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O papel vital (literalmente, neste caso) do jornalismo na pandemia global do coronavirus.

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O papel vital (literalmente, neste caso) do jornalismo na pandemia global do coronavirus.

Em momentos de crise como o que vivemos, sem jornalismo e sem os jornalistas profissionalmente comprometidos com a verdade, nos contaminaremos com a informação enviesada, a infecção fake e, no caso do coronavirus, letal para todos.

17 de março de 2020 - 7h17

O jornalismo sério e competente é um dos pilares da República moderna e das democracias contemporâneas.

Sociedades complexas nas quais nos transformamos, carecem de informação tecnicamente escrutinada e análises consistentemente sustentadas. De preferência, com argumentos igualmente técnicos, idealmente isentos.

Sem jornalismo, a democracia desaba e viveremos todos cegos de dados e notícias sobre a realidade a nossa volta. À mercê de versões enviesadas e a serviço de causas e bandeiras as mais diversas. Contaminados pelo fake e pelo vírus do obscurantismo como prática.

Há viés mesmo no jornalismo comprometido com a verdade, dos grandes publishers? Sim, há.

A objetividade é um mito, como tive oportunidade de defender na minha tese de conclusão do curso de jornalismo na FAAP, há mais de 40 anos.

Não acredito na objetividade jornalística como se ela fosse a alma indiscutivelmente inalienável da imprensa, bastando para a imprensa ser imprensa, para ser objetiva. Tipo, instituição ungida pelos deuses e boas.

Nicas.

Na tal tese, começo o calhamaço que escrevi com uma folha em branco, explicando a minha banca julgadora que aquela não era uma folha de rosto esteticamente ali colocada, mas a página mais importante de todo o trabalho.

Todo jornalista e toda empresa jornalística amanhecem a cada dia com uma folha em branco diante de si. E toda escolha feita a partir dai para preenchê-la – de resto, a essência própria do trabalho da imprensa – implica numa escolha. E aí, dançamos.

Toda escolha é um viés. Uma opção. Que inclui e exclui as alternativas que a profissão, e a vida, nos impõem.

O genial semiólogo francês Roland Barthes, que na época eu nem conhecia, mas que viria a ser, exatamente nos anos da faculdade, disparado meu maior ídolo nas lições de língua, linguagens e narrativas, diria que esse momento, o da escolha primeira e original de todo autor diante do que escreve – que é o que fazemos todos nós, jornalistas, desde sempre – é, inevitavelmente, uma escolha política.

Não vou entrar nesse viés aqui, meu ponto é que essa escolha – isso dizia eu na minha tese – é, assim, a armadilha de morte da objetividade.

A objetividade e a isenção serão sempre grandes metas a serem incansavelmente conquistadas por profissionais e órgãos da imprensa. Mas nem sempre isso, na real, acontece.

Jamais deixarei, no entanto, e apesar de tudo isso – ou exatamente por tudo isso – de acreditar no papel do jornalismo como ferramenta e método de investigação e difusão de fatos inalienavelmente relevantes para a construção de uma sociedade democraticamente informada.

Informação precisa como dever e missão profissional do jornalista.

No presente momento, altamente preocupante da pandemia global do coronavirus, tenho visto com frequência críticas, vindas tanto do poder estabelecido como da população em geral, ao que a imprensa e os jornalistas estão fazendo, no que tange a cobertura dos fatos e informações transmitidas a população sobre a doença.

Há equívocos? Sem dúvida. Exageros? Sim. No mínimo, porque há também incertezas mesmo nos mais competentes e qualificados centros de estudo e pesquisa científica em todo o mundo, em relação aos mais variados aspectos da doença.

Isso de forma alguma empana o que tem sido, em minha opinião, uma vez mais em momentos de crise, o inestimável trabalho da imprensa e dos jornalistas comprometidos de fato com a verdade e a vital (literalmente, neste caso) prestação de serviços e da informação a sociedade.

Vamos buscar os dados da realidade onde? Nas redes sociais? Meus sais, por favor.

Exatamente sobre esse tema escreveu o editor da Wired, Nicholas Thompson, no lançamento de um projeto especial de cobertura do Covid-19, que começa a ser executado por sua publicação: The job of a journalist is to keep the public informed. At its best, our profession helps to shine lights where light isn’t being shined and help people make the billions of little decisions that flap the butterfly wings that govern our world. That always matters, but it’s hard to think of a moment in my lifetime where it has mattered more than right now.

As folhas em branco dessa história trágica precisam ser escritas por quem tem a missão de ajudar a escrevê-las.

Esse é o papel do jornalista, dos jornalistas e dos órgãos de imprensa.

Papel essencial para combater a desinformação e o vírus.

E consolidar as democracias.

 

 

 

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