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Roger Spitz: futuro é educação, antecipação e preparação

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Roger Spitz: futuro é educação, antecipação e preparação

Futurista comenta os impactos da pandemia sobre as organizações e aponta caminhos para que a humanidade lide com eventos controversos

Giovana Oréfice
16 de julho de 2021 - 6h00

O mundo assiste a uma transformação pautada na tecnologia, o que vem moldando a maneira com a qual empresas e instituições lidam com diversas situações. A pandemia provou que, ainda que haja esforço, não é possível estar no controle de todas as situações. Apesar disso, é possível se preparar para o desconhecido. Roger Spitz, futurista que acredita na disrupção, é fundador da Techistential, plataforma de perspectiva estratégica em inovação corporativa e presidente do Disruptive Futures Institute, que nasceu com o propósito de preparar indivíduos e organizações a, justamente, se preparar e ter sucesso em meio a cenário disruptivo. Além disso, o executivo já atuou como diretor do BNP Paribas e é um estudioso da tecnologia da inteligência artificial (IA).

Spitz será, ao lado da CIO da EY Mena, MP Oliveira, e do mentor Itai Talmi, um dos convidados do Future Hacker, evento virtual sobre o futuro e suas vertentes que acontece na terça-feira, 27. A segunda edição do evento contará com nomes nacionais e internacionais que atuam nos ramos de inovação, tecnologia, futurismo, entre outros. Sobre esses temas e outros assuntos, Roger Spitz concedeu entrevista a ProXXIma.

 

Roger Spitz tem experiência de vinte anos no setor de investment banking (Crédito: Divulgação)

 

ProXXIma – Como os ecossistemas podem se preparar para o inesperado e como a inovação pode fazer parte desse processo?
Roger Spitz –
A inovação é uma palavra frequentemente usada de forma que indica que alguma coisa está faltando e de que é preciso fazer algo para suprir essa necessidade, como um processo natural, como respirar. Outro ponto é que, muitas vezes, há uma espécie de engano sobre o conceito de inovação. E existe uma distinção entre inovação e invenção. A inovação pega algo que já existe e incrementa, modifica ou muda um pouco. A invenção é realmente algo que não teve necessariamente um precedente que não existisse antes. Para mim, a conexão entre disrupção e inovação/invenção, na verdade, é muito positiva, porque representa o fato de que o mundo não é previsível. É porque o mundo é incerto, não pré-determinado e constantemente disruptivo que somos capazes de inventar e inovar. Não em nossas próprias vidas, mas também em novas ideias, empresas e ecossistemas. Mais uma vez, um dos problemas com a inovação é a maneira como é estruturada e a maneira como é usada como um preceito para entender que ela deveria realmente ser o DNA de indivíduos e organizações. Felizmente o mundo está lidando com a disrupção constantemente, pois isso permite mais inovação e invenção. Se as pessoas vivessem em um mundo linear, que é previsível, talvez se sentissem mais confortáveis, mas na verdade significaria que elas não têm escolha – não tendo liberdade e capacidade de inventar – porque o que quer que elas decidam fazer não fará diferença, pois já estará predeterminado. Então, nós vemos de uma espécie de perspectiva existencial e filosófica que a ruptura e a complexidade do mundo, o fato de que nada está definido e que a causa e efeito nem sempre são claros, e que nem sempre há respostas certas, vemos isso como algo muito positivo para permitir a invenção e inovação.

ProXXIma – Na sua opinião, a pandemia fez com que empresas repensassem o uso da tecnologia e também em como estão preparadas para as outras crises que estão por vir?
Spitz –
Podemos olhar essa situação a partir de dois níveis. Um é operacional e prático de curto prazo, que é a tecnologia como viabilizadora e que pode levar a negócios. Isso diz respeito às pessoas percebendo que podem fazer reuniões e administrar um negócio remotamente, o que acelera e força as empresas a oferecerem coisas digitalmente. Para ser honesto, acho as empresas que de repente perceberam isso não estavam prestando atenção e se antecipando. Veja o Zoom, por exemplo, que entendeu que o mundo estava se movendo para a virtualização. Eles entenderam que você precisa ser capaz de escalar valor, assim como a Microsoft. Veja a Verizon, uma das maiores operadoras de telecomunicações do mundo: só depois que a pandemia começou, comprou uma pequena empresa de videoconferência chamada Blue Jeans. Porque, de repente, perceberam que o mundo estava se tornando virtual. A pandemia acelerou algo que, para ser honesto, deveriam ter antecipado. Como grandes players globais, deveriam ter percebido que, se não fosse em 2021, 2022 ou 2025, a direção seria de que a empresa precisaria de uma política empreendedora voltada para isso. Mais fundamentalmente, a pandemia expôs uma série de questões de que as empresas não podem confiar em suposições de estabilidade linear previsíveis, seja para a indústria ou qualquer outro setor. E, de repente, o ator que conseguiu se safar fazendo essas suposições, percebeu que poderia ter feito-as mais cedo e que o custo seria menor. Para mim, a pandemia não mudou fundamentalmente o rumo da tradição e a velocidade do uso da tecnologia ou do acaso, mas o que fez foi destacar três coisas: a constatação de que a sociedade, as empresas e a humanidade não estão preparados para entender a complexidade e qual é a verdadeira natureza do mundo. A segunda coisa é que algumas das mudanças e a velocidade de que estamos falando estão acontecendo de qualquer maneira, mas foram exponenciais e de repente atingiram muitas empresas, o que aconteceria mesmo sem a pandemia. E, em terceiro lugar, acho que o que desencadeou tudo isso foi a percepção de que as instituições e organizações destinadas a nos proteger – instituições de educação, governos, entre outras – não foram necessariamente eficazes. São poucos os países que tiveram uma mentalidade antecipatória e que perceberam quais suposições deveriam estar fazendo sobre a complexidade do mundo.

ProXXIma – Como a inteligência artificial pode moldar a maneira como os humanos lidam com o mundo e como enfrentamos desafios?
Spitz – 
A maneira como vejo a inteligência artificial é como se fosse uma cadeia de valores de decisão. O que está acontecendo é que estamos nos movendo de basicamente isights e suportes de decisão, o que é chamado de preditivo. Você tem uma noção do que pode vir a seguir, como acontece com o algoritmo da Netflix e Amazon, por exemplo: ele se utiliza de dados e para prever o que que pode vir depois e saber o que está prescrito. Hoje, a inteligência artificial é boa pois as coisas são complicadas em vez de complexas. Porque se é complicado, temos causa e efeito, além de respostas certas arranjadas e, portanto, é possível se beneficiar de insights por correlação e reconhecimento de padrões e, claro, a IA pode fazer isso melhor porque pode processar mais dados do que nós.

A questão, quando se trata de como a IA pode ajudar os seres humanos ou como os seres humanos podem depender da IA ​​e o que envolve essa relação simbiótica, é que grande parte do mundo como estabelecemos não é feito de um compilado de coisas complicadas, mas de coisas complexas. A inteligência artificial pode ajudar a humanidade, e os humanos podem usá-la e entender onde ela é boa, mas o mais importante é entender onde os deveríamos ser bons – e  somos bons em situações complexas, mais intuitivas e emocionais. Minha preocupação é que os sistemas educacionais não estejam ensinando sobre essa complexidade. Se você não educarmos os humanos para se anteciparem, serem antifrágeis e ágeis (“the AAA framework”), eles não melhorarão no que diz respeito à complexidade. Assim, à medida que a IA está se tornando mais forte com o complicado e nós nos perdemos na complexidade – e os computadores se tornam mais fortes nessa complexidade -, o perigo está na relação entre humanos e máquinas. Eles podem aproveitar a IA, e deveriam, mas precisam começar entendendo onde podem ser mais fortes e como melhorar isso. Se apenas ficarmos parados e simplesmente deixarmos as coisas acontecerem, e a IA todos os dias fica cada vez mais inteligente, haverá uma desconexão, e não tenho certeza se venceremos essa batalha.

ProXXIma – O futuro será pautado pela tecnologia? Quais são as principais tendências que você vê nessa relação entre pessoas e máquinas?
Spitz –
O que já é o caso é que a tecnologia é ambígua, persuasiva e está em toda parte. Provavelmente não há nada que você não possa fazer, pensar, tocar, criar e usar, que não seja uma tecnologia já eficaz ou relacionada a ela. Isso fica mais intenso a cada dia, quando você não consegue isolar a tecnologia de nada. Se a humanidade não melhorar sua habilidade de navegar, entender e tomar decisões em ambientes complexos, seremos renegados pelo padrão de confiar mais na tecnologia para decisões muito importantes, não apenas no que assistiremos na Netflix amanhã. Acho que a verdadeira resposta à sua pergunta é: a escolha que acho que os seres humanos podem fazer, que é: Você construiu mais sistemas antifrágeis? Você está pensando em educação e liderança de equipes e governança mais antecipatórias? Você tem agilidade para emergir sem fatos e informações completas, e visibilidade total, considerando curto e longo prazo? Você tem a agilidade para emergir no dia a dia, que é o que chamamos de AAA? Se a resposta for não, em um ambiente complexo, a tecnologia dominará o mundo. Sei que parece surreal, mas acredito fortemente que o futuro depende de nossas decisões em relação à compreensão e gestão desses temas. Se for um alerta para que esses tópicos sejam bem compreendidos, ensinados e inseridos em nosso mindset e na educação, não seremos pautados pela tecnologia.

**Crédito da imagem no topo: Ajwad Creative/iStock

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