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Como as fintechs estão se preparando para o Open Banking?

O mais novo sistema financeiro chega para reduzir a barreira de entrada de novos clientes e dar às startups a missão de promover melhores experiências

Victória Navarro
12 de abril de 2021 - 6h00

O Open Banking, em vigência desde janeiro deste 2021, traz à tona novas opções de produtos e serviços financeiros. A plataforma, baseada em um conjunto de regras e tecnologias que permite o compartilhamento de dados e informações de clientes entre instituições financeiras por meio da integração de seus sistemas, é uma tentativa do Banco Central (BC) em ampliar a concorrência e reduzir os juros. As empresas só podem compartilhar dados de usuários que consentiram o uso de suas informações, em linha com a nova Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). No Brasil, está prevista a troca de dados cadastrais, usados para abrir uma conta em banco, como CPF e endereço; transacionais, como renda e faturamento; e sobre produtos e serviços que o cliente utiliza, como empréstimos pessoais e financiamentos.

 

O Open Banking está em vigência, no Brasil, desde janeiro deste 2021 (Crédito: Markus Spiske/Unsplash)

A vantagem do Open Banking é a redução da barreira de entrada de novos clientes, o que democratiza, por exemplo, a conquista de empréstimos. Se, por um lado, o consumidor ganha maior controle de seus dados e consegue facilidade em abrir conta e adquirir produtos e serviços, por outro, as empresas entram na corrida pela atenção, que coloca sobre as costas das instituições o objetivo de promover experiências melhores aos clientes.

Segundo Fabricio Sanfelice, CEO da fintech Mutual, o Open Banking irá proporcionar uma perda de valor em negócios que dependem, exclusivamente, de acesso à informação, como os birôs de crédito, uma vez que os dados estarão, cada vez mais, difusos e, facilmente, compartilháveis. “Isso posto, vejo duas outras situações: mudanças e criações de novos negócios”, diz. A fim de aproveitar os benefícios do novo sistema bancário, muitas fintechs irão adaptar seus produtos e serviços; e novos players serão criados, para atuarem na área de middle service, ou seja, de integração com bancos e financeiras, ou para oferecerem melhores taxas e descontos em dívidas de financiamentos.

Entretanto, o Open Banking exigirá educação financeira. “É preciso ensinar as pessoas que estão acostumadas a lidar apenas com o físico. As dimensões do Brasil e a grande diferença social fazem com que a experiência de pessoas de classe social mais alta seja completamente diferente daquele usuário de baixa renda que reside em locais menos centrais. O entendimento sobre o que é um banco digital, sua segurança, como o dinheiro fica em um banco digital e como são realizados os pagamentos, por meio dessas instituições, ainda é algo difícil para boa parte da população”, explica José Luiz Rodrigues, membro do conselho consultivo da ABFintechs (Associação Brasileira de Fintechs). E, esse cenário de dúvidas pode se intensificar quando mais inovações chegarem.

Inovação no centro
A tecnologia é uma das grandes protagonistas do Open Banking. “O conceito desse mais novo sistema veio para otimizar o uso da tecnologia empregada no mercado financeiro, de capitais e de seguros, que evoluiu exponencialmente após o surgimentos das fintechs e demais startups, por meio da padronização das conexões via APIs, a fim de facilitar a troca de informações e possibilitar a portabilidade e o acesso aos dados, com mais segurança e celeridade. Esse é apenas o começo da transformação. Em cinco anos, o sistema financeiro tal qual conhecemos hoje não existirá mais”, afirma José.

Porém, Marcos Túlio Ramos, CEO da EasyCrédito, explica que, além da inteligência artificial e do big data, o grande diferencial do Open Banking está nas oportunidades para cross-sell de informações externas aos bancos. “É possível realizar o cruzamento de dados do extrato bancário de um cliente com o seu comportamento em sites e aplicativos”, diz. Dessa forma, serão gerados importantes novos insights que poderão contribuir na maneira com que este cliente é visto pelo mercado e as empresas podem oferecer produtos e serviços mais assertivos com o perfil do consumidor.

O membro do conselho consultivo da ABFintechs, ressalta, entretanto, que o público só consome serviços tecnológicos, quando compreende seus benefícios. E, esse é o desafio das prestadoras de serviços financeiros, que precisam mostrar aos clientes como as tecnologias facilitam suas rotinas. “Assim, ao se tornarem indispensáveis aos olhos do consumidor, essas empresas farão o mercado crescer”, afirma.

De acordo com o profissional da Mutual, a tecnologia chave não é alguma linguagem nova ou algo extremamente inovador: “O que acredito que veremos é um melhor uso dos dados e das informações disponíveis. Os dados sempre existiram e sempre foram trabalhados pelas instituições financeiras. A questão é que, antes, as informações ficavam em posse da instituição financeira solicitante para uso exclusivo dela”. Para Fabricio, a inovação, no caso do sistema Open Banking, é a competição. Os bons clientes serão disputados pelas instituições financeiras, os melhores pagadores serão beneficiados de imediato e surgirão novas ofertas para quem tem problemas de crédito e precisa estar regularizado.

Fintechs e os novos negócios
As fintechs surgiram como alternativas mais acessíveis e menos burocráticas na prestação de serviços financeiros. Por isso, são ouvidas nas decisões regulatórias, em diálogo construído via comitês com todo o mercado. Tais medidas promovem maior transparência, correção de assimetrias de informações e estímulo à concorrência. Segundo o Distrito Dataminer, no Brasil, existem mais de 40 fintechs. Em 2020, essas startups receberam US$ 44,1 milhões em investimento. Entre essas startups, 25% são focadas em Open Banking as a Service.

De acordo acordo com o José, essas startups encontram oportunidades nos segmentos de crédito, meios de pagamento, câmbio, investimentos, seguros, comparadores de produtos e serviços financeiros, de serviços de aconselhamento financeiro, de gestão financeira e de iniciação de transação de pagamento em um ambiente mais familiar e conveniente para os consumidores.

Nesse contexto, o Open Banking visa permitir a integração de serviços financeiros às diferentes jornadas digitais dos clientes e reduzir a assimetria de informações entre os prestadores de serviços financeiros — fintechs e instituições tradicionais, “favorecendo assim o surgimento de novos modelos de negócios e de novas formas de relacionamento entre instituições e entre essas e seus clientes e parceiros”, explica o membro do conselho consultivo da ABFintechs.

Para Fabricio, da Mutual, as fintechs não terão dificuldades em aderir ao sistema Open Banking. Mas, ressalta que não existe uma maneira simples de solicitar para o cliente o compartilhamento dos dados: “É preciso ainda usar empresas de conexão de API para acessar os dados e essas empresas precisam do número de conta, agência e senha do acesso digital dos bancos”. Isso por si só é um empecilho para as fintechs, uma vez que é necessário que o cliente sinta confiança em compartilhar informações pessoais, mesmo sabendo que são criptografados. “Teremos a oportunidade de olhar o cliente de outra maneira, usar machine learning e inteligência artificial para entender melhor o comportamento e a vida da pessoa”, adiciona.

E, mesmo que, em um primeiro momento, diz Marcos, da EasyCrédito, a estrutura tecnológica do Open Banking privilegie somente as grandes instituições financeiras, “surgirão plataformas especializadas que facilitarão a adoção do sistema pelas startups e empresas de outros segmentos”.

Um passo à frente
Nos últimos anos, as fintechs vêm desenvolvendo novos modelos de negócio a serem operacionalizados especialmente em ambiente de Open Banking. “Elas estão, sempre, um passo à frente dos órgãos reguladores para incentivar ainda mais a criatividade e desenvolvimento de novos produtos e serviços” afirma José.

As startups, por exemplo, ajudaram na regulamentação do Sandbox Regulatório, uma iniciativa que permite que instituições já autorizadas e ainda não autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil possam testar projetos inovadores — produtos ou serviços experimentais — com clientes reais, sujeitos a requisitos regulatórios específicos. “Vemos que órgãos como Banco Central e CVM (Comissão de Valores Mobiliários) estão abertos para o diálogo, focando na segurança das operações e na abertura de mercado. Estão também atentos aos modelos regulatórios internacionais”, complementa.

*Crédito da foto no topo: Skitterphoto/Pexels

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