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Acelerando com governança

O fato é que startups com boa governança têm mais sucesso ao levantar capital com investidores e também nos resultados financeiros e contratos comerciais

25 de junho de 2021 - 6h00

(Crédito: Reprodução)

Primeiro, o básico. O que é governança corporativa?

É um sistema de regras, práticas e processos pelo qual as empresas são governadas, distribuindo direitos e responsabilidades para todos os participantes da organização. Faz parte de uma série de fatores que demonstram a confiabilidade de uma empresa para acionistas, clientes, fornecedores, governo e colaboradores. Ela rege a fluência dos poderes e de todos os seus agentes dentro de uma companhia.     

Dá para acelerar com governança? 

Para uma empresa que está, constantemente, lutando pela sua sobrevivência, priorizando financiamentos, time e ajuste de produto ao mercado, o market fit, as melhores práticas de governança corporativa tendem a estar bem abaixo na lista de prioridades. Entretanto, apesar de os recursos limitados de tempo e experiência do time de uma startup não favorecerem a implementação, desde cedo, de uma boa governança corporativa, isso não a torna menos importante, pelo contrário. Vamos conversar e entender melhor. 

Como funciona o jogo da governança corporativa?  

Na prática, startups vão “passando de fase” no jogo, de acordo com cada rodada de investimento, pois novos acionistas e investidores começam a fazer parte da equação e incluem exigências de reporte e indicadores de performance, que antes não faziam parte do dia a dia. A implementação de uma boa governança corporativa em uma startup é aprendida e aprimorada ao longo do caminho.

A cada nova fase do ciclo de vida de uma startup, novas capacidades e instrumentos são adicionados, claro que estas etapas são dinâmicas e dependem da velocidade de business da própria startup. 

Para efeitos desta conversa, vamos considerar quatro momentos clássicos de uma startup: ideação, validação, tração e escala.  

Ideação é aquela fase cheia de entusiasmo, quando os problemas são mapeados e soluções viáveis começam a aparecer. Este é o período em que muita coisa ainda pode dar errado, mas a ideia passa a ser secundária em relação à sua execução, ou seja, o investimento de tempo e esforço precisa ser maior na elaboração de uma estratégia que viabilize a ideia e a coloque no mercado. Por isso, uma bela pesquisa de mercado e um plano de negócios devem ser o foco nesta fase. Em termos de governança, em geral, ainda não existe uma entidade empresarial constituída, mas é preciso delimitar, adequadamente, qual a contribuição que cada um dos sócios deve realizar, tanto em termos financeiros como em dedicação, além de alinhar as expectativas e entender as limitações de tecnologia e questões de propriedade intelectual. Um contrato indicando direitos, deveres e propriedade pode ser muito útil neste momento. Até porque, especialmente nesta fase, é comum que haja movimentação de fundadores, ou seja, bem importante indicar quem fica com eventual propriedade intelectual, por exemplo.

O próximo estágio é a validação, quando uma ideia de negócio começa a ganhar força. Aqui começa a fase de desenvolvimento, com a concepção e a prototipagem de um produto ou serviço. É neste momento que, em geral, inicia-se a criação da entidade legal que representará a empresa, ainda que não haja nenhum grande ativo construído, já que a empresa, neste estágio, não tem nem solução para oferecer, muito menos clientes. Assim sendo, esse é o momento de idealizar a estrutura jurídica e comercial que irá arquitetar o início. Mesmo sem a garantia de sucesso nesta fase, a startup precisa seguir acreditando no resultado, e o time deve se concentrar em preparar bases sólidas que facilitarão o resultado final desejado. Essa é a fase em que alguns investidores-anjo podem se interessar em fazer parte da empresa, por meio de estruturas financeiras, como empréstimos conversíveis em ações, por exemplo. Analisar e monitorar os riscos jurídicos e tributários das estruturas é essencial. Investimentos-anjo, em geral, são operacionalizados por meio de empréstimos conversíveis, e um eventual pagamento de juros irá gerar recolhimentos tributários que podem ser bastante significativos para uma empresa nesta situação. Estes riscos precisam ser constantemente monitorados.

Quando os primeiros clientes começam a chegar, mas ainda não estão gerando resultados suficientes para pagar as contas, ou pelo menos boa parte delas, começa a fase da tração. Essa é a hora de focar na experiência, na jornada e no tratamento do cliente, pois a continuidade dos projetos depende principalmente disso. Esta fase é talvez a mais desafiadora, mental e fisicamente, pois a intensidade de dedicação do time precisa ser muito alta, já que a startup começa a ter um faturamento em ritmo mais constante, apesar de ainda estar longe de ter fluxo de renda seguro o suficiente para fazer as contratações necessárias e reduzir a carga de trabalho do time. É aqui que a startup começa a contratar empregados-chave para funções essenciais, como aquelas voltadas ao cliente. Nesta fase, têm início as preocupações com plano e opção de compra de ações e controles para prestação de contas, para dar transparência a investidores. Aliás, em geral, é aqui que os fundos de venture capital começam a se interessar em comprar ações. Em vários casos, a startup precisa passar por um processo de “internacionalização jurídica”, ou seja, constituir holdings fora do país, principalmente para flexibilizar a entrada de investidores estrangeiros. O cuidado com a estrutura precisa ser redobrado. Também é a hora de preocupar-se com processos de sucessão e não concorrência dos sócios.

Somente depois de muito esforço (e se você tiver sorte) começa a fase da escala. É neste momento que a startup tem um número de clientes suficiente para permitir que sejam feitas todas as contratações básicas essenciais. Mas, nem por isso, os desafios acabam, pelo contrário. A accountability (conjunto de mecanismos que permite que os gestores de uma organização prestem contas e sejam responsabilizados pelo resultado de suas ações) aumenta a cada novo passo dado, e o esforço agora é direcionado à instalação e à execução impecável de processos. O crescimento exige processos replicáveis e documentados, com foco em marketing e vendas, habilidades de gerenciamento de pessoal e planejamento detalhado. Nesta fase, a atenção à governança corporativa precisa ser maior em face da movimentação acionária de fundadores, investidores e acionistas. A perspectiva da entrada de investidores maiores, como fundos de private equity, começa a ser desenhada e as exigências, em todas as áreas, passam a ser maiores. É muito importante revisitar a dinâmica de interesses de todas as partes, fundadores, acionistas e colaboradores, além de estruturas jurídicas e questões tributárias, e preparar-se para o momento de saída, com o foco constante de evitar responsabilidades que possam ser “herdadas” mesmo após o exit.

O ótimo não pode ser inimigo do bom

Acho que essa frase de Voltaire cabe perfeitamente aqui. A postergação do modelo perfeito de governança corporativa em startups não deve ser encarada como algo negativo e sim como parte do processo de melhoria contínua.

Vamos jogar juntos?

O fato é que startups com boa governança têm mais sucesso ao levantar capital com investidores e também nos resultados financeiros e contratos comerciais. A governança é a espinha dorsal da geração de valor em uma empresa e, como este conceito será traduzido e interpretado, depende de situações individuais e da necessidade de sofisticação de cada uma delas. A governança corporativa é um processo em evolução e cresce em sofisticação na medida que a startup evolui. Não se pode criar uma estrutura engessada que inviabilize a fluidez de seus objetivos – ela precisa acomodar, de forma dinâmica, cada pivotagem, evolução e rodada de investimento. 

A governança corporativa é a força que aumenta a potência de sua startup!

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