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O que faremos com o futuro que criamos e já está prontinho para usar?

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O que faremos com o futuro que criamos e já está prontinho para usar?

A tecnologia não é uma ilha de conhecimento apartada do corpo social em que foi gerada. Ao contrário, ela é filha dileta e direta dele. E será nele que ocorrerá e se materializará

30 de março de 2021 - 13h55

(Crédito: Andrii Shchuka/ iStock)

Usar e abusar, provavelmente.

Explico minha lógica, possivelmente ilógica, aqui.

Há, fundamentalmente, cinco linhas tecnológicas de futuro já previamente decodificadas e prontinhas da silva para serem usadas por nós. São elas: biotecnologia, computação quântica, 5G, as realidades imersivas e a pervasiva Inteligência Artificial.

Dá para alongar essa lista? Dá. Eu diria infinitamente. Mas, certamente, a maior parte do que se conseguiria acrescentar seria ou decorrente ou interdependente dessas cinco principais, os backbones do nosso futuro.

Nenhuma delas é exatamente algo que descobrimos agora. São, todas elas, futuros já previamente desenhados ao longo das últimas décadas. Nada de novo. E assim, como não se cansa de dizer meu oráculo quando se fala de futuro, a Amy Webb: nosso futuro já está dado no presente, basta olharmos direitinho e descobrir como ele já está lá. Não é à toa que ela chamou sua empresa de consultoria de Future Today Institute. Sua filosofia está já no nome, na porta de entrada da sua companhia.

Isso acontece assim, como ela nos ensina, porque não existe o tal momento Eureka. Pelo menos não nos termos que costumamos mitologilizar que ele existe. Ou seja, do nada, um cientista maluco brilhante tem uma ideia que muda a história da humanidade. Não rola.

Ninguém tem ideias do nada, assim como nós, seres humanos, não nascemos de chocadeira. Somos fruto do continuum do tempo e de cada avanço que historicamente vamos conquistando e construindo. Nosso futuro é um Lego. As peças estão dadas. Resta saber o que vamos montar com elas.

Assim, as cinco linhas que citei acima já estão na mesa. E vamos fazer o que com elas?

Essa questão foi bastante bem colocada no último e remoto SXSW, sendo esse um dos sete temas-base da grade que o evento nos propôs para que refletíssemos sobre ela.

Pegando aleatoriamente aqui uns exemplinhos. Biotecnologia. Podemos hoje manipular o genoma como quisermos e usar isso para curar doenças incuráveis ou para criar um exército de autômatos de Hitler. Fácil assim.

As realidades imersivas podem ser usadas para otimizar nossa relação com a realidade concreta ou podem ser usadas para a criação de mundos paralelos falsos e dominadores.

O 5G pode ser usado para incrementar a Internet das Coisas e nos colocar à disposição um sem fim de vantagens da conectividade avançada que ele contém, mas pode ser também ser usado para otimizar a vigilância do Estado sobre seus cidadãos.

A Inteligência Artificial, por estar hoje na base de todas as demais linhas tecnológicas que citei. Pode, da mesma forma, ser utilizada para coisas legais ou coisas literalmente terríveis para a humanidade.

A gente evolui, faz avanços, cria conquistas maravilhosas, mas voltamos sempre à questão do Homem Moral. A tecnologia não é uma ilha de conhecimento apartada do corpo social em que foi gerada. Ao contrário, ela é filha dileta e direta dele. E será nele que ocorrerá e se materializará. O quanto de Moral e que tipo de Moral que vamos embedar nessas tecnologias todas é que é, hoje, o maior xis da questão.

Esse nosso futuro ready made não é um brinquedo, apesar da minha analogia com o Lego. Ele é hoje a questão mais vital da nossa própria sobrevivência como espécie e o planeta, como planeta. Essas cinco linhas tecnológicas têm como apoiar e promover a solução da maior parte dos problemas que enfrentamos hoje como Homo sapiens, neste aparente beco sem saída em que nos colocamos. Está tudo dado. Pode rolar, sim, a melhoria exponencial de nossa vida em sociedade, em todos os aspectos que podemos imaginar. Deixou de ser uma questão de limites do conhecimento. Ultrapassamos já esse ponto faz anos. Trata-se apenas, agora, de evoluir o que já sabemos. Para o bem ou para o mal.

Tecnologia deixa, assim, e radicalmente, de ser uma discussão de centros acadêmicos e dos laboratórios das grandes companhias e países em que esses avanços estão já sendo construídos, para se tornar uma questão sócio-política coletiva, que deve ser discutida franca e abertamente por todos. Leigos ou não.

Tenho, há anos, esta coluna aqui no M&M, que na edição semanal é chamada de Red Bottom. É uma referência à Guerra Fria, tempo em que vivemos sob a égide da urgência iminente de uma guerra atômica entre EUA e URSS, que poderia ser detonada pelo simples apertar de um botão, o botão que acionaria impiedosamente as ogivas. O botão vermelho.

Adotei este título porque, se não explodimos todos, por muito pouco, naquela época, sigo entendendo que estes são tempos de urgência. Muitos botões vermelhos, em verdade, estão sendo apertados hoje em todo o planeta, em uma série de âmbitos da natureza humana e da vida em sociedade, redimensionando nosso senso de urgência. Vivemos tempos em que urgência virou emergência.

E assim, volto à pergunta original: O que faremos com o futuro que criamos e já está prontinho para usar?

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