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Nas estratégias, o propósito deve vir antes da inovação?

Ter clareza do impacto que se almeja é um dos combustíveis para qualquer startup, afirma André Barrence, diretor do Google for Startups para a América Latina

Victória Navarro
28 de julho de 2021 - 6h00

No Brasil, o ecossistema de inovação ainda possui uma lacuna de empreendedores negros e negras. Isso, porque, diz André Barrence, diretor do Google for Startups para a América Latina, o acesso ao capital é limitado e há um baixo volume de investimentos direcionado a esses fundadores por parte de investidores-anjo e de fundos de venture capital. “Para fomentar o investimento em startups fundadas por negros e negras no País, é preciso, em primeiro lugar, colocarmos luz sobre o tema, levarmos o ecossistema a refletir sobre o assunto e, mais importante, agirmos”, afirma. O Google, por exemplo, aposta no Black Founders Fund, iniciativa focada em investimento em startups fundadas e lideradas por empreendedores negros e negras, no Brasil. Para André, ter um propósito de transformação e clareza do impacto que se almeja é, certamente, um dos combustíveis fundamentais para qualquer startup que deseja escalar seu negócio. Ao Meio & Mensagem, o diretor ainda aponta o quão, no ecossistema de startups, representativas são as martechs e adtechs, no País.

 

André Barrence, diretor do Google for Startups para a América Latina (crédito: divulgação)

Meio & Mensagem – Como fomentar o investimento em startups fundadas por negros no Brasil?
André Barrence – No Brasil, o ecossistema de inovação ainda possui uma lacuna de empreendedores negros e negras. Um dos principais motivos para isso ainda é o acesso limitado a capital empreendedor e baixo volume de investimentos direcionado a esses fundadores por parte de investidores-anjo e fundos de venture capital. A realidade é que empreendedores negros e negras encontram mais barreiras para ter acesso ao capital do que empreendedores não-negros. Identificamos essa diferença, ao conversamos e analisarmos os dados da nossa própria comunidade do Google for Startups Campus de São Paulo, em que temos cadastrados nove vezes mais fundadores de startups que se autodeclaram brancos do que negros, enquanto não temos um único investidor cadastrado que se autodeclare negro. Esses são exemplos que ilustram algumas das diferenças de acesso a oportunidades. Para fomentar o investimento em startups fundadas por negros e negras no País, é preciso, em primeiro lugar, colocarmos luz sobre o tema, levarmos o ecossistema a refletir sobre o assunto e, mais importante, agirmos. Nós lançamos o Black Founders Fund no Brasil, com o objetivo de ampliar o acesso a capital e ampliar a diversidade e a inclusão dentre os fundadores e líderes de startups. Ficamos felizes ao ver outras organizações, sejam corporações, aceleradoras, fundos de investimento ou investidores-anjo, seguirem o mesmo caminho. É fundamental que tanto empreendedores quanto investidores se tornem aliados e agentes ativos, na construção de um ecossistema mais diverso e inclusivo, e entendam que essa é uma pauta importantíssima para o desenvolvimento e fortalecimento das startups, no País.

M&M – A pandemia abriu espaço para soluções mais digitais. Acredita que isso vem alavancando o surgimento de novas startups fundadas por negros?
André – Durante a pandemia, vimos como sociedade a necessidade de migrar uma série de serviços essenciais do dia a dia para o digital. As startups foram essenciais nesse sentido, seja para intensificar o serviço de delivery de comida ou na evolução da telemedicina, por exemplo. Essa consolidação da transformação digital, no País, estimula o surgimento de mais startups e impulsiona mais investimentos em tecnologia. Foi possível ver o crescimento em setores específicos, mas ainda não temos evidências de um crescimento no perfil dos empreendedores.

M&M – Qual é a importância de as startups criarem soluções que impactem, via tecnologia, a vida dos consumidores? O propósito vem antes da inovação?
André – As startups são empresas que buscam, a partir da inovação tecnológica, transformar a maneira a qual alguma atividade é feita ou mesmo a dinâmica de algum setor. O que vemos, hoje, é, sim, um grande movimento de transformação que impacta, diretamente, a vida dos consumidores. Quando olhamos para o papel desempenhado pelas fintechs, por exemplo, nos últimos anos, fica claro o quanto elas modificaram a forma como as pessoas utilizam serviços financeiros e estimularam instituições tradicionais a se modernizarem. Ter um propósito de transformação e clareza do impacto que se almeja é, certamente, um dos combustíveis fundamentais para qualquer startup que deseja escalar seu negócio. Mas, sem tecnologia e inovação, essa transformação dificilmente é alcançada. Por isso, eu acredito que, idealmente, clareza de propósito, tecnologia e inovação são elementos que caminham lado a lado.

M&M – No ecossistema de startups, o quão representativas são as martechs e adtechs no Brasil?
André – As martechs e as adtechs têm ganhado, cada vez mais, espaço e relevância, especialmente, no contexto de transformação digital acelerada dos negócios, no País. Há soluções capazes de criar presença digital e alcance para pequenos negócios com poucos cliques e que já nasceram integrados a diversas soluções de mídia. Dentre as startups investidas do Black Founders Fund, temos a Creators, uma rede de profissionais voltados a projetos criativos, e a Trakto, uma plataforma de edição de conteúdos para marcas e negócios, ambas soluções que buscam endereçar grandes oportunidades no mercado de comunicação.

M&M – O Black Founders Fund Brasil identificou alguma tendência entre as startups selecionadas?
André – Empreendedores são empreendedores. Negros ou não-negros. Depois de muitos anos trabalhando nesse ecossistema, eu consigo ver que existe um objetivo comum para a maioria deles, o de buscar soluções para problemas que identificaram em experiências pessoais ou de pessoas próximas. Considerando isso, com o Black Founders Fund, vimos muitos negros, que desenvolveram negócios direcionados especificamente para negros, assim como empreendedores que viveram em situação de vulnerabilidade ou em regiões periféricas, que focaram em criar soluções tecnológicas para endereçar problemas que afetam pessoas nas mesmas condições. O que não falta são desafios e oportunidades, no País, a serem endereçadas por estes fundadores.

*Crédito da foto no topo: Oleg Magni/Pexels

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