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Sonho grande na Davos Brasil

O Hack Brazil fechou a Davos brasileira mostrando que ‘yes, nós temos talentos’

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20 de abril de 2017 - 10h34

 

 

 

 

Venâncio Velloso (*)

 

Foi incrível. Deste período que estou passando aqui no MIT, ajudar na organização e participar da Brazil Conference – Diálogos que Conectam e do HackBrazil foi uma das experiências mais inspiradoras que tive no meu MBA em Cambridge.

Passar um tempo longe do País e agora ter o privilégio de receber e encontrar reunidos grandes expoentes do Brasil e do mundo na política, na cultura, no empresariado e diversos setores para um debate franco, respeitoso, profícuo e otimista sobre nosso futuro foi uma recompensa que não povoava meus mais impossíveis sonhos quando fiz as malas para este sabático.

De Nizan a Gilberto Gil, de Dilma a Moro, de Jorge Paulo Lemann a Warren Buffet (um dos encontros épicos que fechou a Conferência), Boston se transformou em território brasileiro no primeiro fim de semana de abril, criando uma atmosfera que nos colocou em um estado de reflexão capaz de germinar, como batizado pelo publicitário baiano, a Davos brasileira.

Difícil descrever a alegria de compartilhar com meus colegas brasileiros do MIT e de Harvard um momento histórico que colocou frente a frente algumas das cabeças (antagônicas) mais impressionantes para dialogar acerca de variados temas – negócios, empreendedorismo, sustentabilidade, energia, saúde, ciência, tecnologia, educação, política, ética, corrupção; o futuro do país esteve em pauta sob seus mais variados espectros.

De tantas conversas, o extrato da Davos Brasileira de 2017 é a esperança por um Brasil melhor, forte para superar a crise e ocupar a cadeira de destaque que merece na economia global. E a saída passa inexoravelmente por acreditar na nova geração e dar aos jovens a oportunidade de tirar do País a pecha de sermos o país do futuro que nunca chega lá por pura falta de autoestima. A Brazil Conference mostrou ao mundo como há tempos não acontecia que somos muito mais que o país do futebol, do samba e das mulheres bonitas. Que me perdoe Obama por parafraseá-lo, mas yes, WE can.

Há um claro anseio por tirar o país da condição anestésica que se encontra e retomar o desenvolvimento, o crescimento, a recuperação da dignidade de um povo resiliente, batalhador, que acredita, arregimenta talentos e quer condições mais adequadas para se integrar globalmente e ser um dos líderes da economia da inovação.

Nizan pontuou bem em sua coluna na Folha: entre as principais reformas necessárias ao País está o que chamou de reforma psíquica.

O Brasil tem a urgência inadiável de acreditar em si mesmo e deixar de lado o complexo de vira-lata. Somos, sim, uma nação capaz e os momentos de patriotismo não podem mais estar reservados ao canto do Hino quando a Seleção brasileira entra em campo.

Na discussão do painel ‘Brazil of the future: High Tech and Science Development’, Victor Lazarte, desenvolvedor de games e softwares, sublinhou justamente nossa principal demanda: uma formação mais empreendedora e direcionada à transformação digital.

Qualificar nossos jovens para embarcar em um mundo empreendedor cada vez mais sem fronteiras é um passo imprescindível, promovendo iniciativas, como já alertei em artigo anterior, que estimulem o intercâmbio de conhecimento entre os estudantes das universidades brasileiras e internacionais para semear, a partir do ambiente acadêmico, um mercado fértil ao nascimento de startups de tecnologia. As grandes corporações de tecnologia, tema de meu outro artigo, também devem ser celeiros para as criações de nossos inventores.

Stelleo Tolda, COO do Mercado Livre, levantou neste bate-papo um ponto nevrálgico ao ecossistema empreendedor, lembrando que no Brasil o mindset é muito voltado para pensar no problema e não na solução, além de ter nos “copy cats” a estratégia central, replicando modelos importados ao invés de identificar e levar em consideração as lacunas específicas do País.

O aditivo para fomentar a cultura da inovação e preparar o Brasil para revolução digital está na criação de laboratórios equipados com as tecnologias mais disruptivas disponíveis à experimentação e criação de nossos jovens inventores.

Em um dos debates que assisti, Neil Gershenfeld, professor do MIT e criador do Fab Lab (abreviação para Fabrication Laboratory), sacramentou: “a próxima Silicon Valley será criada através de uma comunidade digital”. Faz sentido. A Global Valley. Afinal, a conectividade levou as empresas a se tornarem cada vez menos globais e cada vez mais locais.

Se quiser ser protagonista desta nova economia da inovação, o Brasil terá que oferecer condições equiparáveis às de países que já fizeram da pesquisa científica e da cultura maker uma prioridade intocável.

Concebido no Center for Bits and Atoms (CBA) do MIT, o projeto dos Fab Labs vem se espalhando pelo mundo através de centros equipados com tecnologias como impressoras 3D, cortadores a laser, fresadoras para perfuração de placas de circuitos e outras ferramentas que habitavam os desejos de qualquer professor Pardal.

A integração e conexão dos Fab Labs e o desenrolar de um mercado global empreendedor sem muros permitirá a gestação de empresas com a paternidade de inventores que habitam qualquer lugar do planeta, seja na Califórnia, em Israel, na China, na Índia e, por que não, no Brasil?

Mas, para isso, o país precisará desenvolver seus próprios talentos e gerar oportunidades. Cabe registrar aqui no Brasil a iniciativa da Fab Lab Brasil Network, que apoia o desenvolvimento de Fab Labs no país e os ajuda a se conectar com outros no mundo.

E não me venham dizer, por favor, que o Brasil carece de inventores.

Somos um país legitimamente inventivo, criativo. Há séculos, Santos Dumont (avião), Andreas Pavel (walkman), Manuel Dias de Abreu (abreugrafia) e tantos outros brasileiros, apenas para citar alguns, contribuíram com suas invenções para moldar a tecnologia atendendo claras necessidades dos consumidores da era moderna.

Às novas gerações cabe ter a mesma coragem de errar quantas vezes for necessário para tirar projetos pioneiros do papel.

O Hack Brazil fechou a Davos brasileira mostrando que ‘yes, nós temos talentos’. Entre as mais de 320 equipes participantes, formadas principalmente por jovens da geração millenium, a Bubu Digital e a Diagnóstico Público, as duas startups vencedoras, são uma prova contundente que a inovação já está acontecendo no Brasil e de que nossos jovens estão mais do que prontos para ingressar ativamente na economia da inovação, global e conectada.

A Bubu Digital desenvolveu uma tecnologia wearable, uma chupeta eletrônica equipada por microcontroladores e sensores que coletam e transmitem dados sobre a saúde das crianças, como temperatura e umidade corporal. Um negócio com alto impacto em um dos grandes problemas do país: a mortalidade infantil.

A Diagnóstico Público é uma empresa de big data que coleta e analisa dados para dar mais transparência à gestão pública e apoiar o combate à corrupção, certamente visto hoje como o principal câncer que mina o desenvolvimento do País.

Nossos jovens inventores sabem que para construir o Brasil do futuro precisam transformar rapidamente o presente. Eles têm pressa e estão focados no Brasil de hoje. E certamente já aprenderam uma das principais lições de Lemann: “Ter um sonho grande dá o mesmo trabalho de ter um sonho pequeno”.

(*) Venâncio Velloso é empreendedor, fundador do WebPesados e da consultoria DIB (Digital Innovation Builders). No momento, está fazendo MBA no MIT (Massachusetts Institute of Technology).

 

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