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Marcelo Gleiser: “Eva era um micróbio”.

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Marcelo Gleiser: “Eva era um micróbio”.

No evento Connecting Leaders, do IAB, o físico e astrônomo reitera seus fundamentos e, para ProXXIma, afirma: "A ideia de que a inteligência artificial pode vir a ser nossa “última invenção” é algo que deve sim ser levado muito a sério. Existe todo um movimento em torno disso, o transhumanismo, que afirma que nosso destino é virarmos ciborgues."

28 de novembro de 2019 - 9h35

Falando aos convidados do evento Connecting Leaders, do IAB Brasil, o mundialmente conceituado (e premiado) astrônomo, físico e pensador Marcelo Gleiser, que consegue aliar religião e espiritualidade ao mundo da ciência, reiterou seus pontos de pensamento, deixando claro que razão e fé podem conviver harmonicamente.

Aqui, um Q&A em que respondeu algumas das perguntas que fiz a ele, com apoio do IAB, dias antes do evento:

Eva era um micróbio?

Sim, nós dividimos com todas as espécie vivas, animais e vegetais, um ancestral em comum, conhecido como Último Ancestral Universal Comum (do inglês LUCA = last universal common ancestor), um ser unicelular que viveu em torno de dois bilhões de anos atrás. Portanto, se pensarmos em termos de descendência, a mãe de toda a vida na Terra, de certa forma, nossa Eva, foi um micróbio! Para mim, esta é uma visão belíssima da unidade de todos os seres vivos no nosso planeta.

O Prêmio Templeton, que o senhor foi o primeiro latino-americano a ganhar, é um prêmio global para reconhecer e destacar estudos e personalidades que aliem o científico ao espiritual. O senhor pode falar um pouco mais sobre o prêmio e revelar aqui, resumidamente, a tese central da sua obra ?

O prêmio celebra o trabalho de pessoas que se dedicam, de formas diversas, a ampliar a espiritualidade humana. No Brasil, a mídia falou exclusivamente de líderes religiosos, como Mãe Teresa, Desmond Tutu e Dalai Uma, mas temos, também, vários cientistas e filósofos agraciados com o prêmio.  Nos meus livros e ensaios, construo uma visão da humanidade que é essencialmente unificadora; nós, seres humanos, somos criaturas curiosas e, ao mesmo tempo, com uma visão limitada da realidade. Queremos saber tudo, mas só enxergamos parte da história. Somos, portanto, cercados pelo Mistério, pelo não-saber. Muito da nossa criatividade vem justamente dessa tensão, inclusive a ciência, que é um flerte com o desconhecido. Dessa forma, a ciência contribui de forma essencial para o questionamento existencial humano, o que chamo de tripé existencial, ciência-filosofia-religião, as três engajadas de forma complementar em abordar o mistério que somos.

Quais as evidências científicas de que Deus existe? Porque o homem precisa do mistério?

A ciência não pode comprovar ou refutar a existência de Deus, não é esta a sua missão. A ciência tem como propósito descrever, da melhor forma possível, com o mundo funciona de forma a permitir que possamos usar suas descobertas para aliviar o sofrimento humano. Os que dizem que a ciência matou Deus, não sabem do que falam. Como disse acima, a ciência contribui para o saber mas, ao mesmo tempo, demonstra a existência desse Mistério todo que nos cerca, o que não sabemos do mundo e de nós mesmos. Nós, humanos, somos seres paradoxais, pois temos consciência da passagem do tempo, da nossa mortalidade. A nossa necessidade do mistério vem muito disso, do mistério que é viver e morrer.

Há algumas teorias, aparentemente não muito bem fundamentadas, mas que acabam ganhando adeptos no mundo conectado, de que a tecnologia é uma nova religião e que a Inteligência Artificial no futuro, será o homem feito máquina e homem seu próprio deus. O que o senhor acha disso?

Na verdade, a ideia de que a inteligência artificial pode vir a ser nossa “última invenção” é algo que deve sim ser levado muito a sério. Existe todo um movimento em torno disso, o transhumanismo, que afirma que nosso destino é virarmos ciborgues, híbridos máquina-homem, reinventando a nossa espécie. Estamos já nesse barco, com nossa relação intima e cada vez mais essencial com os celulares e outras tecnologias digitais, e a revolução da engenharia genética, que está apenas começando. Os mais radicais, acreditam (e aqui sim, diria que temos uma espécie de religião) que eventualmente seremos apenas informação, sem um corpo, e que poderemos nos transferir de computador em computador, atingindo uma espécie de imortalidade digital. Esse cenário é sim de ficção científica, mas mostra nosso desejo de sermos apenas espírito, usando ideias da tecnologia de ponta da nossa época, o Frankenstein do século 21. É a Ressureição dos nérds!

O senhor escreve para a mídia e participou de uma série no Fantástico. Isso está bem longe da atuação tradicional de pesquisa e da academia e sabemos que o senhor detesta estrelismo. Qual a utilidade que o senhor vê na simplificação dessa tão complexa busca pelos significados para as pessoas comuns? Isso muda algo?

Acho essencial que cientistas, ao menos alguns deles/as, sejam intelectuais públicos, engajados em disseminar a ciência de ponta e seu seríssimo impacto social e cultural. Afinal, nossas vidas são cada vez mais dependentes dos avanços científicos, e precisamos nos preparar como cidadãos para saber as escolhas que devemos fazer no futuro. Por exemplo, questões como inteligência artificial e seus usos, engenharia genética e seus usos, essas são tecnologias que estão mudando o mundo. Se a população não souber do que se trata, como poderá fazer escolhas pessoais e comunitárias sobre os usos e abusos dessas tecnologias? Fora isso, tem todo o aspecto da ciência como expressão do nosso questionamento existencial mais profundo, que mencionamos acima.

No fórum do IAb, tecnologia e o mundo digital são os grandes pilares. Esse novo mundo deteriora ou estimula a busca da espiritualidade e a busca da Deus?

Essa é uma pergunta complexa. De certa forma, com o avanço da ciência existe a percepção de que nos distanciamos da espiritualidade e de Deus. Acho que devemos separar espiritualidade e Deus, pois não são a mesma coisa. Espiritualidade é uma atitude com relação ao mistério que nos cerca, que pode ou não estar ligada a uma determinada crença religiosa. Vejo-a como mais fundamental do que a religião. Portanto, se a ciência pode nos afastar de uma crença num Deus mais tradicional, ela não necessariamente nos afasta da espiritualidade. Sempre haverão mistérios, alguns até propiciados pela existência de novas tecnologias-por exemplo, descobertas sobre buracos negros e a aceleração da expansão do universo, ou a natureza do consciente humano e a origem da vida. O que tenho proposto atualmente é que nossas descobertas de ponta em astronomia estão nos levando a entender a raridade da Terra e da vida nela, e nós como a consciência cósmica. Essa visão, que chamo de Humanocentrismo, proporcionada pela ciência moderna, é, para mim, profundamente espiritual.

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