29/07/2010

O mundo não está perdido

Edição 1417 do Meio & Mensagem

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Semana passada selou-se um memorável acordo: a troca de participação do mais tradicional jornal da França, o Le Monde, mais que uma empresa jornalística, uma instituição nacional. Por mais de 100 milhões de euros, três investidores assumem o desafio de salvar o jornal: Pierre Bergé, Xavier Niel e Matthieu Pigasse.

O que tem de surpreendente nessa nova investida para enfrentar os tempos bicudos que assolam os jornais de todo o mundo há vários anos? O que tem de arrojado no compromisso que derrotou a poderosa oferta do Nouvel Observateur (uma espécie de Veja no conteúdo e na ideologia), do Grupo Prisa (uma espécie de Abril nos tentaculares poderes) e da France Telecom (uma espécie de estatal privada)? O que tem de irônico nessa vitória que tanto desagradou o presidente Sarkozy, com seu apetite pela cobertura midiática e que enfrenta os piores índices de popularidade já registrados por um presidente francês?

Acima de tudo, a biografia dos novos donos da casa.
Por trás das manchetes "people" que estampam Pierre Bergé como companheiro por décadas de Yves Saint Laurent, há também o formidável empresário que construiu a marca YSL, o homem de grandes causas como a Sidaction, a bem-sucedida campanha de arrecadação de fundos para a luta contra a Aids na França, o amigo dos socialistas poderosos, o idealizador e proprietário de Tétu, a revista GLS mais influente do país. Bergé também é um homem com um gosto apurado pela cultura e manifestações artísticas.

Xavier Niel é o mago da internet que dá dinheiro. Proprietário do Free, o maior provedor de acesso à internet da França, Niel começou sua carreira criando os endereços de encontros eróticos no Minitel (o avô francês da internet comercial). É também um feroz e contundente defensor da liberdade na internet, opondo-se, do alto de sua imagem de "enfant terrible" do empresariado francês e de 12º homem mais rico do país, a todas as tentativas de coibir, legislar ou regulamentar o acesso (como a lei Hadopi, um projeto antediluviano que restringe e pune os infratores do direito autoral online).

Matthieu Pigasse foi o mais jovem talento a assumir a direção geral do banco de investimentos franco-americano Lazard Frère, aos 34 anos. É um empresário que curte Beckett e recita Spinoza, além de ser fino conhecedor do rock. No ano passado, adquiriu a revista Inrockuptibles, um sucesso de vendas há anos na França e talvez a mais importante publicação independente de cultura jovem do país.

O Le Monde vendeu no ano passado, em média, 288 mil exemplares (dos quais 130 mil assinantes) por dia, ou seja, uma repetição paulatina das quedas de tiragem dos anos anteriores: - 4%. O grupo emprega mais de mil pessoas, dentre as quais 280 jornalistas, só para o jornal. Além do jornal, a empresa possui revistas (Télérama, La Vie, Courrier International e Monde diplomatique) e uma plataforma na internet (lemonde.fr e lepost.fr). Apesar da diversificação e dos investimentos continuados em meios digitais de fazer inveja a qualquer periódico brasileiro, o Le Monde acumulou um prejuízo de 25 milhões de euros só em 2009.

É evidente ainda que o contrato de controle acionário preveja total e absoluta independência editorial à redação. Os novos donos do jornal não podem, por contrato, ter qualquer ingerência no conteúdo dos veículos, sendo esse integralmente controlado por um conselho editorial de jornalistas. Ainda que essa ética nos pareça ficção, principalmente no nosso país em que os principais jornais são de propriedade majoritária de famílias que nem sempre são fãs da deontologia e transparência, esse tipo de estrutura é comum no mundo, digamos, tarimbado de civilização.

Ainda que não se possam prever com exatidão quais serão os movimentos de mudança pelos quais o Le Monde inevitavelmente passará, é de admirar-se e encher-se de esperança com a guinada modernizadora ancorada pela biografia dos novos donos do jornal.

É de um novo protagonismo que a mídia carece, tanto aqui como lá. De ar fresco, sangue nos olhos, menos pretensão e mais ousadia. Caso contrário, a condenação, ainda que não venha por mecanismos mercadológicos e econômicos, virá por atentados democráticos e culturais irreversíveis. Ainda que não percamos nossos respeitáveis jornais, perderemos as novas gerações.


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Planejamento


Fernand Alphen

Diretor nacional de planejamento da F/Nazca Saatchi & Saatchi


Semana passada selou-se um memorável acordo: a troca de participação do mais tradicional jornal da França, o Le Monde, mais que uma empresa jornalística, uma instituição nacional.

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