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É o fim do marketing e da comunicação como conhecemos.

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É o fim do marketing e da comunicação como conhecemos.

O marketing e a publicidade praticamente não existem mais. Quer dizer, não como conhecíamos nos séculos 20 e 21. Na maioria dos casos, não há mais necessidade de seduzir ninguém com conceitos, mensagens, promessas, ofertas, mentiras.

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7 de setembro de 2017 - 9h26

Por Henrique Szklo (*)

Ano 2033.

Mais de 8 bilhões de seres humanos espremem-se neste pequeno e combalido planeta. As grandes corporações assumiram o que já faziam desde sempre, ou seja, mandam em tudo. Não existem mais governos nem países. As fronteiras do mundo agora são definidas pelo market share.


Não existe mais dinheiro físico, nem documentos. Ao nascer, a pessoa tem implantado um chip em seu cérebro que controla todas as suas atividades até a morte. Morte esta que foi adiada a níveis nunca vistos, pois o chip também controla as funções orgânicas e está ligado a uma central médica que em caso de alguma doença ou deficiência envia por nanotecnologia os remédios e tratamentos necessários. Isso caso você seja beneficiário de um plano de saúde caríssimo, claro. Se não, deus ajude que você seja beneficiário da sorte.

Há quem acredite que, em breve, o chip poderá ser retirado de um corpo decrépito e ser instalado em outro novinho em folha, sem perda de informações. A tão sonhada reencarnação digital. Mas nada disso tem a ver com algum tipo de propósito humanista e civilizatório das corporações. É que quanto mais as pessoas duram, mais tempo elas podem consumir. O capitalismo selvagem acabou. Foi substituído pelo capitalismo virtualmente selvagem.


As pessoas não sabem mais ler nem escrever. Nem precisam. Os computadores reconhecem voz e os alfabetos foram abandonados. Toda a comunicação é wireless e o chip se tornou responsável por captar e decodificar todas as informações. Ele agora é a interface entre os sentidos e o cérebro. Isso no caso você tenha um bom plano de inteligência artificial. Muitos não podem. Mas ninguém sabe nem quer saber como eles se viram. Eles são criativos, não se preocupe.


Gigantescos computadores, ou os Grandes Servidores, como são conhecidos, é que controlam a rede de chips e guardam todas as informações que existem na nuvem. É o inconsciente coletivo modelo digital. Servidores estes que são controlados por quem? Por quem?


Não existe mais privacidade. Zero. O tal do chip está ligado a sistemas GPS que localizam qualquer pessoa em qualquer lugar, registrando sua voz, o som ambiente, temperatura, odores, imagens captadas pelos olhos e, principalmente, pensamentos. Algumas pessoas são totalmente ignoradas pelo GPS, mas acho que você já entendeu isso. Não vou falar mais desse pessoal para não estragar a beleza de nosso sistema.


Os celulares, internet e derivados viraram relíquias. A capacidade de ler a mente associada aos Grandes Servidores tornou o homem capaz de se comunicar com quem quer que seja, apenas com a força do pensamento. Em função disso, as pessoas não falam mais, fato que está contribuindo decisivamente para a diminuição de conflitos e mal-entendidos. É claro que ninguém lê o pensamento alheio sem autorização, já que cada um controla o que é compartilhado e o que não é. Exceção feita às grandes corporações que lêem o pensamento de quem bem entender sem pedir licença pra ninguém.


Os Grandes Servidores interferem no pensamento das pessoas, incutem ideias, formam opiniões e fazem lavagem cerebral, assumindo a função que sempre foi da grande mídia. Mas ninguém nunca conseguiu provar isso. Até porque quem tentou, inexplicavelmente desistiu e mudou de opinião de uma hora para outra. Estranho…


O marketing e a publicidade praticamente não existem mais. Quer dizer, não como conhecíamos nos séculos 20 e 21. Na maioria dos casos, não há mais necessidade de seduzir ninguém com conceitos, mensagens, promessas, ofertas, mentiras. As empresas que querem vender seus produtos ou serviços procuram os Grandes Servidores e compram consumidores. É a chamada Compra Garantida. Por exemplo, uma grande montadora de automóveis quer vender 20 mil unidades de um de seus modelos. Cada consumidor tem um preço (aliás, a máxima “todo homem tem seu preço” nunca foi tão adequada). A verba do cliente é dividida pelo número de consumidores desejados e está pronto o plano de mídia. Os Grandes Servidores, então, enviam comandos subliminares para os consumidores escolhidos por um algoritmo que os separa por gosto, poder aquisitivo, região, etc, e estes 20 mil carneirinhos digitais vão à loja de carros e fazem sua compra. Não importa o que eles estejam fazendo naquele momento.

Se o neurocirurgião recebe o comando de compra no meio de uma operação, ele abandona a cabeça sem tampa de seu paciente e parte alegremente rumo a uma concessionária e adquire um belo automóvel que ele não precisa. Mas todo sistema tem seus bugs. Se o paciente também for um dos escolhidos, vai sair na rua com o cérebro exposto e provavelmente morrerá de infecção. Mas jamais antes de transferir seu dinheiro para o comerciante, claro. O consumidor, otário como sempre, não acredita no poder das corporações e pensa que seu desejo de consumo é resultado de sua vontade própria e livre-arbítrio. #haha


É o paraíso do capitalismo. O sonho de todo anunciante finalmente realizado. Uma mensagem publicitária que atinge todo o público-alvo, sem desperdício. 100% de conversão garantida. A evolução da mídia programática.


Não existe mais a necessidade de serviço de atendimento ao consumidor, procon, nada disso. Se 1 milhão de consumidores forem escolhidos para comprar uma máquina de recondicionar fraldas geriátricas usadas, então 1 milhão irão comprá-la imediatamente. E vão ficar felicíssimos com sua nova aquisição. Jamais irão se arrepender nem reclamar. A não ser que o anunciante não pague os Grandes Servidores. Aí os consumidores saberão a merda que fizeram. Literalmente. Hoje, a propaganda é o negócio da alma.


Já o merchan, como as baratas, resiste a qualquer hecatombe. O anunciante em 2033 pode comprar a alma de influencers relacionados ao seu negócio. Os discípulos desse demo tecnológico saem por aí com o pensamento aberto, liberado para todo mundo captar, apenas com ideias positivas em relação ao produto do cliente, sem nem ao menos ter ideia do que se trata (na verdade não mudou nada da década de 2010). Os Grandes Servidores enviam ao chip do sujeito um script bem bolado, criado por redatores artificiais, que ele repete à exaustão para qualquer um que encontrar pela frente. É uma opção bem mais em conta comparada à Compra Garantida. Mas, claro, com bem menor porcentagem de conversão. Até porque a maioria dos influencers é uma fraude. Nesta modalidade, considerada old school, o processo de sedução, convencimento e manipulação dos sentimentos mais baixos do ser humano são ainda importantes ferramentas.


Mas nem tudo são flores artificiais neste futuro auspicioso. Arqueólogos encontraram um calendário antiquíssimo, que não se sabe se é Maia ou Inca Venusiano, que faz uma previsão alarmante: o excesso de energia necessária para alimentar os Grandes Servidores provocará uma severa crise energética que desligará todo o sistema para sempre. Shut down forever! Os gatos pingados que sobreviverem ao apocalipse now, diz o calendário, ficarão totalmente perdidos. Não saberão viver neste novo mundo e acabarão por se instalar em cavernas, voltando a estabelecer uma comunicação analógica, através de grunhidos produzidos por cordas vocais atrofiadas. A redescoberta do fogo será o primeiro passo rumo à reconstrução da civilização. A não ser aquele povo que nunca teve acesso à tecnologia de ponta que vai ficar se achando só porque a vida deles vai continuar como era antes. Vão se sentir os “civilizados”.

Não dá mesmo para confiar em quem nunca teve acesso ao mundo digital.

 

(*) Henrique Szklo é sócio-fundador da Chikenz, loja de criatividade e desbloqueio criativo.

 

 

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