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Afinal, que (anjos) diabos é uma “startup”?

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Afinal, que (anjos) diabos é uma “startup”?

É pela escala que a maioria das startups tem um produto ou serviço de base tecnológica: os bits e bytes permitem que se escale a baixo custo. Um app pode ser desenvolvido, publicado e baixado do outro lado do planeta por alguém com um smartphone. Tente fazer o mesmo com um corte de cabelo, ou uma padaria ;-).

Fábio Póvoa
5 de junho de 2018 - 7h19

Por Fábio Póvoa (*)

2 desenvolvedores programando em uma garagem. Um escritório que tenha uma mesa de ping-pong, onde se possa levar o cachorro e que tenha cerveja às 3 da tarde. Uma empresa que tem um app, que dá prejuízo, que recebeu “investimento anjo” ou entrou numa “aceleradora”.

ERRADO.

Não são sinônimos absolutos de startup o fato de ser recém-fundada, de base tecnológica (app), ter recebido capital de risco (anjo/seed/VC), potencial de “saída” e, obviamente, de se ter qualquer tipo de “inovação” quanto a jogos no ambiente de trabalho, prazeres etílicos ou aberta a animais de estimação.

‘Uma empresa grande que ainda não cresceu”

A definição clássica de startup é a de uma organização temporária desenhada para buscar por um modelo de negócios repetível, escalável e lucrativo.

Vale a pena pegar cada pedaço desta frase para melhor entender seu significado.

“Organização”, e não empresa, porque muitas iniciativas empreendedoras acontecem MUITO antes de se abrir um CNPJ. Todo o trabalho de entrevista de clientes, entendimento do problema e potencial desenho da solução pode ser executado sem as amarras de uma empresa formalmente constituída, ainda mais na realidade burocrática nacional.

“Temporária” porque o time e as atividades desenvolvidas enquanto a empresa é uma startup irão naturalmente mudar, amadurecer e se consolidar. Em geral, nas startups que já nascem com a correta mentalidade dos seus fundadores, este período varia entre 1 a 3 anos, durante o qual se…

“Busca por um modelo de negócios”. O desafio fundamental de uma startup é montar um quebra-cabeça que consiste em buscar um problema ou dor de um segmento de consumidores passível de ser resolvido com uma solução (eis o app ou website !) não-facilmente copiável. Encontrados e servidos através de canais (mobile, mídia social, web ), tal solução tem uma proposição de valor bem definida, com custos (pessoal, hosting, etc) para entregar este valor e receitas decorrentes da monetização desta entrega.

A metodologia Lean Startup e o Lean Canvas

A metodologia Lean Startup nasceu exatamente para dar um embasamento a esta jornada empreendedora de busca e validação de hipóteses que fundamentam um modelo de negócios. Uma das principais ferramentas é o Lean Canvas, quadro visual simplificado que mostra os principais blocos do modelo de negócios:

Por fim, este modelo de negócios encontrado no processo de busca deve ser “repetível, escalável e (em algum momento) lucrativo”. As atividades executadas devem ter um padrão que permita serem repetidas em grande número e em diferentes geografias, sem que a curva de custos acompanhe na mesma medida da receita (eis a escala !).

É exatamente pela escala que a maioria das startups tem um produto ou serviço de base tecnológica: os bits e bytes permitem que se escale a baixo custo. Um app pode ser desenvolvido, publicado e baixado do outro lado do planeta por alguém com um smartphone. Tente fazer o mesmo com um corte de cabelo, ou uma padaria ;-).

E o$ lucro$ ? Obviamente, em algum momento futuro, a startup deve ser capaz de capturar parte do valor (lucro, receitas – despesas) criado no contexto das suas operações. Enquanto isso não acontece, os gastos agressivos com marketing, vendas e operação resultam naturalmente em prejuízo operacional, que por sua vez é coberto por investimentos de risco realizado por anjos, fundos de capital semente e fundos de venture capital.

Exemplos de empresas (não startups !)

Com base neste modelo, é possível depreender que várias das empresas que muitos conhecemos e associamos ao termo podem um dia ter sido, mas já não são mais, “startups”.

A 99Táxis, por exemplo.  Fundada há mais de 5 anos, ela oferece a possibilidade de se chamar um transporte pessoal (táxis, outro para motoristas particulares) e acaba de ser vendida para a chinesa Didi Chuxing por um valuation superior a US$ 1bi, tornando-a o primeiro unicórnio brasileiro.

Num primeiro momento, o time da 99 buscava sim resolver o problema de quem queria chamar um táxi a partir de um smartphone com GPS, facilitar pagamentos com cartão de crédito no app e capturar parte deste valor, com um aplicativo móvel para as diferentes plataformas, tentando se diferenciar dos concorrentes (EasyTaxi) e se expandindo para diferentes cidades.

Entretanto, após os anos iniciais, o modelo de negócios  – antes buscado e validado – foi encontrado (funcionalidades do app, segmentos de consumidores, política de preço e comissionamento, parcerias e regulação) e passou a ser então EXECUTADO para expansão em larga escala. Ao se expandir para uma nova empresa, a empresa já tem todo um manual de boas práticas para fazer divulgação, cadastrar taxistas e angariar usuários, executando um modelo de negócios absolutamente consolidado. Em resumo, a 99Táxis é uma empresa, e não mais uma startup.

A transição de startup escalável para uma empresa

Quando uma startup encontra um modelo de negócios escalável, repetível e lucrativo, ela chega ao estágio que chamamos de “product market fit”.

Nesse estágio, os motores de crescimento das startups – principais canais, nichos de clientes indicadores de performance e cenário de crescimento – estão validados e conhecidos, com melhor previsibilidade quanto ao retorno do capital investido em marketing e vendas.

Assim, o processo de empreender nada mais é do que hipotetizar, entender e validar premissas de negócio, iterando paulatinamente para construção da solução, mapeando os principais canais para conquistar e servir clientes, com crescimento em escala, captura de valor e, idealmente, sem ser tão facilmente copiado pela concorrência. Simples, não ? ;-P

Quando isso acontece, a startup dá lugar ao que conhecemos como empresa, na medida em que grande parte dos processos, estrutura de gestão, métricas financeiras e posicionamento no mercado são conhecidos e maduros. Obviamente, nada impede que grandes empresas possam manter a “mentalidade de startup”, adotando um esforço de inovação e busca de novos modelos de negócios para contínuo crescimento.

Na próxima newsletter, vamos falar de forma aprofundada de uma característica que define startups: crescimento em escala.

Lições aprendidas

• Startups são organizações temporárias em busca de um modelo de negócios repetível, escalável e lucrativo.

• Apps, websites e outros elementos de tecnologia viabilizam crescimento em escala, mas não definem por si só uma startup.

• Quando encontram product market fit, as startups deixar de buscar um modelo de negócios para executar um plano de negócios amadurecido.

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(*) Fábio Póvoa é um dos maiores Investidores Anjo do Brasil, professor de Lean Startup na Unicamp e Head do fundo Smart Money Ventures. Contribui assiduamente com conteúdo de relevância para a Angel.Education e atua como um dos maiores formadores de novos investidores no país através de treinamentos e palestras.

(*) Depois de ler o mestre, leia o idiota… um artigo que mui humildemente escrevi sobre o mesmo tema, aqui. Pyr.

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