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Opinião

Deixa que alguém resolve!

Um movimento curioso que tenho percebido recentemente é uma espécie de "deixa que alguém vai resolver isto" ou o famoso "deixa que eu deixo"

13 de maio de 2022 - 6h00

Tenho vivido experiências muito diferentes em quase 10 anos de IAB Brasil, mas uma das mais interessantes e complexas tem sido observar o exercício da democracia. Ou, melhor dizendo, o entendimento profundo do que poderia ou deveria ser um ambiente democrático.

Um movimento curioso que tenho percebido recentemente é uma espécie de “deixa que alguém vai resolver isto” ou o famoso “deixa que eu deixo”. É como se a pessoa abraçasse uma causa ou questão a ser resolvida na plena certeza de que, é claro, já deve existir alguém trabalhando nisso, e bastaria só embarcar naquela canoa em que alguém já está remando.

E o curioso é que isso acontece como um senso coletivo de que alguém, em algum lugar, obviamente está cuidando daquele assunto, tamanha a sua importância.

Conforme fui me envolvendo mais diretamente com a área de relações governamentais, percebi essa dinâmica também entre os legisladores, que esperam da sociedade essa participação mais ativa. Um projeto de lei, por exemplo, considera que em algum momento do processo haverá uma participação da sociedade. No entanto, muitas vezes pessoas como eu ou você não nos envolvemos nisso, porque acreditamos que, claro, “alguém deve estar olhando” para esse assunto.

Essa expectativa, muitas vezes errada, de que sempre “há alguém cuidando das coisas que são importantes” atrapalha a percepção ou a leitura real do que acontece no dia a dia da nossa sociedade. Plano diretor da cidade? Alguém deve estar olhando. Nova lei de proteção de dados? Alguém deve estar olhando.

No nosso caso, aqui no IAB, esse senso comum de contar com um expert imaginário que cuidará das questões também se reflete no cotidiano das empresas. Um bom exemplo disso é o Projeto de Lei 2630/2020, também conhecido como PL das Fake News. Acompanhado de perto pela imprensa e por empresas de tecnologia ligadas à publicidade, parece que o entendimento geral do mercado é que “alguém já está cuidando disso”.

Dentro do texto proposto pelo PL das Fake News existem artigos – como o 18 e o 20 do substitutivo apresentado – que afetam diretamente qualquer empresa que faça publicidade digital. Isso inclui varejistas, empresas de serviços, bancos, companhias do setor automotivo ou qualquer outra empresa que faça uso de publicidade digital.

Se aprovado da forma que está redigido, esse PL obrigará, por exemplo, que as estratégias e táticas de mídia, como o perfilamento, se tornem públicas. Hoje, essas informações são tratadas por qualquer meio de comunicação como um segredo de negócio. Imagine se, pelo dispositivo de uma lei, você precisar mostrar ao seu concorrente como planejou e concretizou a sua estratégia para se comunicar melhor com seus consumidores? Esse é um importante diferencial competitivo, que passaria a ficar aberto ao escrutínio de qualquer pessoa com acesso à internet e que tenha contato com a sua publicidade.

Com isso em mente, quem deveria estar preocupado com o PL das Fake News?

A Comunicação é uma ferramenta à serviço dos negócios. Sem a voz de todos os setores da economia que também são diretamente afetados, deixamos vozes que deveriam ser ouvidas para equilibrar o peso das decisões que serão feitas pelos nossos representantes do legislativo.

Talvez as empresas pequenas não saibam como se pronunciar individualmente, não entendam como as definições do projeto de lei funcionam ou nem saibam como manifestar suas opiniões. Talvez outros setores da economia não se atentaram que este é sim um projeto de lei que afeta toda a dinâmica de muitos negócios que dependem dos resultados da publicidade digital. É por isso que temos reforçado tanto a importância da existência dentro do IAB Brasil de uma área de relações governamentais, que possa ouvir e materializar os pedidos e as necessidades dos nossos 230 associados.

Infelizmente ainda há quem acredite que tudo será resolvido dentro de grandes departamentos de grandes empresas, em um processo que pode tanto ser uma supervalorização quanto um preconceito. Daqui de onde eu tenho visto os debates, a verdade é que independentemente do tamanho da empresa, quem faz a diferença mesmo são as pessoas. São os indivíduos inconformados, que falam, se posicionam e se interessam em discutir um tema que, no final das contas, afetará intensamente o futuro cotidiano de trabalho de muitos de nós.

Convido você que me lê a não desconsiderar a sua faísca e sua capacidade de colocar uma reflexão no sistema só porque está hoje em uma empresa pequena ou média. Sua opinião é forte o suficiente para fazer a diferença. Seu argumento é importante para mover a discussão para um outro caminho. Sua manifestação pode ser a última gota que faltava para que os legisladores repensem o projeto e alterem a sua redação. E o IAB Brasil está aberto para ouvir o que você tem a dizer pelo email relgov@iabbrasil.org.br.

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