têm pudor nenhum em comercializar nossa ficha corrida para quem estiver disposto a pagar o preço. Isso quando não são vazados sem querer querendo, como no recente Facebookgate, do Mark “Narigudo” Zuckerberg, o Pablo Escobar cibernético que dirige com mãos de ferro o Cartel do Vale do Silício.

Parece que qualquer um destes gigantes da invasão de privacidade é capaz de ligar nossas câmeras e microfones sem que saibamos ou percebamos. Estamos todos nus. Estamos todos ferrados. Não podemos mais fazer comentários preconceituosos, racistas, xenofóbicos, homofóbicos nem em conversas privadas. Nem sozinhos em voz alta. Temos de nos controlar 24 horas por dia. E, se bobear, em algum momento aparecerá em nossas multitelas o Tiago Leifert para avisar-nos de que estamos no paredão, só porque contamos uma piada de anão no cafezinho do escritório.

A privacidade é um objeto de desejo que jamais recuperaremos. Mas o pior não é conhecerem nossas manias, taras, depravações e o formato de nossas genitálias, mas usarem as informações que lhes entregamos de forma gratuita contra nós mesmos. É como o Brasil que exporta matéria-prima a preço de banana para depois comprar produtos industrializados, feitos com nossa matéria-prima, pelos olhos da cara.

O Big Data é o inconsciente coletivo decodificado em bits. E qualquer um que o tiver em seu poder, terá isso mesmo: muito poder. E o poder, como sabemos, corrompe. J. Edgard Hoover foi diretor do FBI estadunidense por 48 anos, até morrer na verdade, porque, dizem, tinha informações constrangedoras e comprometedoras de todo mundo da classe política, judiciária, artística, enfim, da espécie humana. Quem olhasse torto para ele ou não dissesse “deus-te-crie” quando ele espirrasse corria o sério risco de ser perseguido, desnudado e execrado publicamente. Carreiras foram destruídas. Vidas foram ceifadas. Para quem não acredita em coincidências, Hoover tem a mesma quantidade de ós que Google. Só não vê quem não quer.

Em um excelente artigo no The Guardian, um cara chamado Dylan Curen mostra como baixar todos os dados que o Facebook e o Google têm sobre você. Até aí, tudo bem, normal. Quer dizer, normal até você abrir as pastas que baixou e descobrir a quantidade e a modalidade de informações que estes super hiper hackers guardam de você. É assustador. Os lugares onde você esteve, com quem conversou pelo telefone, fotos, inclusive as que apagou, e por aí vai.

Os únicos concorrentes reais dos grandes traficantes de informação são os estrepitosos hackers russos. Mas, não se iluda: são todos farinha do mesmo saco. Se você prestar bem atenção, são idênticos em seus métodos e propósitos. A única diferença é que uns são legalizados e os outros vivem nos subterrâneos do crime. É mais ou menos a diferença entre os bancos e os agiotas.

Li por aí que se você quiser diminuir o tamanho do buraco de sua fechadura, pode arriscar usar o Tor, o browser da deep web, que não deixa rastros por onde você navega. Outra alternativa é navegar no modo anônimo em seu browser. E a mais eficiente de todas é simplesmente se desconectar totalmente da internet. Mesmo assim você não vai conseguir fugir totalmente do Big Brother. O simples fato de você existir já faz de você mais uma ovelha do rebanho.

Mesmo que você não use computador, tablet e smartphone e que só use dinheiro vivo, você tem documentos, frequenta lugares que exigem identificação, portanto em algum momento vai fazer um cadastro, um registro. Sem contar que as câmeras estão em todos os lugares e certamente irão captura-lo e coloca-lo junto com todos aqueles que, em nome da liberdade de informação, estão encarcerados na nuvem para sempre. E você que achava que ia para as nuvens só quando batesse as botas.

(*) Henrique Szklo é Sócio e CEO da Chikenz

 [:en] 

A paranoia com relação à internet nasceu junto com a própria internet. É como um filme de terror para quem gosta do gênero: diversão e medo num mesmo pacote. E para nos atazanar ainda mais, uma nova categoria profissional surgiu quase que simultaneamente à web: os hackers, a quem William Gibson em sua trilogia do Sprawl da década de 80 sugestivamente chamou de cowboys.

Em linhas gerais, os hackers são divididos em black hats (os bandidos), white hats (os mocinhos) e os grey hats, o PSDB dos hackers, aqueles que ficam em cima do muro virtual. Não buscam proveito pessoal, mas de vez em quando cometem um crime ou outro.

Porém, correr atrás destes caras é mais ou menos como prender traficante de morro para combater o tráfico ao invés de ir atrás dos verdadeiros barões da droga. Perda de tempo e de dados. É o poder público jogando pra galera, fingindo combater o mal.

Os caras que realmente comandam a invasão de nossos computadores e intimidades são hackers com chapéus de outras cores. Tem para todos os gostos: os blue hats (F4c3b00k, 7wi773r e L1nk3d1n), o colored hat (G00gl3), os yellow, os green, os red e até um furta-cor hat, o Ins74gr4m.

Esta escala cromática de surrupiadores de dados tem um impacto muito mais forte em todos nós do que os pobres e superestimados hackers pretos e brancos. Eles sabem de tudo da sua vida, tudo mesmo. E não têm pudor nenhum em comercializar nossa ficha corrida para quem estiver disposto a pagar o preço. Isso quando não são vazados sem querer querendo, como no recente Facebookgate, do Mark “Narigudo” Zuckerberg, o Pablo Escobar cibernético que dirige com mãos de ferro o Cartel do Vale do Silício.

Parece que qualquer um destes gigantes da invasão de privacidade é capaz de ligar nossas câmeras e microfones sem que saibamos ou percebamos. Estamos todos nus. Estamos todos ferrados. Não podemos mais fazer comentários preconceituosos, racistas, xenofóbicos, homofóbicos nem em conversas privadas. Nem sozinhos em voz alta. Temos de nos controlar 24 horas por dia. E, se bobear, em algum momento aparecerá em nossas multitelas o Tiago Leifert para avisar-nos de que estamos no paredão, só porque contamos uma piada de anão no cafezinho do escritório.

A privacidade é um objeto de desejo que jamais recuperaremos. Mas o pior não é conhecerem nossas manias, taras, depravações e o formato de nossas genitálias, mas usarem as informações que lhes entregamos de forma gratuita contra nós mesmos. É como o Brasil que exporta matéria-prima a preço de banana para depois comprar produtos industrializados, feitos com nossa matéria-prima, pelos olhos da cara.

O Big Data é o inconsciente coletivo decodificado em bits. E qualquer um que o tiver em seu poder, terá isso mesmo: muito poder. E o poder, como sabemos, corrompe. J. Edgard Hoover foi diretor do FBI estadunidense por 48 anos, até morrer na verdade, porque, dizem, tinha informações constrangedoras e comprometedoras de todo mundo da classe política, judiciária, artística, enfim, da espécie humana. Quem olhasse torto para ele ou não dissesse “deus-te-crie” quando ele espirrasse corria o sério risco de ser perseguido, desnudado e execrado publicamente. Carreiras foram destruídas. Vidas foram ceifadas. Para quem não acredita em coincidências, Hoover tem a mesma quantidade de ós que Google. Só não vê quem não quer.

Em um excelente artigo no The Guardian, um cara chamado Dylan Curen mostra como baixar todos os dados que o Facebook e o Google têm sobre você. Até aí, tudo bem, normal. Quer dizer, normal até você abrir as pastas que baixou e descobrir a quantidade e a modalidade de informações que estes super hiper hackers guardam de você. É assustador. Os lugares onde você esteve, com quem conversou pelo telefone, fotos, inclusive as que apagou, e por aí vai.

Os únicos concorrentes reais dos grandes traficantes de informação são os estrepitosos hackers russos. Mas, não se iluda: são todos farinha do mesmo saco. Se você prestar bem atenção, são idênticos em seus métodos e propósitos. A única diferença é que uns são legalizados e os outros vivem nos subterrâneos do crime. É mais ou menos a diferença entre os bancos e os agiotas.

Li por aí que se você quiser diminuir o tamanho do buraco de sua fechadura, pode arriscar usar o Tor, o browser da deep web, que não deixa rastros por onde você navega. Outra alternativa é navegar no modo anônimo em seu browser. E a mais eficiente de todas é simplesmente se desconectar totalmente da internet. Mesmo assim você não vai conseguir fugir totalmente do Big Brother. O simples fato de você existir já faz de você mais uma ovelha do rebanho.

Mesmo que você não use computador, tablet e smartphone e que só use dinheiro vivo, você tem documentos, frequenta lugares que exigem identificação, portanto em algum momento vai fazer um cadastro, um registro. Sem contar que as câmeras estão em todos os lugares e certamente irão captura-lo e coloca-lo junto com todos aqueles que, em nome da liberdade de informação, estão encarcerados na nuvem para sempre. E você que achava que ia para as nuvens só quando batesse as botas.

 

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