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Conselheiras 101: “O papel do marketing digital é dar voz aos que não têm voz”

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Conselheiras 101: “O papel do marketing digital é dar voz aos que não têm voz”

Lisiane Lemos, cocriadora do movimento e especialista em inovação tecnológica e diversidade explica como as duas coisas têm se cruzado

Carolina Huertas
12 de novembro de 2021 - 16h49

Especialista em inovação digital, diversidade e inclusão e B2B, Lisiane Lemos é cocriadora do Conselheiras 101, ação para incluir de mulheres negras em conselhos de administração, advogada e professora. A executiva trabalhou mais de cinco anos na Microsfot, foi a Moçambique como diretora de desenvolvimento organizacional da AISEC Moçambique e conversou com Meio & Mensagem sobre os caminhos da diversidade e inclusão no marketing digital. 

(Crédito: Divulgação)

Meio & Mensagem – A inovação tecnológica conta com acesso democrático?
Lisiane Lemos – Pergunta supercomplexa. Primeiro, temos que destravar inovação e tecnologia. Porque temos a tendência de achar que é tudo a mesma coisa e não é. Às vezes, inovar é atender melhor o cliente, é se preocupar com marca pessoal, e aí a tecnologia é sempre um catalisador. Quando junta as duas coisas, temos inovação tecnológica. O Brasil tem muito a andar, temos um abismo social muito grande. Eu, que vim do interior do Rio Grande do Sul, sinto muito esse choque, as soluções são pensadas nos grandes centros, para pessoas dos grandes centros e com formação. Ao mesmo tempo que estamos discutindo canais de 5G, não temos acessibilidade, mas ainda assim temos mais celular do que gente no País. Temos esse caminho, com gap muito grande, e entendo o meu papel de ser uma mulher, jovem, negra, que não veio dos grandes centros, como o de desmistificar a inovação e tecnologia para as pessoas e demonstrar novos caminhos, a que eu também não tive acesso. E a pensar a partir dessa experiência nova que tenho trabalhando em duas grandes multinacionais, como posso ajudar pessoas que vieram desse não lugar tecnológico, como eu, a ter acesso também.  

M&M – Como desenvolver ferramentas e soluções que beneficiem a todos?
Lisiane – A grande chave é: nada sobre nós, sem nós. Usamos isso para diversidade, mas vale também para inovação tecnológica. A conjugação não está correta, mas é sobre isso. Como é que posso construir soluções tecnológicas para pessoas que não estão fazendo parte dessa construção de inovação? Como falar sobre atualizações e upgrades, ou até coisas muitos simples como soluções para mulheres, para jovens, quando as pessoas não estão dentro da construção nos balizamos em indicadores, mensuráveis e sem voz ou particularidade? Penso muito sobre o que aprendi sobre meios de pagamento e digitalizações de negócios em Moçambique, que é um lugar que nem tem energia elétrica, saneamento básico e acesso à internet e, em 2013, estava muito mais avançado do que o Brasil. O primeiro caminho é incluir todas as pessoas pra que possam construir as soluções, depois é dar paridade de voz para que possam analisar de forma crítica e também trazer essas soluções de uma forma mais plural possível, pensando em outras geolocalizações, outras nacionalidades, outros gêneros, que é algo que não acontece. Também temos o desafio de renda e acesso. Você vai pensar em infraestrutura e soluções tecnológicas, mas quanto está um Mackbook? E será que temos que construir soluções no Mackbook e não consegue construir essas novas soluções dentro das periferias? No fundo, é para questionar: quem está construindo, para quem estamos construindo e se isso é sustentável pensando na longevidade da coisa das soluções. Existe essa camada de representatividade inspiradora que, enquanto pessoas como eu não estiverem aparecendo, construindo essas soluções inovadoras, outras pessoas não poderão sonhar em estar nesse espaço, não poderão pensar em ter carreira corporativa. Vejo meu papel como influência positiva no mercado de inovação. A representatividade também tem esse papel de destravar novos talentos.  

M&M – Qual é a importância do marketing digital em incluir os consumidores nos mais diversos cenários políticos, econômicos e sociais?
Lisiane – Falo muito que comecei minha carreira sobre uma ótica transformação digital que nem enxergava. A tecnologia digital transformou a minha vida. Fui trabalhar com marketing digital porque acho que é a forma mais acelerada que temos de transformar digitalmente pessoas, negócios, processos e serviços. É democrática, porque o grande e o pequeno estão no mesmo espaço, não necessariamente com o mesmo poder de fogo financeiro, mas se você usar a tecnologia de uma forma assertiva, conhecer o seu cliente de forma correta, se usar todos esses nichos de inovação, consegue estar presente na frente do seu cliente através do meio digital. Ele também democratiza a função do acesso, porque não importa a geolocalização. O grande papel do marketing digital é dar voz aos que não têm voz. Tem uma questão social de empoderamento e de força, principalmente aos pequenos e médios negócios nesse território inexplorado. Você consegue através da própria internet ter essa formação, abrir uma pequena agência, prestar serviço para o outro. Ainda é nichado? A maior barreira é o desconhecimento e o medo. Porque se acha que marketing digital pode ser só vender numa plataforma como Facebook, Instagram, TikTok e ele é muito mais do que isso. Pode ser in bound, out bound, automação, uso no Waze, no YouTube, é um universo tão grande, que, às vezes,  pode privar as pessoas pelo medo.  

M&M – Quais são as maiores dificuldades para tornar sucesso mais democrático?
Lisiane – Nós temos um excesso de informação e recursos, o que pode deixar todo mundo muito confuso. Quando você tem essa avalanche de recursos com vários players do mercado oferecendo muitas soluções, o interlocutor, o usuário fica com temor. O que que eu vou aprender primeiro? Por onde eu começo? Temos também a dificuldade de acesso. A gente tem um país abismal, quando você vai falar de marketing digital você precisa de uma conexão minimamente boa, você precisa de computador, você pode pelo celular, mas é uma trava. Eu tenho um problema de conhecimento técnico, então, num país onde pouca gente tem ensino superior, como é que eu estou construindo as estratégias de marketing digital? Porque uma coisa é você construir uma operação, execução, operar campanha, mas outra coisa é você pensar estratégia, então tem um gap de conhecimento técnico como freio e tem a agilidade de construção de conhecimento. Enquanto estamos falando aqui, tem uma solução nova acontecendo, estamos começando a discutir de metaverso e um monte de coisa, o passo é muito acelerado para realmente acompanharmos. Outra camada transversal é: eu tenho muitas empresas trabalhando com marketing digital, mas existe também uma expectativa que o profissional já venha pronto e  isso é para a tecnologia como um todo. Talvez a gente tenha que dar chance para quem está começando e eu falo isso muito sobre uma ótica pessoal. Se eu pensar no marketing digital como uma evolução do marketing físico, todo mundo vai ter que ser igual e ter uma formação tradicional, só que isso está mudando o tempo todo, então eu preciso um pouco de tecnologia, um pouco de uma ótica de negócio, um pouco de uma ótica de geolocalização e outras vertentes, eu vou precisar um pouco de marketing, etc. Então, teremos que dar chance para essas novas pessoas para construir esse novo mundo. 

M&M – Diante de todo esse cenário, como o Conselheiras 101 pode ajudar nessa mudança?  

 Lisiane – Eu já fiz muita coisa legal na vida, mas o Conselheiras acho que é a coisa mais legal. Por que que eu acho que é a coisa mais legal? Por que ele desafia todo esse status quo que estava posto, sabe? Quando você olha  o topo carreira corporativa e pensa em um conselho de administração enquanto um lugar que toma as decisões estratégicas, aquele lugar onde, até ontem, era lugar de apenas homens de 50 cinquenta anos, cis, brancos, e você consegue posicionar mulheres negras com carreiras corporativas de mais de 15 anos, com experiência sólida, nesses lugares, eu consigo com uma pessoa, influenciar companhias que tem milhares de empregados. E colateralmente, quando eu olho uma mulher naquele lugar e digo ‘olha tem uma mulher negra conselheira lá’, eu consigo alavancar outros conselhos que dizem ‘Ei, eu não tenho’ . Desmistificamos essa coisa de que não existem profissionais preparados, porque existem sim, desmitifica essa questão de colocar o profissional em uma cadeira de diversidade de inclusão, que não necessariamente ele quis. No meu caso, eu quero, eu amo, mas nem todo mundo tem que ser Wikipreta.  Outro ponto é a capacidade de reverberação. Até dois anos atrás, poucas pessoas de  grupos sub-representados falavam do tema de governança corporativa, mas conseguiu dar uma força e colocar como uma profissionalização a questão de estratégia através do Conselheiras. O último ponto é realmente dentro das empresas. O quanto quando você tem as nossas participantes das primeiras turmas, 60%  delas ascendendo dentro das suas próprias carreiras e, então, transformando as suas próprias empresas e 40% atingindo o conselho de administração, eu consigo realmente mover o ponteiro e transformar o ecossistema.  

**Crédito da imagem do topo: Fit Ztudio/Shutterstock

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