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Lições empresariais (e de vida) em uma banquinha de limonada

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Lições empresariais (e de vida) em uma banquinha de limonada

A cada dificuldade, novas reuniões, desistências e acordos foram firmados

14 de janeiro de 2021 - 8h00

Carolina Strobel e Marcelo Bacci (crédito: divulgação)

Um casal de namorados pode ter várias coisas em comum. Entre nós, acontece de termos especial afeição por rituais de passagem e… começar uma empresa é certamente um deles. Por isso, acompanhamos, carinhosamente, cada passo, quando nossas crianças montaram uma banquinha de limonada e, no caminho, receberam lições poderosas sobre empreendedorismo.

Até agora nos perguntamos qual a origem da ideia… é certo que, vez ou outra, provocamos nossos filhos a fazer algo parecido, mas eles nunca expressaram ter ânimo para a execução. A fagulha apareceu em meio a um ambiente propício (férias no interior) e com cinco crianças (sócios fundadores) alimentando a fase de ideação.

O fato é que, durante um café da manhã, as crianças já haviam planejado e decidido toda a estrutura física que daria suporte às vendas: mesa, banquinho, cadeira, guarda sol, tudo foi limpo e carregado para a garagem. Durante a discussão, eles foram negociando a obtenção dos recursos com os detentores do capital (adultos da casa). O modelo não era propriamente asset light…

Durante o almoço, o portfólio de produtos (cardápio da banquinha) foi discutido à exaustão, até que, finalmente, foram checar na geladeira se os insumos estavam disponíveis para o evento e repensaram as disponibilidades. Várias receitas de sorvete e limonada testadas e pronto! Fizeram um soft opening no final da tarde, pontuado por ações de marketing orgânicas da vizinhança (o famoso “boca a boca”). Inúmeros conselhos da clientela foram ouvidos e a noite serviu para um intenso brainstorm e organização das necessidades práticas do dia seguinte: horários de funcionamento, higiene (seguindo os protocolos de Covid) e compra de insumos foram os principais assuntos em pauta.

Essa foi uma fase muito interessante porque um dos fundadores machucou o joelho e decidiu não participar da reunião na qual foram tomadas decisões que o envolviam. Uma pequena crise se instalou, que resultou na dissidência desse sócio.

Na manhã de sábado, a ansiedade e expectativa tomavam conta da casa durante os preparativos: conseguiram recursos financeiros com friends and family para o transporte (carona) e também para a compra de estoque no supermercado. Tiveram então a primeira aula de contabilidade: o valor do investimento inicial seria suficiente para a aquisição de todos os insumos? Lista na mão, preços, escolhas e… mais um sucesso! Focados no orçamento disponível, resistiram bravamente à compra de balinhas do lado do caixa.

Almoço de trabalho, com discussão sobre a divisão das funções, área de atuação do delivery (sim, bicicleta liberada com EPIs) e sobre quem faria as entregas (aumentando a possibilidade de ganhos de gorjetas), quadros e cardápios pintados à mão… E tudo pronto para o grande dia!

De imediato, o foco era chamar a atenção dos clientes com um aceno, um belo sorriso e simpáticos meninos contando que havia limonada, sorvete natural (feito com uma maquininha na frente do cliente) e água gratuita para os passantes… Encantamento total!

Houve readequação de preços, inúmeras disputas societárias, uma possível apropriação de propriedade intelectual (o sócio dissidente era o criador da receita da limonada), discussões sobre o pro labore e disponibilidade para a frente de loja. A cada dificuldade, novas reuniões, desistências e acordos foram firmados.

Apesar de ações de marketing inovadoras (rifas) e comerciais (parcerias com vizinhos vendendo pão e queijo e brigadeiros) que reverteram em muitas conversões, a sociedade foi desfeita. Foi preciso invocar a preferência na liquidação, onde os sócios remanescentes dividiram todo o resultado financeiro, assim, a banquinha e os demais materiais foram retirados e guardados (quem retirou e guardou ficou com o saldo de caixa).

Ao final, terminou tudo em picolés e na sabedoria que o sucesso pode ser efêmero como o arco-íris… dependendo da flexibilidade, resiliência e perseverança.

Lições:

1. MVP* não significa um produto mal acabado, ele tem que ser o melhor que você conseguir entregar: a limonada e os sorvetes eram deliciosos, receitas especiais preparadas com muito carinho e cuidados, algumas testadas por meses entre familiares e amigos… o que é bom sempre vende bem;

2. Vender outros produtos pode aumentar a sua margem rapidamente, mas… perder o foco no produto que é “carro chefe” pode ser mortal — quando as parcerias começaram, a venda de limonada e sorvetes foi severamente impactada por falta de atenção à produção;

3. Ações de marketing são importantes e divertidas, só que a produção precisa acompanhar a escala das possíveis vendas, ou muitos clientes ficarão a ver navios;

4. É preciso ter sempre uma estratégia corporativa de saída — construir uma empresa pode ser divertido e lucrativo, mas pragmaticamente dá bastante trabalho;

5. Questões societárias devem ser resolvidas na partida. Como o resultado é distribuído? Quanto é reinvestido? O que ocorre com o fundador dissidente? Qual a governança das decisões?;

6. Papéis e responsabilidades precisam ser definidos ainda que sujeitos a ajustes – quem faz o quê no negócio? (Algumas crianças não queriam ficar no atendimento ou na produção);

7. O propósito guia todas as fases do processo de criação. E mais… neste caso, o consumo também, pois cada cliente sabia que havia plantado uma semente importante de empreendedorismo para o futuro.

*MVP: O Produto Mínimo Viável – ou Minimum Viable Product (MVP) é a versão simplificada de um produto final. A partir dela, o empreendedor vai oferecer o mínimo de funcionalidades com o objetivo de testar o encaixe do produto no mercado.

*Carolina Strobel é operating partner da Redpoint Eventures e Marcelo Bacci, CFO da Suzano

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