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Desabafo de um publicitário em “home office”

Não, ninguém está bem. E está tudo bem. É hora de cultivar a empatia e a escuta sincera dos nossos dilemas e dos outros

15 de abril de 2021 - 13h58

* Daniel Martins

Já se passaram 13 meses. Isso mesmo, há mais de um ano o mundo vive uma realidade só imaginada por escritores e roteiristas de ficção distópica. No Brasil, que vive o pior momento da pandemia, o medo absolutamente humano de ficar doente ou de ver doente alguém próximo, se soma à falta de perspectiva sobre quando as coisas poderão melhorar, sobre quando poderemos começar a esboçar algo parecido com a normalidade conhecida, sobre como sairemos da crise econômica que a gestão desastrada da crise sanitária provoca. O caldo que sai disso afeta corpo e mente: estamos exaustos.

Em nosso mercado há o privilégio do home office. A tela do computador se converteu, literalmente, na janela que temos para o mundo. Principalmente para quem trabalha com comunicação, propaganda e marketing, a era da superinformação tem um requinte de contradição: precisamos consumir tudo, queremos saber de tudo, estamos online o tempo todo, mas exaustos da tela, do mundo, do noticiário, da rotina. Há a necessidade de lidar com a inovação, a novidade, frente aos desafios que cada um encara como ser humano. Mas como ir atrás de mais informação se é a informação que, por vezes, tem nos deixado esgotados?

Não existe resposta única. Ela é plural como é diversa a forma como cada um de nós está enfrentando – com suas próprias ferramentas, realidades e valores – o momento que atravessamos como sociedade. A ansiedade que nos atinge é fruto do nosso tempo e se agravou enormemente pela pandemia. Então, mesmo que não exista receita, todos nós precisamos lembrar que é normal não conseguir acompanhar tudo, dar conta de tudo. Assim como é normal não estar no auge da produtividade e ter dias melhores que outros.

Não é usual que espaços como este sejam usados para tratar de assuntos que não sejam as especialidades profissionais dos que aqui escrevem. Mas também não há nada de usual no que estamos atravessando. E, embora o momento seja desafiador a todos nós como sociedade, sabemos das brutais desigualdades que nos divide, também enquanto sociedade.

E para falar só de trabalho, do nosso mercado e do nosso modo de trabalhar, nunca foi tão urgente olhar para todos os lados e ser empático. Gestores, olhem com carinho para a exaustão e a ansiedade de seus subordinados. Levem em consideração nesta equação as particularidades do home office para homens e mulheres, para quem tem ou não filhos. Colegas, compreendam os limites de seus pares. A todos: não é vergonha não dar conta.

O diálogo honesto sobre o que estamos vivendo pode ser a melhor, senão a única, saída para que possamos continuar atravessando o que nos é imposto. Caminhamos até aqui, mas os efeitos se acumularam. É hora de pensarmos, em conjunto, como seguir. O trabalho não pode – nunca ou agora – ser mais uma fonte de angústia e ansiedade em tempos sombrios.

Do alto do meu privilégio de poder trabalhar em casa, numa empresa que proporciona a estrutura adequada para isso, num cargo de gestão, o sentimento é de nunca ter trabalhado tanto e, ainda assim, ter a impressão de que não tenho o mesmo nível de produtividade dos tempos do escritório. A falta de separação entre trabalho e vida pessoal embola a rotina e suga qualquer tentativa de descanso real.

Isso não significa que eu seja contra o formato do home office, pelo contrário, mas há uma questão na mesa que precisa ser vista e debatida. E isso só acontecerá se cada um olhar para as próprias necessidades e limitações e tiver a abertura de levá-las a seus gestores. E nós, gestores, mais que nunca, precisamos manter ouvidos e mentes abertas. Só assim driblaremos esse período prolongado de incertezas e poderemos sair inteiros dessa.

*Daniel Martins é CTO da Ogilvy Brasil

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