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O trabalho está onde você está

A partir do momento em que há superabundância de possibilidades de escolhas éticas, o sujeito não pode mais transferir a responsabilidade de seus atos a terceiros

14 de dezembro de 2020 - 8h00

Há um Tweet de Bernice King (@BerniceKing), ministra estadunidense e filha de Martin Luther King, que, traduzindo, diz:
“O trabalho está no offline.
O trabalho está no online.
O trabalho inclui presença.
O trabalho inclui ausência.
O trabalho está no virtual.
O trabalho está nas ruas.
O trabalho está nas salas legislativas.
O trabalho está na arte.
O trabalho está nas políticas públicas.
O trabalho está nas urnas.
O trabalho está onde você está.”

Tudo o que fazemos é influenciado pela nossa identidade e um dos aspectos da minha é ser uma mulher negra que esteve a vida inteira em ambientes majoritariamente brancos. Em casos assim, parece-me que as angústias do não-pertencimento moldam o ser que, sendo questionador ou não, apenas pelo fato de existir e ocupar espaços que não foram originalmente criados para ele, tensiona toda uma estrutura de exclusão.

Thalita Duarte*

Especificamente no mercado publicitário, com o advento da ubiquidade da internet, e por conseguinte das mídias sociais, há espaço para manifestação da pluralidade de discursos, destes de grupos minorizados ideologicamente e que foram, inclusive, firmados nessa posição com auxílio da própria publicidade.

Antes negligenciadas, mesmo com a organização histórica de trabalhos ativos de base, agora essas vozes marginalizadas têm outro meio de pautar a conversa pública e apontam as fragilidades do sistema do mercado consumidor e da comunicação publicitária. Elas dizem que a construção publicitária não as atende nem as entende, dissemina mensagens que as enfraquece, as ignora ou tem a pretensão de falar por elas ou com elas, mas não consegue estabelecer uma ponte comunicacional e erra ao tentar por falta de referência e empatia crônicas de um sistema que, até antes da ascensão da classe C, por exemplo, não se preocupava com a democratização prática do consumo.

Em meio a esse status quo surgem inúmeras publicidades e propagandas que ofendem ou machucam grupos, mas não necessariamente os públicos para os quais as produções publicitárias foram dirigidas; o meio publicitário pode ter começado a desenvolver consciência social apesar de todas as orientações éticas contidas nos documentos oficiais, mas sinto que faltam atualizações das exigências éticas levando em consideração a revolução nos meios e formas de comunicação social, como os oriundos da eclosão da comunicação digital.

A partir do momento em que há superabundância de possibilidades de escolhas éticas, o sujeito não pode mais transferir a responsabilidade de seus atos a terceiros, o que torna a busca pelas escolhas certas um movimento incerto, que deixa o indivíduo incessantemente amedrontado e na iminência do erro. Enquanto o sujeito tenta realizar o que é melhor para o outro, ele também é dominado pelo individualismo que o faz pensar em si mesmo prioritariamente.

Quando o publicitário justifica determinada conduta danosa à coletividade com o poder coercitivo da profissão ou do mercado publicitário, com a relação com colegas de profissão, com a manutenção de uma posição profissional em um contexto específico ou em uma organização ou empresa, com a sociedade de consumo ou com o sistema capitalista, há a negação da própria liberdade.

Mesmo que o publicitário não se perturbe com os questionamentos da própria consciência, atualmente, com o fortalecimento e ocupação de espaços de vozes antes suprimidas socialmente, ele sofrerá a coercividade social (definição de Durkeim de fato social), e ele e o trabalho que realiza sofrerão retaliação, repúdio das outras individualidades e a possível não-aceitação. Para evitar essa situação e entender quando as produções publicitárias são antiéticas e podem agredir o coletivo, faz-se necessário submetê-las ao crivo do dano à coletividade e apenas dar-lhes continuidade se elas não tiverem potencial para causar danos sociais. Como realizar esta espécie de validação social é o grande questionamento que, se respondido, direcionaria a Publicidade e Propaganda atuais para um caminho mais ético em benefício da convivência social mais harmônica e, além disso, economizando tempo e dinheiro – recursos valiosos na sociedade atual.

Se algo é certo na sociedade de consumo atual, é sua própria característica de global, já que isso pressupõe a inegável dependência entre os seres sociais. Esta dependência estabelece um sistema em que tudo e todos estão interligados e em que os mais corriqueiros atos locais que o indivíduo social deixa de realizar podem ocasionar consequências globais por gerações em pessoas e lugares que ele talvez nunca chegue a conhecer. Sobre isso, Bauman conclui no livro “A Ética É Possível Num Mundo de Consumidores?” que ao considerarmos a interdependência global, quando tivermos ciência do sofrimento de outrem, não há inocência moral e, por conseguinte, justificativa para declararmos que não há ação possível para ao menos abrandarmos o infortúnio alheio: “talvez sejamos impotentes individualmente, mas poderíamos fazer algo juntos, e a integração é formada de e por indivíduos”.

Sendo assim, para ser ético quando a ocupação profissional é Publicidade e Propaganda não basta ser fiel à entrega de um trabalho que garante o que a profissão promete, que é comunicar levando à conversão, seja de um produto, serviço ou ideia, com eficiência. Quem se pauta nessa perspectiva está se expondo ao questionamento da própria consciência, que não terá descanso por ser compelida a pensar na recepção e no impacto social das escolhas profissionais feitas, partindo da premissa de que a convivência humana pode ser transformada para melhor e de que o mundo é o resultado das escolhas individuais. Essas escolhas nada mais são que uma das instâncias éticas do indivíduo; logo, são reflexo direto do que o indivíduo é em sua totalidade e, portanto, não podem ser justificadas ou analisadas isoladamente com o pretexto profissional. Ou seja, sendo a atividade publicitária uma expressão da identidade do indivíduo que é publicitário, a ocupação é um aspecto do que ele é e do que acredita.

*Thalita Duarte, estrategista de marcas do Twitter Next no Brasil

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