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Chega de fetiche pelo futuro!

Se hoje temos a Indústria 4.0, foi porque passamos pela 1.0, 2.0 e 3.0, sempre evoluindo e transformando para, enfim, poder dizer que inovamos.

Nagib Nassif Filho
21 de março de 2019 - 8h31

Por Nagib Nassif Filho (*)

Há no meio corporativo um certo fetiche pelo futuro. A universalização do acesso à tecnologia faz com que executivos, profissionais de marketing e consultores se lancem numa busca desesperada pela próxima novidade. Antecipar tendências, gerar inovação ou liderar transformações passaram a ser indicadores de sucesso nas organizações. Palestras, artigos, estudos e eventos celebram essa “futurofilia” como comportamento fundamental e desejável para quem pretende prosperar no século XXI. Mirando o horizonte à frente, buscam prever, antes dos concorrentes, quando a nova grande onda vai surgir e onde ela vai quebrar. Estão olhando na direção errada.

O futuro não é uma abstração a ser imaginada por mentes privilegiadas. Não somos capazes de enxergar a grande onda no horizonte porque ela não está lá. Está aqui, agora. É mais difícil perceber a transformação quando ela está acontecendo e os observadores são também seus protagonistas. Por mais paradoxal que pareça, para ver o futuro, precisamos olhar para o passado. As mudanças que experimentamos hoje são apenas versões atualizadas do que aconteceu em décadas passadas. Historicamente, demos saltos qualitativos graças à evolução de coisas já existentes. Não há geração espontânea de inovação: ela é consequência muito mais de transformações do que de invenções. O futuro nada mais é do que a reinvenção do passado.

Do mainframe computing da década de 1960 para o personal computing dos anos 1980 o que mudou, basicamente, foi o custo dos componentes. A onda seguinte, da web computing dos anos 2000, surgiu com o modem que, grosso modo, nada mais é do que um telefone que conecta computadores. O mesmo vale para a evolução ao mobile computing da década de 2010, que foi uma adaptação dos computadores para o formato de telefones. Ou seja, o que muitas vezes chamamos de revolução, são na verdade evoluções e adaptações de conceitos e ideias que já circulavam entre nós há muito tempo. Para entender o que vem pela frente, precisamos conhecer o passado e, principalmente, prestar atenção no presente.

Assim, o que daqui a uns anos vamos chamar de novidade, já está acontecendo. E, mais uma vez, graças às mesmas pré-condições que fomentaram as transformações anteriores: conhecimento, ferramentas e colaboração. Esse tripé sustentou todas as chamadas revoluções industriais até aqui, das máquinas a vapor à inteligência artificial, passando pela automação e robótica. Se hoje temos a Indústria 4.0, foi porque passamos pela 1.0, 2.0 e 3.0, sempre evoluindo e transformando para, enfim, poder dizer que inovamos.

Nesse ritmo, chegamos hoje ao que se convencionou chamar de “smart era”, ou época inteligente em tradução livre. Temos smartphones, smart TVs, smart watches, smart cars… Todos eles evoluções de suas versões, digamos, não-inteligentes. O que define o momento atual é a busca pela convergência entre o mundo físico e o digital. Estamos agregando conexão onde havia isolamento. Nossas geladeiras já se conectam à internet e em breve se abastecerão sozinhas. Nossos carros não precisam de motoristas e nossos relógios nos informam não apenas as horas, mas também dizem que podemos ficar doentes em breve e devemos controlar a alimentação.

Conceitos como IoT (internet of things, ou internet das coisas), big data, wearables, cloud computing e impressão 3D fazem parte do presente criado com base nas premissas do passado. Conhecimento, ferramentas e colaboração continuam sendo os motores do desenvolvimento. O movimento Maker, que reúne adeptos no mundo inteiro, talvez seja o exemplo mais eloquente dessa lógica. São milhares de pessoas gerando e absorvendo conhecimento, compartilhando ferramentas, cada vez mais baratas e acessíveis, e colaborando entre si para encontrar soluções que conectam o mundo virtual ao físico.

Tudo isso para melhorar a nossa relação com o planeta, com os demais seres humanos e, por que não, com as próprias máquinas. Existe algo mais tradicional e antigo do que a busca do homem pelo bem-estar? Nossos desejos fundamentais se mantêm praticamente inalterados após séculos de história. As ferramentas podem ter evoluído, mas o caminho da inovação permanece o mesmo. A boa notícia é que a revolução já está acontecendo. A ótima é que ela está ao alcance de cada vez mais pessoas.

(*) Nagib Nassif Filho é empresário, fundador e diretor executivo da Bolha

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