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Automação e trabalhismo: você não é o que você faz

Neste artigo, o consultor Herman Bessler faz uma pergunta incômoda: como, neste novo momento de recessão, lidaremos com a informalidade e o desemprego crescente?

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9 de abril de 2020 - 7h17

 

Por Herman Bessler (*)

Em 2019, 41% dos brasileiros ocupados trabalharam na informalidade. Essa categoria inclui tanto aqueles registrados em MEI e afins quanto os que trabalham com aplicativos de serviços, como entrega ou carona. Concomitante à automação, a uberização do emprego (economia do bico) é uma das principais tendências para o nosso futuro coletivo. Conforme adentramos este novo momento de recessão, nos deparamos com uma questão inevitável: como lidar com o imperativo da informalidade e do desemprego crescente em uma sociedade que enxerga na instituição do trabalho o principal construtor da sua identidade?

O advento do trabalhismo

Desde a segunda revolução industrial, o trabalho se tornou o maior ocupante do nosso tempo acordado. Ainda assim, nessa época havia uma divisão rígida entre as horas de trabalho e as horas de lazer. É nesse contexto que autores como John Maynard Keynes previam que, quando chegássemos ao século 21, poderíamos ter uma semana de trabalho de apenas 15 horas, conforme o avanço da tecnologia gerasse produtividade e, portanto, menos necessidade de horas em empregos. Em um famoso ensaio chamado “Economic Possibilities for Our Grandchildren”, Keynes afirmou que pela primeira vez o homem seria confrontado com o seu grande e permanente problema: como ocupar seu tempo de ócio.

Avance para os dias de hoje e se torna fácil perceber que aconteceu o inverso: o tempo de lazer foi ocupado pelo trabalho – remunerado ou não. Como é marcante da contemporaneidade, as barreiras entre a vida pessoal e profissional se diluíram. Em abril de 2018, por exemplo, Jeff Bezos recomendava aos trabalhadores da Amazon que parassem de buscar equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, já que isso implicava um trade-off entre ambos. Em vez disso, Bezos sugeriu uma visão holística, que unisse a vida fora e dentro do escritório.

Mas essa integração, bem como a cultura do empreendedorismo característica do Vale do Silício, são apenas duas das peças do nosso momento histórico. Em essência, mudou a forma como nos entendemos enquanto sujeitos trabalhadores. Derek Thompson tem um nome para esse fenômeno: trabalhismo (do inglês “workism”). Para ele, a crença de que o trabalho não é apenas necessário para a economia, como também peça central da identidade e dos propósitos individuais, se tornou mais generalizada. Na política, o workismo se traduziu na crença de que qualquer iniciativa que deseje promover o bem-estar humano deve sempre incentivar o trabalho e a produtividade. Nessa sociedade, até mesmo o ócio passou a ser encarado como produtivo. O trabalhismo é o nome que damos para a adoração do trabalho, onde para muitos o emprego se torna uma religião dogmática.

Trabalhismo em um mundo de automação difusa

Enquanto a valorização moral do trabalho cresceu, mais e mais atividades foram suplantadas pela automação. Com isso, pesquisadores e formuladores de políticas públicas começaram a se deparar com a possibilidade real do desemprego em massa. Hoje, não há consenso. Alguns temem pela diminuição massiva de postos de trabalho e a crescente desigualdade. Já outros comemoram o aumento da produtividade e novas fronteiras para a inovação e para investimentos. Cada vez mais debates aquecidos emergem sobre a possibilidade – e necessidade – de regulação sobre automação que seja socialmente responsável. Dessas perspectivas conflitantes podemos tirar uma certeza: a automação impactará regiões do mundo e classes sociais de maneira desigual.

Um estudo do MIT Media Lab indica que cidades com menos habitantes e complexidade econômica são menos resilientes à automação. Para os autores, cidades maiores têm um número também maior de empregos para pessoas que realizam tarefas cognitivas e analíticas (menos passíveis de automação). Enquanto isso, cidades menores têm uma quantidade desproporcional de trabalho administrativo de rotina, como caixas e serviços de alimentação (mais suscetíveis à automação). Em outras palavras: diversidade gera resiliência.

No contexto econômico das regiões menos desenvolvidas, esses desempregados vão perder mais do que o seu trabalho. Perderão suas identidades, suas fontes de utilidade e de realização pessoal. Aplicativos da economia de bicos (gig economy), como Uber e Rappi, tenderão a ser uma alternativa comum para a geração de renda individual. Mas e a posição social e as narrativas identitárias individuais?

Identidade, trabalho e automação

Em agosto de 2019, a Microsoft do Japão implementou uma semana de trabalho de apenas quatro dias e viu a produtividade da organização crescer 40% , além de seus custos com eletricidade diminuírem 23%. No Brasil, uma empresa que implementou estratégia semelhante foi a Zee.Dog, que liberou todas as equipes de qualquer tipo de trabalho nas Quartas.

A ideia é incentivar que as pessoas usem as quartas para descansar ou resolver pendências pessoais e, com isso, aumentar a produtividade dos dias seguintes. A expectativa é de ganho de 20% na produtividade do trabalho. Diferentemente da Amazon de Bezos, a premissa aqui é exatamente o respeito ao work-life balance. Os experimentos de Microsoft, Zee.Dog e muitas outras empresas mantém viva a promessa de diminuição da carga horária como reflexo dos ganhos de produtividade, defendida por Keynes no século passado. Mas ainda são exceção à regra.

Apesar das múltiplas evidências de que o trabalho flexível e remoto geram aumento de produtividade, de renda e de empregos para a economia, a prática ainda é – historicamente – pouco adotada em grandes organizações, especialmente no Brasil. A Covid-19 acelerou sua adoção, é claro, mas de maneira pouco ou nada estruturada.

Caberá aos empreendedores e altos executivos nos próximos anos a tarefa de transformar a cultura das suas organizações. E aos governos caberá criar estímulos que permitam fazê-lo com menor risco. Aos trabalhadores, resta diferenciar-se das máquinas a partir da prática de atividades essencialmente humanas, como o pensamento estratégico e a resolução de problemas complexos de forma colaborativa, além da busca por novas identidades fora do trabalho de nove às seis.

Nesse sentido, política, esportes, atividades espirituais e centros comunitários sociais devem crescer em adesão de forma acelerada nas próximas décadas. Quem sabe assim deixaremos o trabalhismo no século passado?

(*) Herman Bessler é fundador da Templo.cc, rede de inovação focada na transformação das organizações, das pessoas e da sociedade por meio do uso de tecnologias digitais, sociais e culturais.

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