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Paris, Texas? Ou porque o SXSW só poderia ser em Austin

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Paris, Texas? Ou porque o SXSW só poderia ser em Austin

Para os que imaginam que o SXSW é um evento de marketing e comunicação, tenho más notícias. Não é. Mas é o que, então? Porque nasceu no Texas e não na Riviera? E por que nossa indústria tem que vir aqui, afinal?

12 de março de 2019 - 8h45

 

 

Fiz a conta. Cerca de 0,75% dos temas aqui são ligados ao nosso negócio. São 2.500 palestras. Não mais de 30 ou 40 são explicitamente sobra marketing e comunicação. Tha´s all, folks!

SXSW não é Cannes. Não é também nenhum outro evento sobre nosso negócio, que acredite, não é o umbigo do mundo.

Paris não é o Texas e sobre isso tem uma curiosidade, que é um filme do Win Wenders exatamente com esse nome, “Paris, Texas”.

A sacada do Win Wenders está em nos iludir sobre uma geografia sem sentido, dando o nome do seu filme a um lugar desértico no meio do Texas (que de fato existe) e ali ambientar um experimento cinematográfico sobre identidade e a perda do sentido da vida.

Tem uma coisa aqui, em Austin, que lembra a Paris de Win Wenders, que não é a Cannes da propaganda: Austin também é no meio do interior do Texas. Também busca identidade e também busca o sentido de nossas vidas.

Se você quiser entender melhor o que eu estou querendo dizer, clique aqui e veja o primeiro post que fiz sobre o SXSW deste ano.

Isso feito, resolvi contar aqui um pouquinho da história do evento, para que não soframos da síndrome de Win Wenders, confundindo geografias e essências.

Red Neck, com orgulho

Você sabe o que é o Texas? Bom, eu também não sei muito bem, não. Mas sou um chato. Eu leio. Eu me incomodo com o que não sei. E do alto da minha ignorância, vou te contar um pouco do Texas.

Há mais de 10 mil anos havia aqui tribos indígenas, que foram sendo conquistadas e, durante séculos (de 1500 a 1800), França, México e Espanha lutaram por esta terra de ninguém. Que chegou a ser a República Independente do Texas durante uns 10 anos. Mas acabou ficando mesmo como território incorporado aos EUA.

Aqui virou campo de gado, algodão e, depois, petróleo. Muito petróleo.

Aqui surgiu também uma cultura única, que poderíamos chamar de caipira, mas que, tendo tido contato com culturas de fora dos EUA, através da presença de colonizadores franceses, espanhóis e mexicanos, acabaram por desenvolver uma forte cultura proprietária de resistência de seus próprios valores, essencialmente conservadores (é um Estado essencialmente Republicano).

E um povo bem típico local, os red necks, os pescoços vermelhos, que você encontra aqui em cada esquina, vermelhos de olhos azuis, orgulhosos de serem como ninguém é. Aqui, tudo é melhor e maior. Vai dizer que não.

Aqui é a terra dos legítimos desbravadores do Oeste norte-americano e de uma deliciosa música caipira – caipira, sim, com muito orgulho – que eles chamam de country music, e que em muito já contribuiu para a cultura deste País.

Bob Dylan, por exemplo, o Prêmio Nobel, ele mesmo, foi mega influenciado em sua origem (e até hoje) por essa cultura crua.

Mas o grande rei dessa história de cultura e música por aqui é mesmo Willie Nelson, que dispensa apresentações e que nasceu em Austin. Tem lembranças dele em alguns lugares especiais da cidade, mas certamente deveria ter muito mais.

Seu livro auto-biográfico, cujo nome imperdível é Rool Me Up and Smoke Me When I Die, fala muito sobre a cultura local e essa caipirice toda. A maconha é pano de fundo.

Willie Nelson ao lado de estátua em sua homenagem em Austin

Um erro da história?

Mas porque foi aqui, e não na Riviera, que nasceu o festival mais caótico e rico da cultura, conhecimento, ciência e tecnologia do mundo contemporâneo?

Pois o espanto é exatamente esse. Como num ambiente desse tipo, com essa história e com essa natureza é que foi nascer o SXSW? Imagine, justo um festival de internet e inovação ….

Ooops. Errado.

O SXSW ocorre aqui, onde Judas perdeu as suas botas de cowboy, há 33 anos. Algo que me parece que parte dos 1.200 brasileiros que estão por aqui não sabem. Já vou voltar a isso.

Nasceu em 1986 como um festival de música caipira contry indie. Ou seja, a expressão desta alma e do âmago desta terra do (pujante) oeste norte-americano.

A história nos dá pistas dessa origem. E porque aqui.

Austin sempre foi a prima rebelde do conservadorismo texano. Hippies (Willie Nelson, lembra?), além de cabeças surpreendentemente liberais resistentes às políticas rígidas nas universidades dos EUA (Austin sempre teve uma atividade acadêmica liberal extremamente ativa, até hoje), foram pavimentando o caminho para uma cidade que se recusava a ser apenas uma terra perdida no meio do Texas.

Uma cidade da contracultura, foi no que ela acabou por se transformar.

A crise sob o governo Reagan levou a cidade a fazer duas coisas que mudaram sua história: a criação do seu Austin Technology Incumbator (wow! … uma incumbadora nos moldes das atuais, isso no início dos anos 80) para dar apoio a iniciativas na área de tecnologia que já aconteciam voluntariamente na cidade e, bem …. a criação, exatamente do nosso SXSW.

O gancho é esse e o resumo fica assim: resistência texana de pano de fundo, contracultura como caldo, empreendedorismo como driver, cultura pop indie como necessidade do espírito.

(Leia mais aqui sobre a história de Austin e do SXSW.)

A inquietude latente precisava, então, de música. Além de baseado, é claro.

Quer uma ótima versão do que aconteceu na época? Leia esta aí abaixo:

In 1986, Ronald Reagan was president. Email was called electronic mail and was used primarily by universities and the military. The Berlin Wall was standing. The Euro did not exist. Many phones used dials to enter numbers. An Apple Macintosh computer with 128 kilobytes of RAM sold for $5,500 (in 2015 dollars). 40 million music CDs were made and sold worldwide.

That same year, a small group of people in Austin, Texas began a series of long discussions about the future of entertainment and media. The meetings were in the offices of The Austin Chronicle, and participants were sworn to secrecy. A fundamental opinion shared by the group was that the local creative and music communities were as talented as anywhere else on the planet, but were severely limited by a lack of exposure outside of Austin.

Music was the uniting factor, but the group had a catholic taste for art and ideas. Inclusiveness and reaching for new things were core values. The solution being discussed was an event that would bring the outside world to Austin for a close-up view.

As the key ideas were formed, recognition grew that Austin was not the only city where this was an issue. For a local event to bring the world to Austin, it needed to have value everywhere. A name was sought that was not restrictive in its concept.

Finally, in October of 1986, the announcement of the first South By Southwest was made. The SXSW group expected initial resistance from the locals, but it was quite the opposite. Almost everyone wanted to be involved. Resistance would come later.

The first event, held in March of 1987, saw an expected 150 registrants swell to 700 on the opening day. As hoped for, Austin’s charm won over the visitors, and SXSW took on a life of its own.

Growth was steady for the first seven years. For SXSW ’94, often remembered for the Johnny Cash keynote/performance, two new events – Interactive and Film – were introduced. It would mark a fundamental shift in how the world viewed SXSW. Still early in the paradigm shift created by the internet, the film and digital communities found a home in SXSW.

The event has changed in many surprising and meaningful ways since 1987, but at its core, SXSW remains a tool for creative people to develop their careers by bringing together people from around the globe to meet, learn and share ideas. (And maybe have a few once-in-a-lifetime experiences.)

– Roland Swenson, SXSW Managing Director

Sacou?

 

Uma ideia maluca, que deu mega certo

“Mantenha Austin estranha”, acompanhada do slogan de fomentar os negócios locais… marca registrada da contracultura de Austin.

 

Os organizadores, membros do staff do Austin Chronicle, realizaram o primeiro SXSW esperando 150 pessoas. Vieram 700.

(O nome South By Southwest foi inspirado no nome do filme North by Northwest de Hicthcok, que, em inglês, significa uma rota, ou seja, você vai para o Sul ou para o Norte, pelo Nordeste, no caso de Hitchcock, ou pelo Sudeste, no caso aqui do Festival… viagem dos caras… mas ok).

O festival, exatamente pelo seu jeito alternativo e caipirão, roots, foi atraindo gente de vários estilos musicais, apesar de manter até hoje sua origem “independente”. E, aos poucos, percebeu-se que o evento era já culturalmente grande o suficiente para absorver outros âmbitos do conhecimento.

Em 1994, os organizadores criaram uma nova área de atividade para o seu já bombado evento de música, chamada SXSW Film and Multimedia Conference. No ano seguinte, resolveram separar essas duas atividades e, hoje, eles são festivais de fato separados. Só que juntos, se é que me entende (duas semanas no total).

O grande barato na época nesse tal de Interactive era, imagine, o CD-ROM. Bons tempos sem invasão de privacidade (-:)

Bom, o resto é a história que você (mais ou menos) conhece.

Paris, Texas

 

Paris não é Texas. Cannes não é Austin. Um não tem nada a ver com o outro. Simples assim.

Cannes é um festival de negócios. SXSW é um festival de cultura contemporânea, que celebra a descoberta, o avanço das sociedades, a ciência, o conhecimento, o saber moderno, a tecnologia como driver de transformações. É o zeitgeist da nossa Era.

Aqui, se continuar assim, será sempre o berço da inquietação.

E por que alguém de marketing e comunicação deveria vir aqui? Simples, porque só aqui esse alguém, você, terá o maior banho de contemporaneidade a disposição no Planeta hoje, tudo num só local. E tudo, absolutamente tudo, que acontece aqui, afeta sua profissão, seus negócios, suas marcas. E por aí afora.

Longa vida a todos os eventos que nos inspiram.

Longa vida ao SXSW!

 

 

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