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A engrenagem do verdadeiro impacto

Cada vez mais vemos que uma empresa só tem significado quando retribui, com um mínimo de equilíbrio, à sociedade que consome os seus produtos e serviços

26 de janeiro de 2021 - 8h00

Solange Sobral (Crédito: Divulgação)

Há tempos tenho visto a corrida das organizações em busca de relevância, sempre com o objetivo principal de aumentar lucro e valorização. É difícil quebrar o mindset capitalista que impera hoje, mas talvez essas mesmas organizações precisem atentar para o fato de que existe atualmente uma possibilidade desta engrenagem ter novos ajustes que moverão essa máquina do capitalismo de uma forma diferente.

Nos colocando na nossa posição de consumidores, é importante nos perguntarmos o porquê uma marca, nos dias de hoje, merece ou recebe a nossa atenção e preferência? Como cidadãos sociais, estamos confortáveis em continuar consumindo produtos que destroem o meio ambiente? Consumindo de empresas que escravizam ou destratam os seus colaboradores? Continuar contribuindo com os resultados e com o sucesso de organizações que não estão trabalhando duro para criar ambientes corporativos de maior equidade para mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+, PCDs e demais grupos minoritários?

De forma direta, a nossa atitude de consumo é uma das peças chave na engine de resultado das organizações e define o tipo de sociedade e o tipo de marca que estamos estimulando, se continuamos construindo essa sociedade exclusiva para muitos – socialmente e financeiramente desequilibrada – ou se atuaremos em prol de equidade de oportunidades. Difícil não avaliarmos os impactos das nossas decisões numa necessária re-construção social, tanto nossas decisões de consumo como nossas decisões individuais de relacionamento nos ambientes sociais e corporativos. Elas constituem um passo  importante em prol de tornarmos esses espaços de convivência mais diversos, mais inclusivos e mais responsáveis em relação ao nosso meio ambiente.

Claro que políticas públicas e os governos têm grande responsabilidade nesta reconstrução social. Vejamos, por exemplo, como as políticas de cotas tanto ajudam os aspectos de diversidade de PCDs, pessoas negras e financeiramente vulneráveis. Não necessariamente da inclusão dessas pessoas de verdade, mas ao menos garantindo que estando lá, de alguma forma, haja uma sensibilização para que possam ser verdadeiramente incluídas. A Lei Maria da Penha, como um outro exemplo, também fez evoluir as questões de violência contra a mulher, principalmente trazendo à luz o quanto isso ainda é presente em nosso dia a dia. Mas juntamente com as políticas públicas, não há como não considerar que empresas e indivíduos também apresentam um papel fundamental nesse redesenho. Especialmente quando assumimos que uma empresa é a soma de seus indivíduos, voltamos aqui a falar da nossa responsabilidade como cidadãos, principalmente se temos o privilégio de termos um emprego, ainda mais uma posição de liderança.

Além de sermos individualmente peça chave nesta transformação, a soma das nossas decisões individuais são muito relevantes e, estudos já mostram uma sociedade caminhando, ainda que lentamente, para valores distintos. Uma pesquisa de janeiro de 2020 da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que 36% dos brasileiros aceitariam pagar mais por alimentos orgânicos. O mesmo estudo também mostrou que 62% já boicotaram marcas por violações a direitos trabalhistas, testes ou maus-tratos a animais, crimes ambientais, discriminação de qualquer tipo e posicionamento político.

Cada vez mais vemos que uma empresa só tem significado quando retribui, com um mínimo de equilíbrio, à sociedade que consome os seus produtos e serviços. Ao mesmo tempo, uma empresa começa a deixar de ter sentido quando somente se beneficia do poder de consumo desta sociedade, mas nada a ela retribui. Isso gera uma necessidade de ajuste na gestão de impacto. Essas companhias precisam urgentemente olhar para além de seu crescimento em receita e lucro. Elas precisam também medir o impacto social para que seu valor de mercado esteja de acordo. Não olhar para o lado nos dias atuais pode ser um grande risco de reposicionamento para as empresas e, quanto mais nós, cidadãos sociais, entendermos a nossa responsabilidade nessa engrenagem, maior é o risco que elas correm.

Esse novo mecanismo corporativo e social é fantástico. Ao mesmo tempo em que ele incentiva os negócios, fundamentais para a geração de empregos, também beneficia a sociedade, respeitando as pessoas que estão dentro das empresas (os colaboradores) bem como as que estão fora delas (os consumidores). A compreensão clara dessa engrenagem e a aposta audaciosa e genuína nesse novo modelo de organizações socialmente responsáveis, já têm levado muitas empresas ao destaque e protagonismo. A transformação dos negócios para que se tornem sustentáveis é fator decisivo para sua própria sobrevivência.

Sim, podemos fazer negócios enquanto mudamos vidas. Como colaboradores, nos sentiremos mais felizes trabalhando numa empresa socialmente responsável, como líderes estaremos fazendo a coisa certa e, como consumidores, estaremos contribuindo para a construção de uma sociedade de maior equilíbrio para todos. Isso tudo ao mesmo tempo em que tornamos mais humanas as nossas relações de consumo e de trabalho e, por consequência, as sociais.

Individualmente, todos nós participamos dessa engrenagem. A pergunta agora é: para qual direção você a conduz? Não movimentá-la, é simplesmente manter a direção atual, reforçando as atuais desigualdades e desequilíbrio sócio econômico. Por outro lado, a sua força ativa pode movê-la para uma outra direção, de maior equidade e justiça.

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