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O “proxximo” passo

O nosso enredo é um só. Fazer um pouco mais pelo outro é fazer um pouco mais por você, e cabe aos 7 bilhões de roteiristas vivos morando neste planeta combinar as suas narrativas

18 de novembro de 2020 - 8h00

Icaro de Abreu, VP criativo na Fbiz

Hoje venho com a missão de convidar vocês a pensarem comigo sobre este tema, uma história de lá, do mais adiante, do futuro, do próximo passo.

Ir além é biológico: ao nascer, mesmo não querendo, iniciamos um ciclo. Não depende da nossa vontade. Mas é existencial também, pois, enquanto Homo sapiens, sabemos distinguir o presente do futuro, e o nosso exercício de antecipação acaba sendo inevitável. Ir além não é algo contra o que se possa lutar.

O poder do próximo passo está em abrir a cabeça, em fazer conexões improváveis e em se expandir buscando soluções, e existe um além possível a todos no presente, no óbvio, desvendado pela criatividade.

Sendo criativos, passamos a quebrar em muitos pedacinhos aquilo que, à primeira vista, parece complexo. Ver as coisas de perto, nos seus microproblemas, ajuda-nos a antecipar a resolução dos maiores. Ir além é poder mudar de opinião. É repensar a nossa programação. Não é sobre antecipar o futuro. Ir além está no presente.

Não é sobre dar tudo de si o tempo todo. É mergulhar ou voar quando necessário. É respeitar as condições que se apresentam, pois a máquina da natureza não foi feita para isso, e é fundamental se economizar e acelerar na hora certa. Não é sobre o máximo. É sobre o certo.

Precisamos do ócio para refletir sobre o que aprendemos, assim como do sono para organizar os nossos arquivos. Precisamos de ação mas também de reflexão se quisermos ser os catalisadores dessas conexões improváveis e originais.O próximo passo, sem dúvida, deve respeitar os nossos limites, principalmente o do outro, e não cair na pegadinha de ser mais produtivo. Fazer mais com menos está no resultado do processo, e não na ansiedade da busca. Criatividade é liberdade, jamais medo.

O próximo passo está em não ser motivacional em momentos de grande pressão e de não forçar a barra mesmo em momentos de incerteza, até porque quem é mais experiente orienta, e é nessas pessoas em que devemos nos espelhar. O futuro sempre estará fantasiado de falsos profetas; por isso, não devemos nos esquecer da direção, e esta, no final das contas, a gente sempre sabe, pois tem a ver com as nossas crenças e com o que verdadeiramente nos conecta.

Neste ano em particular, o próximo passo não nos direcionou para fora. Foi para dentro. Foi para ir além de nós mesmos. Teve a ver com não satisfazer o próprio ego, com fazer o que se devia mesmo quando não tinha ninguém olhando. O próximo passo não foi sobre se lançar rumo ao desconhecido, e sim sobre a história que iremos contar a nosso respeito.

Ou vamos querer dizer para os nossos filhos que, enquanto milhões de pessoas morriam, a gente jogava Minecraft? Ou que colocávamos na conta de Deus dizendo que, se pegar COVID, pegou? Ou, pior ainda, dizer que estávamos de quarentena, mas, na verdade, saíamos por aí sem necessidade, sem usar máscara, podendo ser o vetor de contaminação de um monte de gente?

Reconhecer iniciativas originais para nos unirmos e cuidarmos uns dos outros – mesmo diante de todas as adversidades – tem a ver com o nosso próximo passo. Durante este período, isso se deu pelo incentivo a produtores locais de alimentos orgânicos, em prol de uma melhor saúde, bem como pelo fortalecimento de comércios onde trabalham as nossas famílias e vizinhos, garantindo uma mínima circulação de dinheiro na comunidade e evitando o fechamento desses estabelecimentos.

Com a utilização de diversas ferramentas de colaboração online, foi possível conceber alternativas para resolver rapidamente vários problemas ao redor do mundo, por exemplo, a produção de respiradores muito mais baratos e capazes de ampliar o acesso da população ao tratamento da doença. Por meio de painéis agremiadores de dados, feitos gratuitamente pela comunidade de programadores, pode-se compartilhar insights e informações em tempo real a respeito da propagação do vírus, permitindo maior inteligência nas estratégias de contenção da pandemia.
No campo da inovação, temos o belíssimo exemplo de um rodo desenvolvido por pesquisadores da USP para limpar pisos infectados de hospitais usando a luz ultravioleta, que elimina totalmente o vírus.

O próximo passo é seguir firme para garantir a diminuição do contágio e permitir o reagrupamento da sociedade, até porque, ao final da pandemia, o nosso papel no mundo e em relação ao outro não acaba. O que vamos fazer com as questões da utilização irracional do plástico, dos combustíveis fósseis, da desigualdade de gênero e da desesperadora distribuição de renda do nosso país e do mundo? Não podemos estar distraídos e nos reduzir a nós mesmos. O nosso enredo é um só. Fazer um pouco mais pelo outro é fazer um pouco mais por você, e cabe aos 7 bilhões de roteiristas vivos morando neste planeta combinar as suas narrativas com a deste grande organismo no qual vivemos. Só assim poderemos garantir que o próximo passo nos distancie do fim da nossa história.

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