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Inteligência artificial e relações humanas dão o tom do Web Summit 2017

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Inteligência artificial e relações humanas dão o tom do Web Summit 2017

Ficou claro que, nas próximas décadas, a inteligência artificial formará a base estrutural da nossa sociedade, onde não só as coisas estarão conectadas à internet, mas também nós, seres humanos, faremos parte deste ecossistema.

Pyr Marcondes
16 de novembro de 2017 - 9h06

 

Por Paulo Martinez (*)

Estive em Lisboa para o Web Summit, um dos maiores eventos de inovação, tecnologia e empreendedorismo do mundo. Foram cerca de 60 mil participantes de 170 países, sendo 1.200 palestrantes que se espalharam em 4 pavilhões e 1 arena principal durante 4 dias.

Na noite de abertura, uma surpresa: o cientista Stephen Hawking – umas das mentes mais brilhantes da nossa era – tomou o palco principal, em vídeo, com algumas colocações importantes:

“Nós não conseguimos prever o que podemos alcançar quando as nossas mentes são ampliadas pela inteligência artificial. Talvez com as ferramentas desta nova revolução tecnológica nós consigamos corrigir alguns dos danos causados ao mundo pela industrialização. Nós vamos finalmente erradicar doenças e a pobreza. Todos os aspectos da nossa vida mudarão”.

E assim, explorando o olhar da tecnologia x ética, seguiu: “Eu sou um otimista e acredito que podemos criar inteligência artificial para o bem do mundo e que ela pode funcionar em harmonia conosco”. Temos então uma grande lição de casa a fazer para que possamos atingir o nosso potencial e criar um mundo melhor para toda a raça humana. Hawking concluiu que “a inteligência artificial pode ser o melhor ou o pior acontecimento para a humanidade”.

Assim se iniciou o evento, invadido por temas relacionados, ora de forma direta ora indireta, a um mundo não tão distante, sustentado por inteligência artificial e machine learning.

A seguir algumas das principais tendências que pude acompanhar neste Web Summit 2017:

Realidade Virtual vai se tornar parte do dia-a-dia das pessoas

Amit Singh, chefe do Google VR, falou sobre como a realidade virtual vai ganhar cada vez mais adeptos, em um mercado trilionário. Apontou como principais usos as experiências de vídeos imersivos onde se pode conhecer qualquer lugar do mundo; além de experiências de entretenimento como em eventos de educação, shows e esportes.

Também comentou como a realidade aumentada pode ganhar escala exponencial de usuários com a melhoria do hardware em smartphones Android. “É algo para estar em todos os smartphones Android nos próximos dois anos”, comentou.

Existe um layer cibernético nas guerras e conflitos do nosso planeta, que não pode ser ignorado

Jared Cohen, CEO da Jigsaw (empresa de cyber segurança da Alphabet), falou sobre como se dão as cyber guerras e como fazer para preveni-las. Em uma pauta bem atual, Cohen diz, por exemplo, que as fake news tornaram-se uma forma moderna de cyber guerra, utilizadas para vários propósitos.

A maior proporção de dispositivos conectados e a melhora significativa na velocidade de conexão tornam o cenário perfeito para investidas maléficas. O executivo destacou que a internet é um único sistema internacional, o que torna os desafios ainda maiores. Acredita que no futuro todas as guerras vão começar digitalmente, começando pelo hacking de infraestruturas. “Como a sociedade irá manter a estabilidade dos Estados se a estabilidade digital cair?”, indaga.

Cohen reforça que os governos não estão preparados para responder ou regular investidas de ataques cibernéticos, onde não há medidas regulatórias e há várias nações envolvidas. Para prevenir a próxima “grande guerra”, sugere que governos e sociedade devem se envolver, em campanhas de cyber higiene, educando as pessoas a se protegerem melhor, além de promoverem campanhas de conteúdo e publicidade informativa para evitar que jovens se associem a causas extremistas.

Temos tempo de pensar e construir a nova sociedade, mas devemos começar desde já

Max Tegmark, físico e pesquisador do MIT, autor do livro Life 3.0, iniciou a sua apresentação em um tom mais otimista, mostrando diversos exemplos de como a tecnologia pode realizar tarefas de forma mais rápida e inteligente que nós humanos, mas evidenciando que há espaço para controle dos riscos, com foco no bem que a tecnologia pode trazer por décadas e séculos a seguir. Para tanto, apresentou o Future Life Institute e seus 23 princípios, e resumiu 4 principais iniciativas que considera fundamental nesta jornada de longo prazo: (1) Banir armas letais automáticas (como as abelhas drone de black mirror), (2) garantir que a riqueza gerada por inteligência artificial contribua para um mundo melhor, (3) investir em pesquisa sobre segurança em inteligência artificial e, (4) pensar e planejar o tipo de futuro que queremos.

Comunicadores demonstram fé na humanização e apostam todas as fichas na criatividade, nas relações e em bons conteúdos

O Web Summit teve também uma pauta extensa sobre publicidade, marketing digital e conteúdo.

Pude acompanhar algumas destas sessões com publicitários e profissionais da área do marketing renomados como Bob Greenberg (R/GA), John Hegarty (BBH), Susan Credle (FCB), Nick Law (R/GA), Lars Silberbauer (Lego) e Phil Gilbert (IBM). Todos foram categóricos no resgate das relações humanas como elemento fundamental para o futuro, independente da evolução tecnológica. Acreditam que relações e criatividade continuarão a fazer parte dos mercados de trabalho e também da cultura social.

Na esfera dos publishers, a crítica ao monopólio de Google e Facebook foi contundente. Representantes de veículos como CNN, The Guardian e The Times expuseram preocupação com a distribuição digital dominada pelos dois players e seus algoritmos obscuros, além de assumirem que precisam pensar em novos modelos de negócios que não dependam somente de publicidade. Muito se falou na criação de um modelo de assinatura universal, uma espécie de Spotify das notícias. Também foi consenso entre todos que o conteúdo está comoditizado e que para as pessoas pagarem por conteúdo precisam de algo original, um olhar diferenciado e entregue com uma experiência superior, ad free. Meredith Artley, editora chefe da CNN Digital resumiu: “We must break the news instead of focus on breaking news”.

Copo meio vazio ou copo meio cheio. De que lado você está?

Ficou claro que, nas próximas décadas, a inteligência artificial formará a base estrutural da nossa sociedade, onde não só as coisas estarão conectadas à internet, mas também nós, seres humanos, faremos parte deste ecossistema, com implantes feitos diretamente em nossos corpos, além de novas tecnologias que nos permitirão viver mais de 100 anos. Talvez as viagens à Lua ou a Marte para exploração e turismo se tornem corriqueiras.

E sim, muitos empregos serão extintos. Contudo, inúmeros serão criados. A figura de empregado x empregador também foi muito debatida, vamos viver a era dos “eupreendedores”. O trabalho que será feito por máquinas dará espaço ao trabalho intelectual e criativo. Há a oportunidade de termos mais tempo e qualidade de vida para criar uma sociedade ainda melhor.

O Web Summit deste ano teve o cuidado de trazer discussões humanas e questões sociais em contraponto com as sessões puramente tecnológicas. Houve a presença contundente de líderes de estado juntando-se aos jornalistas e tecnólogos.

Com certeza há de se ter cuidado com o uso que faremos das novas tecnologias, mas não podemos perder a esperança em criar uma sociedade melhor, usufruindo de todos os recursos que teremos a disposição. Estou com o professor Stephen Hawking: também sou um otimista.

(*) Paulo Martinez é COO na Agência Ginga.

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