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Trabalho chato, no more!

Esse novo cenário abre possibilidades interessantes para ambos os lados. O profissional pode trabalhar com muito mais liberdade, estabelecer suas próprias metas e multiplicar o número de empresas a quem pode oferecer seus serviços, em vez de colocar todos os ovos na mesma cesta. Já para o contratante, isso proporciona a possibilidade de trabalhar com profissionais de alto nível com maior frequência.

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4 de junho de 2018 - 8h01

 

 

 

Paulo Silva (*)

 

Em meu artigo anterior, mostrei que a tecnologia – principalmente a inteligência artificial – já está transformando o trabalho em todo o planeta. E de maneira irreversível. Máquinas capazes de aprender e até de tomar decisões já não são mais coisas do futuro – elas invadiram nossa vida e o mercado de trabalho.

Algumas pessoas veem nisso uma devastação dos empregos no mundo, dando origem a um exército gigantesco de gente sem ter o que fazer. Eu sou bem menos pessimista e acredito que, apesar de algum desemprego inicial, a inteligência artificial vai nos liberar, como seres humanos, para darmos um salto intelectual e criarmos não apenas novos trabalhos, mas também novas configurações de como trabalhar. E é exatamente sobre essas novas configurações que quero convidar você a refletir comigo.

Para mim, a grande beleza dessa transformação toda está na quantidade de gente que começa a desenvolver seu espírito empreendedor. Muitos profissionais estão se transformando em empresas de si mesmos e abrindo novas possibilidades para si e para o mercado. Por exemplo, é cada vez mais comum vermos plataformas onde eles encontram demandas para seu serviço e selecionam quais trabalhos desejam realizar. Assim, se um profissional pretende faturar seis mil reais num determinado mês, ele escolhe os “jobs” que vão lhe trazer esse valor e presta o serviço como um fornecedor. Mas quem garante a qualidade do trabalho? Simples, todos os contratados e contratantes são avaliados e ranqueados para futuras contratações.

Esse novo cenário abre possibilidades interessantes para ambos os lados. O profissional pode trabalhar com muito mais liberdade, estabelecer suas próprias metas e multiplicar o número de empresas a quem pode oferecer seus serviços, em vez de colocar todos os ovos na mesma cesta. Já para o contratante, isso proporciona a possibilidade de trabalhar com profissionais de alto nível com maior frequência. Pense comigo: talvez sua empresa não tenha condições de pagar o salário mensal de um profissional altamente qualificado, mas provavelmente pode pagar por uma semana de trabalho dessa pessoa para um trabalho específico.

Outra coisa que vem acontecendo com frequência – e é um aprofundamento do que eu acabei de dizer – é a sociedade por projetos. Um profissional pode pegar sua empresa, se “plugar” a outras empresas ou outros profissionais e, juntos, estabelecerem uma sociedade para viabilizar um determinado produto ou serviço. Imagine uma startup que desenvolveu um aplicativo inovador, mas não tem verba para produzir um material de divulgação para suas redes sociais. Do outro lado, um especialista em marketing digital pode usar sua empresa para desenvolver a campanha desse aplicativo em troca de uma porcentagem dos lucros daquele produto. Isso é mais comum do que a gente imagina. Você deve se lembrar daquela massoterapeuta que prestava serviços para o Google e ficou milionária, porque parte de seu pagamento era em ações da recém-lançada companhia.

Mas se você é daqueles que precisam saber exatamente quanto vão receber no fim do mês e ter uma certa estabilidade profissional, fique tranquilo: você não precisa pedir demissão de seu emprego e montar um negócio do zero para empreender. Um conceito que vem se popularizando muito, no Brasil e no mundo, é o intraempreendedorismo. Cada vez mais companhias estimulam seus funcionários a adotar uma postura empreendedora, desenvolvendo sua liderança, capacidade de inovação e geração de ideias. Novamente, saem ganhando a companhia e o profissional. A empresa diminui seu risco de obsolescência, com pessoas mais capazes de entender o novo consumidor e a sociedade em transformação. E o profissional, que não precisa mais ser um empresário para empreender.

Com tanta gente empreendendo, seja por conta própria ou dentro de outras empresas, era de se esperar que o espaço físico também sofresse transformações. Há muito tempo, já não é mais necessário manter o profissional 100% das horas dentro do escritório, e as pessoas que trabalham em “home office” se multiplicam na mesma velocidade que os aplicativos de videoconferência. Bom para as empresas que entendem essa mudança, pois os melhores profissionais do mercado cada vez mais querem trabalhar nesse formato. Essa é uma tendência que tende a aumentar e, de quebra, ainda ajuda a diminuir os problemas de mobilidade urbana das grandes cidades.

Os espaços compartilhados também ganham popularidade, e o mais comum é o coworking, que reduz o custo fixo de empresas ao dividir boa parte das suas despesas estruturais. Mas o coworking não é a única modalidade de se compartilhar espaço, algumas empresas com atividades complementares já vêm trabalhando numa única sede. Além da redução de gastos, elas ainda tornam sua relação muito mais próxima e a comunicação muito mais ágil – afinal, estão ali, lado a lado. Novamente, vou citar um exemplo do mercado das startups e lembrar das incubadoras e aceleradoras, que trazem as startups para dentro de seu próprio espaço físico, criando um elo mais sólido no ecossistema.

Você deve estar me achando otimista demais, meio Pollyanna, vendo só o lado bom das transformações digitais. Mas é claro que eu sei que tem gente que vai sair perdendo com isso tudo. Em meu artigo anterior, já citei os problemas que muitos especialistas começam a enfrentar com a inteligência artificial realizando muitas de suas funções com maior velocidade e eficiência.

Mas não são só os especialistas, os intermediários também tendem a ter suas possibilidades minimizadas com toda essa transformação. A tecnologia vem aproximando compradores e fornecedores numa velocidade enorme, e a cadeia produtiva precisa cada vez menos da intermediação, proporcionando maior agilidade e menor preço. A desintermediação da economia é assunto para um novo artigo, mas se você parar para pensar, verá que já vive seus efeitos na prática quando, por exemplo, acessa um serviço de streaming de música. Onde antes havia todo um ecossistema de intermediários (estoque, transporte, loja física), agora há um único canal de distribuição com custos muito mais baixos. Ou você achava que aquele valor que você pagava num CD ia todo para o artista?

Apesar das eventuais desvantagens, eu tenho certeza que a transformação que vivemos hoje vai resultar em mais gente trabalhando em mais coisas, com mais empresas, por menos tempo. No fim das contas, teremos pessoas com maior satisfação profissional (por participarem de coisas que lhe fazem sentido) e mais tempo livre. E por falar em tempo livre, você deve estar se perguntando de que forma tudo isso vai impactar nossas vidas como um todo. E é exatamente isso que vou trazer no próximo artigo, em que vamos conversar sobre internet das coisas, wearables e toda a simbiose entre ser humano e tecnologia, que estamos apenas começando a assistir, maravilhados. Mas, só para encerrar o assunto de trabalho, acredito que quem conseguir se adaptar a essas transformações é que vai sobreviver. E, mais que isso, vai odiar um pouco menos as segundas-feiras.

(*) Paulo Silva é Managing Partner da RockOn Advisors, ex-CEO Walmart.com

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