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Por que o mercado de venture capital avançou no Brasil?

Sócio da gestora de investimentos em venture capital Astella, Daniel Chalfon indica os fatores que tem impulsionado o crescimento da modalidade no Brasil

Taís Farias
15 de abril de 2021 - 6h00

Daniel Chalfon, sócio da Astella (Crédito: Divulgação)

Venture capital, ou capital de risco, é uma modalidade financeira em que um ou mais investidores se unem em um fundo para selecionar e apoiar startups e negócios emergentes. Depois de auxiliar impulsionando essas empresas iniciantes com capital, os fundos de venture capital lucram com o seu desenvolvimento. Esse aporte pode acontecer em vários momentos do negócio. O investimento seed, por exemplo, auxilia startups que ainda estão no papel e querem dar início às suas operações. Já as aceleradoras auxiliam empresas que já estão estabelecidas, mas querem melhorar seu desempenho. Esse formato tem ganhado cada vez mais popularidade. Segundo dados do Crunchbase, o volume de investimento VC aumentou quase 10 vezes no Brasil, desde 2013. Daniel Chalfon, sócio da Astella, gestora de investimentos em venture capital, traça um panorama do setor no Brasil e destaca os pontos que tem gerado tanto crescimento.

Meio & Mensagem – Atualmente, como você avalia o mercado de venture capital brasileiro? Qual o estágio de maturidade? 

Daniel Chalfon – O mercado de venture capital no Brasil está no seu melhor momento até agora. A classe de ativos é relativamente nova no mercado, cerca de 10 ou 15 anos desde os primeiros fundos dedicados a VC tech.  De lá para cá, o ecossistema foi ficando cada vez mais completo e forte com a construção de instituições capazes de apoiar e financiar o empreendedor nas mais diversas etapas da jornada. Hoje, podemos dizer que o Brasil é um ecossistema completo de venture capital em todos os estágios e em grande crescimento. Apesar disso, ainda existe um potencial enorme a ser explorado. 

M&M – Nos últimos anos, a modalidade viveu uma expansão no Brasil. A que fatores podemos atribuir esse movimento?

Daniel Chalfon – São inúmeros fatores, mas podemos numerar os principais: 1) Um ecossistema completo foi formado. Desde a base com as aceleradoras, anjos e fundos pré-seed, os fundos Serie A e, agora, mais recentemente, os fundos late stage, tanto locais como internacionais que se instalaram aqui, além de grandes eventos de liquidez através de M&As ou aberturas de capital de empresas financiadas por fundos de venture capital. 2) Um interesse cada vez maior por parte dos jovens em empreender e trabalhar na área de tecnologia, ao invés de buscar carreiras corporativas. Além disso, o sucesso de empreendedores brasileiros serve de exemplo para essa nova geração. 3) Os empreendedores seriais, founders que já construíram grandes negócios e renovam suas apostas no mercado de tech brasileiro retornando e empreendendo em novos negócios, cada vez mais eficientes e velozes. 

É claro que o retorno também é fundamental. Somos, antes de mais nada, uma classe de ativos financeiros que disputa participação na carteira de investimentos dos investidores. Foi preciso um ciclo longo para se provar que essa modalidade pode trazer um retorno excepcional no Brasil para aqueles que aceitam o risco e abrem mão da liquidez. 

M&M – Por outro lado, quais são os principais entraves para o venture capital no País? Que obstáculos ainda precisam ser vencidos?

Daniel Chalfon – O Brasil ainda precisa crescer muito. Apesar de estarmos em um momento recorde, a representatividade do venture capital Brasileiro no PIB é 11 vezes menor do que a do norte-americano. É preciso criar uma cultura em que o venture capital é uma das soluções para problemas estruturais do país. O VC estimula a criação de valor, a geração de empregos, a qualificação dos profissionais e faz isso com um modelo de “shared propsperity”, onde cada vez mais pessoas são beneficiadas por essa enorme criação de valor. Também é preciso tornar a falha mais simples de ser transposta. Falhar no Brasil, o que no mundo dos negócios significa falir, é muito difícil e o processo é caro e demorado. Além disso, o empreendedor é muito penalizado. Falir não pode ser visto como um ato negativo. Precisamos tornar a capacidade dos bons empreendedores errarem e retornarem ao mercado fortalecidos pelos aprendizados do erro um processo mais fluido na sociedade, como um todo. Também precisamos dar mais visibilidade aos resultados da classe de ativos, para estimular uma participação maior do venture capital nas alocações dos investidores e educar o mercado para investir em ativos ilíquidos. Uma característica importante do venture capital em todo o mundo é o retorno concentrado. Historicamente, no mundo, 6% dos deals retornam 60% do capital. 

M&M – Quais são as principais habilidades e competências que um profissional precisa desenvolver para atuar nesse mercado?

 Daniel Chalfon – O Venture Capital é uma área ainda nova por aqui, a maioria dos profissionais é oriunda do mercado financeiro. Lá fora, existe um equilíbrio maior entre profissionais com background financeiro, ex-empreendedores e também venture capitals notórios com uma história diversificada. Por exemplo: o Michael Moritz, da Sequoia, que é o principal fundo de VC do mundo, era jornalista da revista Time. Precisa ter muita curiosidade, cabeça aberta, gosto por estudar e aprender, além de muita convicção na sua visão como investidor. A gente não sabe como será o futuro, mas precisamos saber quem são os empreendedores que vão construir esse futuro, e investir neles. 

*Crédito da foto no topo: Skitterphoto/Pexels

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